Descrição de chapéu Governo Bolsonaro Coronavírus

Isolado de familiares, Bolsonaro adota nova rotina em gabinete improvisado

Diagnosticado com coronavírus, Bolsonaro mantém contato pessoal com assessor que já teve Covid

Brasília e São Paulo

A confirmação de que foi infectado pelo novo coronavírus alterou radicalmente a agenda do presidente Jair Bolsonaro, que desde a tarde desta terça-feira (7) inaugurou uma rotina marcada por isolamento dos próprios familiares, videoconferências com ministros e contato presencial limitado a um assessor que já teve Covid-19.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro, 65, tem dado declarações nas quais minimiza os impactos da doença e, ao mesmo tempo, trata como exageradas algumas medidas tomadas no exterior e por governadores de estados no país.

Agora, no entanto, ele começou a seguir um protocolo médico para evitar o risco de contaminação de seus familiares, funcionários do Palácio da Alvorada e assessores presidenciais.

O presidente Jair Bolsonaro é visto na entrada do palácio da Alvorada no fim da tarde desta quarta (8). O presidente está em isolamento após testar positivo para a Covid-19 - Pedro Ladeira/Folhapress

O presidente passou a dormir em um quarto isolado, longe da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e adaptou um dos dormitórios do Palácio da Alvorada em escritório.

Além do casal presidencial, moram na residência oficial da Presidência a caçula de Bolsonaro, Laura, e a enteada, Letícia. A primeira-dama já realizou exame para o coronavírus, mas ainda aguarda o resultado da contraprova.

Em sua sala de despachos, o presidente tem à sua disposição televisão, computador, telefone, impressora e um aparelho para videoconferências.

Segundo relataram interlocutores à Folha, Bolsonaro tem sido auxiliado presencialmente pelo major Mauro Cid, o chefe da ajudância de ordens. Cid já teve Covid-19 e se recuperou da doença sem ter apresentado sintomas mais graves.

De acordo com assessores presidenciais, quando deixa a sala de despachos, Bolsonaro tem utilizado máscara de proteção e evitado se aproximar de funcionários e familiares.

Em seu primeiro dia de isolamento, o presidente chegou a se deslocar, durante a manhã, até a entrada da residência oficial. Permaneceu no local por alguns minutos, caminhando de um lado para o outro e falando ao telefone.

Ele foi novamente fotografado à tarde caminhando e falando ao telefone na parte interna do Alvorada. Bolsonaro já disse, segundo relatos de auxiliares, que tentará repetir hábitos diários mesmo à distância.

Apoiadores de Bolsonaro rezam em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília, um dia após o presidente confirmar que havia testado positivo para a Covid-19 - Evaristo Sá/AFP

Na manhã desta quarta-feira (8), por exemplo, ele conversou com os ministros Braga Netto (Casa Civil) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) para discutir o cenário político.

E, no final do dia, fez videoconferência com o ministro Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) para a assinatura de decretos e projetos. Para evitar o risco de contágio, as assinaturas do presidente serão digitais.

A equipe médica da Presidência da República tem feito três avaliações por dia (manhã, tarde e noite) no presidente para diagnosticar se ele tem reagido bem ao tratamento no caso de hidroxicloroquina e se os sintomas dele têm arrefecido. ​

Na terça, o governo federal começou a submeter a testes de coronavírus todos os funcionários do Palácio da Alvorada. A intenção é realizar o exame nos 107 assessores presidenciais que trabalham na residência oficial.

Em despachos por videoconferência, o presidente teve agendas oficiais com ministros militares, comandantes das Forças Armadas e com o ministro interino da Educação, Antônio Paulo Vogel.

Fora da agenda oficial, segundo relatos feitos à Folha, ele conversou com Anderson Ribeiro Correia, reitor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), cotado para assumir o Ministério da Educação.

Hoje, o nome favorito para chefiar a pasta é Milton Ribeiro, ex-vice-reitor da Universidade Mackenzie em São Paulo. Ele é pastor da Igreja Presbiteriana de Santos (SP) e foi indicado por Jorge Oliveira.

