'Ninguém era perdoado', diz fotojornalista autor de imagem símbolo da repressão na ditadura

Evandro Teixeira fez registros históricos do período no Brasil e no Chile

São Paulo

Três cliques na câmera analógica diante de um estudante perseguido por policiais e uma corrida desesperada para escapar marcaram o dia 21 de junho de 1968, no Rio de Janeiro, na memória do fotógrafo Evandro Teixeira, 84, autor da foto do episódio conhecido como “sexta-feira sangrenta” que se tornou símbolo da repressão da ditadura militar.

“Era uma época difícil porque você trabalhava sob pressão. Tudo poderia acontecer com você e ninguém era perdoado, tanto do lado de lá quanto de lá, fosse estudante ou jornalista”, afirmou Teixeira, adicionando que a qualquer momento era possível ser “preso, baleado ou morto”.

O fotojornalista falou nesta segunda-feira dos bastidores da cobertura no período e de outras imagens icônicas que produziu ao longo da carreira no Ao Vivo em Casa, série de transmissões que a Folha está promovendo durante a pandemia.

Teixeira estava na esquina das ruas México e Santa Luzia, cobrindo uma ocorrência no local, quando viu um grupo de jovens correndo na direção dele.

“Vi aquele rapaz sendo perseguido e cliquei de repente. No meio da rua, ele já sendo alcançado, fiz um segundo clique e o terceiro foi ele já levando uma bordoada, batendo com a cabeça e dando um tremendo berro. Uma coisa horrorosa, triste, que até hoje não me sai da memória”, descreveu ao repórter-fotográfico Gabriel Cabral.

A fotografia que mostrou um estudante sendo perseguido e atacado por dois policiais, com cassetetes em mãos, foi publicada no pé da primeira página no Jornal do Brasil, sem o crédito de Teixeira, uma medida do veículo para proteger os profissionais do regime, afirmou.

Logo após fazer a imagem, que faz parte da campanha da Folha em defesa da democracia, o fotojornalista disse que saiu correndo da cena e precisou despistar os policiais na ruas paralelas feito “gato e rato” para não se tornar mais uma vítima daquele dia, em que 28 pessoas foram mortas.

“Quando eles pegavam um jornalista, um fotojornalista, eles massacraram e quebravam o equipamento. Quando você era baleado na rua ou morto, seu familiar não sabia, muito menos a imprensa”, disse, acrescentando a história do colega Alberto Jacó, que teve sete costelas quebradas ao cobrir a missa em homenagem ao estudante Edson Lúis, morto pela polícia.

Estudante é perseguido e atingido por policiais e cai no asfalto
Estudante é perseguido e atingido por policiais durante a chamada 'sexta-feira sangrenta', no Rio, em 1968 - Evandro Teixeira/Instituto Moreira Salles

“Você não cumpria apenas a sua função de fotojornalista, também tinha que trabalhar com o coração e com vontade de combater aquele momento terrível que estava acontecendo no Brasil”, afirmou.

Além dessa fotografia, Teixeira produziu diversas imagens importantes da ditadura no Chile, onde fotografou a repressão no estádio Nacional, em Santiago, e a morte do poeta Pablo Neruda, que descreveu como sua foto mais marcante.

“Na porta do cemitério, foi um momento de emoção sem tamanho. Dedo duro, olhar firme, mas as lágrimas correndo. Talvez tenha sido um dos momentos mais emocionantes da minha vida”, disse.

Teixeira fotografou também a rainha Elizabeth II, um clique rápido numa brecha da segurança na avenida Paulista, e Tom Jobim deitado em uma mesa de bar com Vinícius de Moraes e Chico Buarque ao lado, mas a foto da qual afirma gostar mais de um casamento em Paraty.

“O Brasil é um berço da fotografia hoje, não só nos grandes centros. A fotografia brasileira é grande. O que não temos é incentivo”, disse.

Baiano de Irajuba, um pequeno vilarejo perto de Jequié, o fotógrafo chegou ao Rio no fim da década de 1950. Começou nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, mas permaneceu na publicação por poucos anos, até se transferir para o Jornal do Brasil, em 1963, onde trabalhou por 47 anos.

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