Estratégia de Bolsonaro faz com que pareça falar sempre a verdade, diz cientista político

Para Felipe Nunes (UFMG), popularidade digital do presidente está relacionada a polêmicas na lógica dos stories, que duram apenas 24 horas

Porto Alegre

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) adota uma estratégia de comunicação que preza pela forma, mais do que o conteúdo. “Ele parece estar falando sempre a verdade: Pode até errar, mas [parece que] não está mentindo para você”, avalia o cientista político Felipe Nunes.

Professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e CEO da Quaest (consultoria que analisa popularidade de figuras públicas em redes sociais), Nunes entende que o presidente “se vale sempre de certa impulsividade que dá a ele uma chancela de pessoa verdadeira”.

O presidente é a personalidade mais popular, segundo o índice de popularidade digital (IPD) monitorado pela Quaest. Para o pesquisador, Bolsonaro consegue se manter em alta lançando polêmicas frequentes na lógica dos “stories”, publicações nas redes sociais que duram 24 horas e depois saem do ar.

Felipe Nunes, professor da UFMG e diretor da consultoria Quaest
Felipe Nunes, professor da UFMG e diretor da consultoria Quaest - Reed Hutchinson

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​​Qual será a principal característica da eleição municipal deste ano? Será a necessidade que o eleitor vai ter de escolher candidatos capazes de resolver problemas. Depois de duas eleições, de 2016 e 2018, em que a nova política era o grande tema, agora é se o candidato consegue ou não resolver problemas. A pandemia tem um efeito fundamental nisso.

Sem poder fazer aglomerações típicas da campanha eleitoral, como o virtual influenciará o voto? Em cidades grandes, como o nível de acesso à internet é mais alto, o virtual terá um papel fundamental para substituir a rua. Mas há muitas cidades no Brasil em que essa não é a realidade, onde o trabalho de engajamento continuará sendo das redes pessoais, com os vizinhos e amigos. No Brasil digital, do Rio, São Paulo, Belo Horizonte, o virtual dará mais transparência ao dia a dia das campanhas.

As fake news devem influenciar novamente a eleição? Fizemos um experimento em Minas Gerais [com os pesquisadores Natália Bueno, Nara Pavão e Frederico Batista] para verificar se há vacina para as fake news. Descobrimos que, no período pré-eleitoral, a checagem profissional tem efeito positivo. Mas não durante o pleito, quando a checagem e o jornalismo profissional não conseguiram alterar de maneira significativa a percepção das pessoas. O principal fator determinante para acreditar ou não em fake news é a predisposição ideológica.

De que maneira as fake news impactarão a campanha? É interessante que, estudando a eleição de 2018, não se encontra o efeito das fake news nas pessoas que não têm sentimento de identidade partidária. As fake news parecem afetar mais um público radical e ideologizado. A maioria das pessoas não tem esse perfil.

Então, a gente se perguntou por que os políticos usam as fake news. Acreditamos que é para um efeito de mobilização. Políticos utilizam esse tipo de manipulação para engajar seus eleitores, dando artilharia para o militante ir para a rua, encher o saco de amigos, familiares, encher a caixa de emails e WhatsApp de informação. Parece cada vez mais que as fakes circulam em espaços de alta politização. Mas não se descobriu essa vacina [contra as fake news].

Muitas pessoas possuem planos telefônicos com dados gratuitos para navegação apenas no Facebook e no WhatsApp, onde as fake news se espalham, não acessando sites de jornalismo profissional. Não é uma luta desigual? É uma ótima ponderação. Para responder, queria contextualizar. Bolsonaro é de fato o primeiro presidente digital do Brasil. Ele não distribui release para imprensa, ele cria hashtag. Ele não dá coletiva, ele cria memes. Não fala à imprensa da maneira convencional, ele a ataca.

Ele faz isso porque percebeu, desde 2014, que era possível quebrar o cartel da mediação do debate. Quando se cria esse mecanismo de diálogo direto, abre a possibilidade de produzir conteúdos da maneira que acha melhor. Ele faz isso de maneira muito eficiente. Isso só deu certo porque também houve mudança na conjuntura da comunicação. Embora nem todo mundo tenha acesso, existem cada vez mais pacotes com dados gratuitos para as redes. É claro que afeta a maneira como as pessoas vão se informar.

