Azarão na disputa, Fábio Ramalho diz que Câmara não pode ser dividida em cleros e critica teto na pandemia

Deputado do MDB-MG, visto como nome avulso na eleição da presidência da Casa, afirma que momento é de vacinação

Brasília

Em sua terceira campanha ao comando da Câmara dos Deputados, o deputado federal Fábio Ramalho (MDB-MG) afirma que, novamente, não abrirá mão de sua candidatura e que o embate entre Jair Bolsonaro (sem partido) e Rodrigo Maia (DEM-RJ) não tem sido saudável para o país.

Conhecido como "deputado da leitoa", em referência aos banquetes que promove com políticos e empresários, o candidato avulso defende a prorrogação do auxílio emergencial neste ano e diz que o momento não é de se discutir impeachment, mas de garantir que o povo seja vacinado.

"A gente vai manter teto de gastos e os brasileiros vão morrer? Primeiro, a gente salva o povo brasileiro", ressalta. Ele disputa contra Baleia Rossi (MDB-SP) e Arthur Lira (PP-AL), considerados com bem mais chances de vencer a eleição de 1º de fevereiro.

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O senhor já disputou duas vezes e não ganhou. Por que tentar de novo? Porque penso que aquela Casa tem de mudar. E vejo que o Parlamento é injusto com a maioria dos parlamentares. A gente sempre é discriminado como baixo e alto cleros. E temos que acabar com isso, temos de ser um clero só.

Os outros candidatos não teriam capacidade de unificar a Câmara? A maneira como eles trabalham é diferente da minha. Nos partidos, sempre tem duas ou três pessoas que são relatores e presidentes de comissões não permanentes. Tem de haver uma melhor distribuição. Uma pessoa não pode ser relatora mais de uma vez em uma mesma legislatura.

Ramalho falando diante de quadros
O deputado federal Fábio Ramalho (MDB-MG) fala à Folha sobre sua candidatura à presidência da Câmara - Pedro Ladeira - 12.jan.2021/Folhapress

O senhor manterá a candidatura até o fim? Claro, quem me conhece sabe que eu não volto atrás.

Os outros candidatos pediram ao senhor para abrir mão? Baleia e Arthur conversaram comigo. A gente teve uma conversa boa, mas todos sabem que eu não retiro.

Caso não passe para o segundo turno, como das outras vezes, quem apoiaria: Baleia ou Lira? Eu estarei no segundo turno. O presidente da Câmara não está acima de ninguém. Ele é um deputado como todos os outros. Hoje, a maioria dos deputados não participa da maioria das decisões.

O senhor se considera um azarão? Não. Me considero uma pessoa que vem na vida para vencer.

Quantos votos acredita ter hoje? Eu vou ter mais de 190 votos no primeiro turno. Tenho certeza do que estou falando.

Mas na passada o senhor teve 66 votos. Essa eleição é muito diferente das últimas. Nas outras, sempre tinha uma eleição decidida. Na Câmara, não aceitamos um voto de cabresto. Temos de ter a liberdade de escolha.

O senhor se refere a quem? A presidentes de partidos e interferências externas de governadores e do próprio presidente.

Bolsonaro tem interferido? Ele tem feito o trabalho como presidente da República. E talvez essa briga dele com Rodrigo não é boa para o Brasil. A Casa precisa, neste momento, de harmonia, conversa e diálogo.

O senhor concorda com as críticas recentes de Maia a Bolsonaro? A hora é de conversar, não é de brigar. Essas críticas não são construtivas. Eu sempre disse a Rodrigo e a Bolsonaro nas vezes em que estive com eles: “Vocês têm de conversar e almoçar mais. Têm de se inteirar e procurar se entender”.

A gestão da pandemia do coronavírus pelo Ministério da Saúde foi falha? Não tem de brigar ou criticar. O povo necessita da vacina e precisamos ter união e harmonia para vacinar os brasileiros. Não podemos aumentar esse sofrimento.

Não é um desserviço o presidente colocar em xeque a efetividade da vacina? Nós temos de convencê-lo a tomar. Isso com jeito e com conversa. Eu já falei com ele sobre vacina e ele escutou. Ele não falou que ia tomar, mas vamos convencê-lo de que a vacina é necessária.

Se eleito, analisará os pedidos de impeachment contra o presidente? Não é o momento de se tratar de impeachment. O Brasil tem uma pauta muito maior que impeachment. Primeiro, vacinar o povo brasileiro. Depois, procurar um auxílio emergencial, que é urgente para as pessoas que começarão a passar fome.

O senhor defende que o auxílio emergencial seja estendido para este ano? Sou, mas temos de fazer uma melhor distribuição para as pessoas que necessitam dele. E ele tem de ser direcionado para a alimentação.

Lira tem afirmado que é preciso respeitar o teto de gastos. Em pandemia, não existe teto de gastos. No mundo inteiro não tem. É um momento excepcional. A gente vai manter teto de gastos, e os brasileiros vão morrer? Primeiro, a gente salva o povo brasileiro.

O senhor se arrepende de ter votado pelo impeachment de Dilma Rousseff? Me arrependo. Foi um erro, porque a gente construiu uma ruptura democrática no país.

A votação para presidente da Câmara deve ser presencial ou eletrônica? Eu acho que não se pode quebrar isso [eleição presencial]. O presidente Rodrigo não pode levar uma polêmica dessa. As eleições na Câmara sempre foram presenciais e secretas.

O senhor pautaria, caso eleito, proposta que institui novamente o voto impresso? Nós temos um sistema hoje que é um dos melhores do mundo. Eu já fui eleito seis vezes nesse sistema. Não vejo por que mudá-lo. O presidente foi eleito nesse sistema. Eu não vejo falha no sistema.

Bolsonaro errou ao não ter condenado a invasão ao Capitólio por apoiadores do presidente Donald Trump? Totalmente. O Parlamento é a casa do povo e tem de ser protegido.

RAIO-X

Fábio Ramalho dos Santos, 59

Formado em direito, está em seu terceiro mandato como deputado federal. Filiado ao MDB de Minas Gerais, foi primeiro-vice-presidente da Câmara de 2017 a 2019

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