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PSDB suspende prévias após problemas no app e nova votação depende de ajustes no programa

Uso da ferramenta foi definido pelo partido mesmo após as campanhas de João Doria e Eduardo Leite apontarem falhas

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Brasília

O PSDB decidiu neste domingo (21) suspender as prévias presidenciais entre os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS) por causa dos problemas apresentados pelo aplicativo de votação destinado aos filiados e afirmou que o processo só será retomado o quanto antes após ajustes no programa.

O partido não determinou quando a votação será retomada —há impasse entre os concorrentes sobre a definição de uma nova data. Em encontro na noite deste domingo (21), o presidente do partido, Bruno Araújo, definiu que haverá uma reunião com a empresa desenvolvedora do app nesta segunda. A partir daí, será possível verificar a viabilidade técnica de retomar a votação o mais rápido possível.

"Amanhã [segunda, 22], no início da tarde, haverá um parecer técnico [...] sobre qual é o real status, o diagnóstico do aplicativo. Para entender qual é o tempo de viabilidade de resolução dele. Em havendo um tempo de viabilidade de resolução de curtíssimo prazo, a ideia é que ele [o app] seja disponibilizado praticamente imediatamente", disse.

Governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e São Paulo, João Doria
Governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, cumprimenta governador de São Paulo, João Doria, em centro de convenção em Brasília - Reuters/Ueslei Marcelino

Araújo disse ainda que, se a resolução da ferramenta demorar um longo prazo, as campanhas terão que dialogar sobre como fechar a votação. A sigla afirma que manterá os votos deste domingo lacrados.

"O processo de votação em aplicativo encontra-se pausado em razão de questões de infraestrutura técnica, que não comportou a demanda dos votantes das prévias. Os votos registrados neste domingo estão preservados e o PSDB está definindo, junto com os candidatos, em que momento o processo será retomado", afirma o partido em nota.

A legenda afirma ainda que "todos os votos registrados desde a abertura da votação neste domingo estão válidos e serão computados". "Os votos recebidos tanto pelo aplicativo quanto por meio das urnas eletrônicas ao longo deste domingo serão totalizados ao final do processo de votação. A integridade e a segurança do sistema estão totalmente preservadas", conclui a nota.

Para tentar uma solução diante da instabilidade do app ao longo de todo o dia, os candidatos, incluindo Arthur Virgílio (AM), discutiram, em reunião com a direção do PSDB, adiar ou prorrogar as prévias. O encontro foi proposto pela campanha gaúcha, mas terminou sem entendimento.

No entanto, em nova reunião na noite de domingo ficou acertado que haveria uma conversa da direção com a empresa desenvolvedora do aplicativo para analisar a viabilidade de retomar a votação.

A campanha de Leite propõe retomar a votação o mais rápido possível —falam num prazo de 48 horas, mas tudo depende de o aplicativo ser consertado até lá. Já as campanhas de Doria e de Virgílio queriam retomar a votação no próximo domingo (28), o que daria uma semana para correção da ferramenta.

Auxiliares de Doria afirmam que, na reunião, a equipe de Leite sugeriu adiar as prévias para 2022, algo que o gaúcho nega.

A falta de acordo sobre quando retomar a votação agravou a briga entre as campanhas de Leite e de Doria.

Leite e Doria se encontram no início do evento das prévias do PSDB, que acabou adiado - Pedro Ladeira/Folhapress

A avaliação geral é de que as dificuldades no aplicativo prejudicaram a imagem do PSDB —as prévias, antes uma iniciativa inovadora, se tornaram um vexame colocado na conta da direção nacional, que bancou a ferramenta.

O aplicativo custou mais de R$ 2 milhões ao PSDB, mas os gastos das prévias são maiores, chegando a R$ 9 mihões —incluem a realização de evento em Brasília, neste domingo, e a verba para cada campanha, que foi de mais de R$ 1 milhão. Há ainda as passagens e hospedagens para que prefeitos de todo o Brasil fossem à capital federal.

Em nota conjunta, Doria e Virgilio afirmaram que, desde o início, defenderam a ampla participação de todos os filiados e a utilização de urnas eletrônicas, "que regem o sistema eleitoral brasileiro de forma segura, simples e transparente."

Os dois candidatos disseram que houve alertas durante todo o processo sobre a fragilidade do aplicativo e sobre os "problemas de instabilidade e insegurança que o modelo proposto poderia trazer para as primárias".

Mesmo com as advertências das duas campanhas e da Kryptus, auditoria contratada pelo PSDB para garantir a lisura da eleição, continua a nota, a direção do partido optou por manter o contrato com a Faurgs (Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e por usar a plataforma.

"Diante das inúmeras falhas do próprio aplicativo, ocorridas durante o todo o processo de votação, neste domingo (21), se faz necessário o ajuste imediato do aplicativo", dizem. "É urgente retomar o processo de escolha do candidato em respeito aos filiados tucanos e o seu direito de votar."

À imprensa, Doria afirmou que apenas 8% dos filiados cadastrados para voto no app conseguiram fazê-lo —FHC e o senador José Serra (SP), por exemplo, não conseguiram. Nem mesmo Virgílio votou.