Bolsonaro é o presidente mais popular segundo o Índice de Popularidade Digital [IPD]. Como ele se mantém popular? Ele sempre foi a personalidade mais popular desde o início do monitoramento, em 2019. Mas sofreu reveses. A primeira vez que a base se dividiu foi quando ele tentou emplacar o filho como embaixador nos Estados Unidos. Depois, com a saída do Mandetta [ex-ministro da Saúde] e do Moro [ex-ministro da Justiça].

Assim como se equivoca, ele rapidamente muda de postura sem nenhum tipo de constrangimento. Ele faz isso porque a comunicação em rede vale como um stories [publicação no Instagram], vale 24 horas [depois sai do ar]. Pautar a discussão de 24 em 24 horas, alimentar a opinião pública de polêmica é o que faz com que o presidente mantenha a popularidade em alta.

Como Bolsonaro influenciará a eleição municipal? O fato de o presidente não ter um partido político dá a ele a possibilidade de se esquivar. Nos Estados Unidos, a eleição legislativa no meio do mandato indica se o presidente tem aprovação ou não, conforme a bancada eleita. No Brasil era a mesma coisa, foi assim com FHC, Lula e Dilma. Mas nesse ano será diferente. Vamos ter uma eleição municipal em que a contabilidade vai ser difícil porque não tem um partido político para conectar. Acredito que ele terá uma estratégia de se envolver o mínimo possível com as candidaturas até que possa ter mais certeza de seus preferidos em cada cidade.

Por que a popularidade de Moro derreteu? Moro foi a personalidade política que mais chegou perto do presidente, chegou a ultrapassá-lo em determinado momento. Ele desmoronou e está muito irrelevante no cenário nacional. Por um lado, é uma figura que não tem a simpatia nem dos bolsonaristas nem dos petistas. Acaba sendo uma figura mais marginal do sistema.

Mandetta também disputou atenção. Bolsonaro decide sua equipe considerando esses critérios de popularidade? Bolsonaro se vale sempre de certa impulsividade na ação que dá a ele uma chancela de pessoa verdadeira. É a forma, mais do que o conteúdo. Ele parece estar falando sempre a verdade: Pode até errar, mas [parece que] não está mentindo para você.

É difícil saber se leva em consideração esse elemento [da popularidade dos ministros], mas sem dúvida nenhuma, ele tem conseguido por conta dessa atitude manter viva uma certa ideia de que é um presidente que realiza e dá jeito no Brasil.

Como ele consegue manter essa aura com tantos escândalos que envolvem sua família, como no caso do Fabrício Queiroz? Justamente porque é uma figura que consegue mudar de assunto o tempo todo. É impressionante como toda vez que tem um problema que chega próximo da família, consegue desviar com outro assunto ou outra polêmica.

No IPD, Luciano Huck é mais popular do que o ex-presidente Lula. Por quê? Comentei que Bolsonaro é o primeiro presidente digital do Brasil. Quando ele quebra o cartel da comunicação, quebra para todo mundo. Por sua trajetória e alto alcance como apresentador de TV, Huck consegue disputar com Bolsonaro melhor do que os políticos tradicionais como Lula e Ciro.

Se os políticos tradicionais quiserem ganhar na rede, vão precisar adaptar estratégias para forma e conteúdo mais compatíveis. Algorítmos e pessoas parecem gostar mais de produções feitas no celular, de maneira meio tosca, sem grandes produções do que aquelas feitas com câmera, com fala forçada. É um componente técnico ao qual a política tradicional ainda não conseguiu se adaptar.

Podemos afirmar que a direita domina mais estas técnicas e estratégias do que a esquerda? A direita está em vantagem. Mas não ousaria dizer que a esquerda já perdeu pois está na oposição e construindo sua postura e forma de comunicar. Porém a esquerda jogou um jogo diferente do que a direita. Foram usados [pela direita] mecanismos que corromperam o sistema, como a maneira como usou os disparos de massa. É uma vantagem competitiva, mas com mecanismos incorretos, para não dizer ilegais. A esquerda está, sim, atrás, mas por conta de fatores que não são apenas das regras do jogo.

RAIO-X

Felipe Nunes, 36
É professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), onde preside o Centro de Estudos Legislativos. Doutor em Ciências Políticas pela Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), é CEO da consultoria Quaest.

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