Descrição de chapéu Coronavírus

Após fala dura, Mandetta ameniza tom, e Planalto vê sinais de alinhamento

Titular da Saúde prega 'união' e adota discurso conciliador; auxiliares, porém, dizem que demissão não está descartada

Brasília

Fortalecido após vencer a queda de braço com Jair Bolsonaro e permanecer no cargo, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, adotou nesta terça-feira (7) um tom mais conciliador, o que foi interpretado por integrantes do Palácio do Planalto como um sinal de busca de alinhamento.

Principal nome do governo federal na condução das políticas de enfrentamento do novo coronavírus, Mandetta tem robusto apoio popular, mas vinha sendo criticado abertamente pelo presidente da República, defensor de medidas menos restritivas e que contrariam a quase totalidade do que é praticado no mundo.

A tensão entre ambos chegou ao ápice na segunda-feira (6), quando Bolsonaro avaliou demitir o auxiliar, mas recebeu pressão contrária da ala militar do governo, de setores do Congresso e de sua própria base de apoiadores nas redes sociais.

Apesar dos movimentos de alinhamento e da pressão interna e externa, auxiliares mantêm o discurso de que a demissão não está descartada, que Bolsonaro é imprevisível e continua insatisfeito com Mandetta. Os dois têm uma reunião às 9h desta quarta (8) no Palácio do Planalto.

O ministro Luiz Henrique Mandetta
O ministro Luiz Henrique Mandetta - Adriano Machado/Reuters

De acordo com relatos de aliados do ministro da Saúde, Mandetta adotou um tom duro na reunião ministerial de segunda, defendendo a sua linha de atuação pautada nos atuais consensos científicos, o que é seguido pela maioria dos países. Depois, o ministro seguiu para o ministério e replicou a fala dura em um pronunciamento à imprensa.

​Integrantes da ala militar avaliaram que Mandetta exagerou no tom dessa fala, ocasião em que, mesmo sem se referir diretamente a Bolsonaro, repetiu diversas vezes que iria se pautar exclusivamente pela ciência.

O ministro ainda citou ter lido o "mito da caverna", de Platão, gesto interpretado por aliados de Bolsonaro como uma provocação para que o mandatário se livre das falsas interpretações que tem da realidade. Por isso, esses integrantes do governo pediram ao ministro que ele baixasse o tom.

A solicitação surtiu efeito, na avaliação de aliados de Bolsonaro. Mandetta manteve na entrevista desta terça-feira seu discurso de que a pasta não recomendará a ingestão de cloroquina —medicamento tratado por Bolsonaro como uma solução para a atual pandemia— de maneira ampla para pacientes com coronavírus. Mas afirmou não se opor a que os médicos receitem o remédio se assim acharem adequado.

De todo modo, o ministro ainda afirma que não há estudos o suficiente que comprovam a eficácia do medicamento. Além disso, também informou que o ministério estuda o tratamento com outras nove substâncias.

"Para que possamos assinar que o Ministério da Saúde recomenda que se tome esta medida logo, nós precisamos de um pouco mais de tempo para saber se isso pode se configurar uma coisa boa ou pode ter algum efeito colateral. Não é questão de gostar de A, de B, de C. É simplesmente a gente analisar com um pouco mais de luz."

Diferentemente da véspera, Mandetta enfatizou nesta terça-feira o tom conciliatório.

"Tudo o que estamos precisando agora é união. Tudo que estamos precisando agora é participação de todos, foco. É normal, ninguém consegue numa situação dessas ter um olhar só de um ângulo. No Ministério da Saúde, a gente tem dúvidas", afirmou.

"Às vezes as pessoas têm opiniões divergentes, é normal que tenham. Acho que é um conjunto de cabeças muito qualificado que pensam juntas e ontem [segunda-feira] fez um exercício coletivo", completou o ministro.

Ainda segundo ele, a hora é de mirar o futuro. "A gente tem que andar para frente, olhar para frente. Isso é uma experiência que a gente tem que olhar pelo para-brisa, para frente, usar pouco o retrovisor. Vamos tocar este barco nosso chamado Brasil, juntos."

Presente na entrevista, o ministro Walter Braga Netto (Casa Civil) também enfatizou o discurso de união.

Além da fala desta terça, integrantes do Planalto viram outros sinais de tentativa de alinhamento.

Na segunda, em meio aos rumores de demissão, a Saúde divulgou um documento com diretrizes para possível flexibilização do isolamento social a partir da próxima segunda-feira (13).

Já dentro do ministério, a divulgação foi vista como uma forma de fixar critérios técnicos e parâmetros diante de uma mudança na condução da pasta —evitando, assim, que uma eventual troca no ministério por um nome alinhado a Bolsonaro levasse a uma flexibilização total e repentina do isolamento e, assim, ao aumento de casos da doença.

Outro gesto foi a decisão, na semana passada, de avalizar a hidroxicloroquina em tratamentos de pacientes graves, não apenas aqueles em estado crítico.

Bolsonaro é um entusiasta do medicamento e quer que ele seja administrado inclusive em estágios menos avançados da doença. Segundo auxiliares, ele pediu a Mandetta uma mudança de rumo na sua resistência à hidroxicloroquina até o final de abril.​

A relação entre o ministro da Saúde e o presidente da República vinha num crescente tensionamento há vários dias. Além da divergência sobre a hidroxicloroquina, Bolsonaro já não escondia sua irritação com o auxiliar por defender um isolamento social mais forte que o desejado por ele, que quer reabrir o comércio no Brasil.

No sábado, de acordo com assessores, Bolsonaro ficou contrariado com um vídeo gravado por Mandetta que foi transmitido em apresentações ao vivo pela internet de artistas sertanejos, como a dupla Jorge & Mateus, que reuniu mais de 3 milhões de espectadores.

No dia seguinte, a um grupo de religiosos, Bolsonaro disse que integrantes de seu governo "viraram estrelas" e que a hora deles vai chegar. Em uma ameaça velada de demiti-los, disse não ter "medo de usar a caneta".

Apesar da aparente tentativa de alinhamento desta terça, a rede bolsonarista que atua na internet segue atacando o ministro pedindo sua demissão. Diante do cenário e da avaliação de que Mandetta não se dobrará a medidas extremas de Bolsonaro, sua permanência na pasta segue incerta.

Segundo pesquisa do Datafolha, o Ministério da Saúde tem aprovação positiva por parte de 76% da população, mais que o dobro da do presidente (33%).

Deputados do DEM reuniram-se na segunda por vídeoconferência e traçaram uma estratégia de reunir todos os prefeitos e governadores da sigla, além dos parlamentares, para um pronunciamento conjunto caso o ministro fosse mesmo demitido.

​Somou-se a isso a pressão do Legislativo. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), falou ao menos com três ministros —Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Onyx Lorenzoni (Cidadania), que também é do DEM.

O recado foi o mesmo: se Mandetta fosse exonerado, não apenas o combate ao coronavírus ficaria prejudicado, mas também a relação com o Congresso.

Nesta terça-feira, Bolsonaro não compareceu a dois eventos em que sua presença havia sido anunciada.

Em uma atualização da agenda feita somente à noite, o governo informou que o presidente teve dois encontros com Antônio Barra Torres, diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e um dos citados como possível substituto de Mandetta, com o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e com a médica Nise Yamaguchi​, defensora do uso da hidroxicloroquina.

Na extensa agenda de terça, que começou às 8h50 e foi ao menos até as 19h, não houve nenhum encontro com o ministro da Saúde.

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