Bolsonaro também usou o dia para, nas redes sociais, voltar a defender o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. Ele diz estar tomando o medicamento, embora ainda não haja comprovação científica sobre a sua eficácia. Além disso, especialistas alertam para efeitos colaterais graves ocasionados pela utilização da substância.

"Aos que torcem contra a hidroxicloroquina, mas não apresentam alternativas, lamento informar que estou muito bem com seu uso e, com a graça de Deus, viverei ainda por muito tempo”, escreveu Bolsonaro.

O cirurgião Antonio Macedo, que cuidou do tratamento de Bolsonaro após a facada sofrida durante a campanha eleitoral de 2018, disse à Folha que o presidente tem uma saúde perfeita e está em boas condições para enfrentar a Covid-19.

"O presidente está em condições clínicas muito satisfatórias. Acredito que nós não vamos ter nenhuma preocupação maior, nenhum risco maior, devido a esta doença [Covid]", afirmou.

Macedo foi responsável pelos procedimentos em Bolsonaro decorrentes do ataque a faca. A operação mais recente, de um total de quatro, foi feita em setembro de 2019 para corrigir uma hérnia na região abdominal.

Segundo o médico, que operou o presidente no hospital Vila Nova Star, em São Paulo, a hérnia "ficou bem corrigida" e, desde então, ele "está levando uma vida bastante normal".

"Ele voltou a fazer esporte, voltou à normalidade na sua dieta. Então não teria nenhum handicap [desvantagem] que favorecesse uma demora no controle do coronavírus. Provavelmente, ele vai ter uma evolução boa."

Macedo, um dos cirurgiões mais renomados do país, não está acompanhando Bolsonaro na atual enfermidade. "Mas, do ponto de vista do que eu conheço do presidente, ele tem uma saúde perfeita. Não houve nenhuma sequela da facada, da peritonite, da colostomia, nada."

Apesar do isolamento do presidente, não houve mudanças na rotina de seus ministros mais próximos, que continuaram a despachar no Palácio do Planalto —seus testes para Covid tiveram resultado negativo.

Além disso, Bolsonaro publicou um decreto em que autoriza o uso de videoconferência nas reuniões de colegiados da administração pública federal.

De acordo com o texto, assinado pelo presidente no mesmo dia em que anunciou ter contraído o vírus, a decisão de fazer videoconferência é do presidente ou coordenador do colegiado.

Mas, independente da decisão dessas pessoas, é garantida aos membros de colegiados que desejarem a participação nas reuniões de maneira remota.

O governo afirma que a orientação dada aos servidores é "procurar assistência médica quando apresentarem sintomas relacionados à Covid-19, para avaliar necessidade de testagem. Nos casos considerados suspeitos, os servidores são orientados a ficar em casa até o resultado do exame".

Ainda segundo um comunicado da Secretaria-Geral, até 3 de julho existiam 108 casos confirmados da Covid-19 entre os quase 3.400 servidores da Presidência, sendo que 31 estão em acompanhamento. "Não houve mortes e mais de 90% desses casos foram assintomáticos ou apresentaram apenas sintomas leves."

O secretário de vigilância em saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Correia, disse que Bolsonaro tem uma equipe profissional que acompanha sua situação médica e que a orientação é que as pessoas que tiverem contato com um caso confirmado procurem uma unidade de saúde.

“Nossa orientação é que qualquer pessoa que tenha contato com caso confirmado deve procurar unidade de saúde. Para que o profissional de saúde, ao fazer sua análise e anamnese (histórico clínico), verificar sinais, sintomas, e quais as medidas necessárias, possa de maneira precoce verificar quais as medidas necessárias de saúde, de tratamento”, disse.

"Se for o caso, vai prescrever medidas de distanciamento, farmacológicas ou não, que estejam de acordo com o serviço de saúde que procurou, garantindo a autonomia do profissional."

Correia também foi questionado sobre o fato de Bolsonaro ter dito que começou a tomar hidroxicloroquina antes de saber o resultado do exame, o que contraria parecer do CFM (Conselho Federal de Medicina). O secretário não respondeu a essa pergunta.

Nesta quinta-feira (9), mesmo com o isolamento temporário, o presidente avisou que fará uma live nas redes sociais. Na transmissão online, ele pretende relatar detalhes de sua nova rotina e como tem sido a sua recuperação.

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