Descrição de chapéu O que foi a Ditadura

Foto de Evandro Teixeira na 'sexta-feira sangrenta' virou símbolo da repressão militar

Imagem foi publicada sem crédito e no pé da primeira página do Jornal do Brasil em junho de 68

São Paulo

Em 22 de junho de 1968, um sábado, o Jornal do Brasil estampou quatro fotos de um mesmo episódio em sua capa. No dia anterior, havia ocorrido no Rio de Janeiro a chamada "sexta-feira sangrenta", um dos atos mais violentos da ditadura militar brasileira contra o movimento estudantil.

Entre as imagens, apenas uma, diagramada no pé da primeira página, tornou-se símbolo, não apenas daquele caso, mas do que significou o regime militar no país.

Sob o enunciado "dois objetos e um objetivo", a fotografia de Evandro Teixeira, 84, mostrava dois policiais, cassetetes em mãos, perseguindo e atacando um estudante. O corpo da vítima, ainda no ar, expressa com contundência a repressão do período.

Agora, 52 anos depois, o registro faz parte da campanha lançada pela Folha em defesa da democracia.

Estudante é perseguido e atingido por policiais durante a chamada 'sexta-feira sangrenta', no Rio, em 1968
Estudante é perseguido e atingido por policiais durante a chamada 'sexta-feira sangrenta', no Rio, em 1968 - Evandro Teixeira/Instituto Moreira Salles

Teixeira, que trabalhou no Jornal do Brasil durante 47 anos, registrava uma manifestação na esquina das ruas México e Santa Luzia quando percebeu uma movimentação incomum e partiu em direção ao Teatro Municipal.

"O rapaz levou uma bordoada tão violenta que se desequilibrou e caiu, batendo a cabeça no meio-fio", relembra ele. "Deu um berro horroroso e ficou lá se estrebuchando."

Quando os agentes perceberam que Teixeira registrava a cena, abandonaram o jovem agredido e partiram para cima do fotógrafo, que correu e conseguiu escapar.

Por isso, desconhece o destino do manifestante, mas afirma acreditar que ele foi um dos 28 mortos naquele dia. Dias depois da "sexta-feira sangrenta", o Jornal do Brasil publicou reportagem que buscava identificar quem era o personagem daquela imagem. Nunca houve resposta.

"A gente não tinha informação de quem era morto, baleado, preso, ferido, nem com o pai nem com a mãe", diz. "Naquela época não usavam bala de festim, era de verdade. O pau comia para valer, e morreu, morreu."

Outra ausência daquele dia é o crédito do fotógrafo na capa do Jornal do Brasil. Seja por estratégia contra a ditadura, capitaneada pelo editor-chefe da publicação, Alberto Dines, seja por uma desvalorização dos profissionais de imagem à época, a foto de Teixeira foi impressa sem o nome dele.

Para a historiadora e jornalista Fabiana Aline Alves, cujo doutorado analisou a atuação de fotojornalistas de 1966 a 1975, durante o regime militar, o resultado prático dessa decisão editorial é indiferente.

"Esses profissionais acompanhavam de perto a rotina da politica brasileira. Com crédito ou sem, Evandro seria reconhecido", afirma ela, professora na Universidade do Oeste Paulista, em Presidente Prudente.

Alves destaca, por outro lado, a escolha em publicar a foto no pé da primeira página, o que poderia ser uma maneira de driblar os censores do regime instalados na Redação do jornal, uma vez que a imagem era "muito forte para estar na primeira dobra da página, mas muito informativa para não estar na capa".

Tão informativa que se tornou atemporal. A historiadora ressalta que não é necessário saber o que foi a "sexta-feira sangrenta" ou quem foi Teixeira para entender o registro. "Embora muito datada temporalmente, é a força de expressão das lutas de hoje, pela democracia e contra a violência policial."

O fotógrafo Evandro Teixeira, então com 83 anos, durante protesto na Cinelândia em memória do aniversário do golpe militar no Brasil
O fotógrafo Evandro Teixeira, então com 83 anos, durante protesto na Cinelândia em memória do aniversário do golpe militar no Brasil - Daniel Ramalho - 31.mar.19/AFP

Ainda que seja muito lembrado por essa fotografia, Teixeira produziu diversas imagens importantes da ditadura no Chile, onde fotografou a morte do poeta Pablo Neruda e a repressão no estádio Nacional, em Santiago, além de outros registros de eventos relevantes no Brasil, nem sempre ligados à ditadura.

Baiano de Irajuba, um pequeno vilarejo perto de Jequié, o fotógrafo chegou ao Rio no fim da década de 1950. Começou nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, mas permaneceu na publicação por poucos anos, até se transferir para o Jornal do Brasil, em 1963.

Ele faz parte de uma linhagem de profissionais da imprensa que trabalharam praticamente em um só veículo. Nos 47 anos fotografando para o periódico, testemunhou as visitas da Rainha Elizabeth 2ª e do papa João Paulo 2º ao Brasil, Copas do Mundo, produziu editoriais de moda e retratou artistas.

É de Teixeira, por exemplo, um lindo flagrante de Tom Jobim deitado em uma mesa de bar com Vinícius de Moraes e Chico Buarque ao lado —ou de Leila Diniz filmando na praia, sorridente e de maiô.

Andava sempre com uma pequena escada de dois andares, o que lhe proporcionava um ângulo diferente em meio a uma avalanche de profissionais que se amontoavam em uma mesma cobertura.

Ainda assim, são as imagens do período de repressão que se destacam. Além dos "dois objetos e um objetivo", Teixeira tem, entre suas fotos mais simbólicas, a da missa em homenagem ao estudante Edson Luís, morto pela polícia, a do motociclista da Aeronáutica caído no Aterro do Flamengo e a da Passeata dos Cem Mil, que acabou gerando um projeto de identificação dos participantes da marcha.

Na madrugada de 1º de abril de 1964, data do golpe militar, fez uma de suas fotos mais importantes. No Forte de Copacabana, onde os militares estavam reunidos, captou um soldado no contra luz, deixaixo de muita chuva. Era o prenúncio de uma era sombria que duraria até 1985.

Tomada do Forte de Copacabana, na madrugada de 1º de abril de 1964, data do início do golpe militar no Brasil
Tomada do Forte de Copacabana, na madrugada de 1º de abril de 1964, data do início do golpe militar no Brasil - Evandro Teixeira - 1º.abr.64/Instituto Moreira Salles

"Ele não é um fotojornalista apenas de imagens emblemáticas, mas um que trabalha construções, narrativas. Ele entendeu seu momento político", afirma Sérgio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles, que recebeu o acervo do fotógrafo em dezembro do ano passado.

Composta por mais de 80 mil negativos e um conjunto de imagens digitalizadas, que ao todo reúne cerca de 150 mil imagens, a coleção de Teixeira aguarda, neste momento, a continuidade de um processo de organização que foi suspenso devido à pandemia de coronavírus.

Para Burgi, o resgate da fotografia de Teixeira para uma campanha pela democracia demonstra que o país vem de experiências de repressão ocorridas há pouco. "A memória recente precisa estar presente de maneira intensa. Esse é o papel da preservação de elementos documentais: a reflexão permanente."

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