O governador de São Paulo criticou ainda a escolha do PSDB por um sistema de votação híbrido e a escolha de uma fundação gaúcha para o processo. O partido, no entanto, avaliou o uso de urnas eletrônicas pelo país e concluiu que não teria como arcar com a logística disso.

Também pesou a leitura de que o diretório de São Paulo tem estrutura para levar os eleitores até a urna, enquanto outros não têm. Por isso, a campanha de Leite foi entusiasta do uso de um aplicativo.

Leite defendeu sua proposta por meio de uma nota. "A campanha de Eduardo Leite manifesta-se em nome do bom senso, da celeridade do processo e da manutenção do regramento eleitoral pela conclusão do processo em, no máximo, 48 horas."

"Vamos ao voto e que na terça-feira (23) o PSDB apresente seu candidato para mudar o Brasil", completa.

​Em nota, a Faurgs, desenvolvedora do app, afirmou estar investigando todas as possíveis causas da instabilidade verificada no aplicativo. "Desde que os primeiros relatos foram informados, os esforços dos técnicos da instituição estão em descobrir a causa da lentidão do sistema. Assim que houver total comprovação, o detalhamento desse ocorrido será levado a público", indicou, em nota.

Segundo a fundação, os problemas não têm qualquer relação com a compra de licenças para suportar o reconhecimento facial dos filiados. "Tanto é que o mesmo número de certificados permitiu o cadastramento bem-sucedido dos mais de 44 mil eleitores", continua o comunicado.

A votação pelo aplicativo se destina aos filiados sem mandato e vereadores. A votação presencial por meio de urnas eletrônicas, que ocorreu em Brasília, foi voltada apenas a prefeitos e vices, governadores e vices, deputados federais, senadores e ex-presidentes do PSDB.

No início da noite, no centro de convenções Ulysses Guimarães, onde estava prevista uma grande festa com o anúncio do resultado, funcionários começaram a desmontar o palco —o entusiasmo dos militantes visto no evento pela manhã se transformou em melancolia.

Inicialmente, o horário para votar seria de 7h às 15h, mas precisou ser ampliado para 18h para distribuir o fluxo, após a ferramenta começar a travar no país.

O uso do aplicativo foi definido pelo PSDB mesmo após as campanhas de Doria e Leite apontarem falhas e fragilidades. O partido apostou na correção desses problemas até a votação.

Os diretórios de São Paulo, aliado a Doria, e do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, aliados a Leite, emitiram notas reclamando do processo de votação.

Em nota, Marco Vinholi, presidente estadual do PSDB-SP, e Fernando Alfredo, presidente municipal do PSDB-SP, disseram que, das 8h às 12h, o aplicativo apresentava instabilidade, impossibilitando votação. "Somente em São Paulo são cerca de 26 mil (62% do total) credenciados que, neste momento, não conseguem acesso ao voto", diz em nota.

Aplicativo de votação de prévias no PSDB entre João Doria, Eduardo Leite e Arthur Virgílio - Divulgação PSDB

A votação presencial, em Brasília, também ocorreu em clima de tensão. Auxiliares de Leite e de Doria se concentraram em torno da cabine destinada a parlamentares para acompanhar .

Deputados que originalmente optaram por votar pelo aplicativo acabaram comparecendo ao evento para votar presencialmente e garantir seu voto, uma vez que a ferramenta era inviável. Essa estratégia gerou confusão e possibilidade de que os deputados votassem duas vezes, pelo app e pela urna.

Em um arranjo de última hora, os deputados que chegaram para votar foram sendo autorizados, um a um, a depositar seu voto na urna mediante aval das duas campanhas rivais —e sua opção de voto no aplicativo seria anulada.

Por isso, a possibilidade de erros e judicialização foi crescente. Parlamentares pró-Leite e parlamentares pró-Doria passaram a ressaltar as vulnerabilidades da votação.

Houve uma briga quando a deputada federal Mara Rocha (AC) chegou para a votação e precisou da autorização. A deputada afirmou ser bolsonarista e que estaria de mudança para o PL, mas que votaria em Leite.

Diante da resistência da equipe do governador paulista em autorizar o voto da deputada, ela afirmou que houve tentativa de comprar seu voto para Doria.

"Eu vou dizer quem quis comprar meu voto. Eu tenho mensagens aqui. Se não deixarem eu votar, eu vou dizer quem me ofereceu dinheiro para votar no Doria. Vou votar senão vou jogar merda no ventilador", gritou.

Antes da suspensão, pela manhã, o presidente do PSDB, Bruno Araújo, havia minimizado os problemas. "Se o aplicativo está sendo demandado, é porque há envolvimento", disse neste domingo ao chegar ao centro de convenções Ulysses Guimarães. Ele afirmou ainda não descartar que o processo de votação acabe judicializado pelo perdedor, embora diga não esperar isso.

"Estamos tendo momentos de mais pico, o início da manhã foi mais tranquilo. Houve aumento bastante substancial nos últimos 50 minutos [por volta das 9h], mas já temos um fluxo razoável de votos. A equipe está buscando calibrar não só o fluxo, mas a segurança do sistema", afirmou.

O aplicativo demanda dupla autenticação para a votação, com foto para reconhecimento facial e verificação via SMS. A trava acontecia no momento do reconhecimento facial.

A ferramenta foi desenvolvida pela Faurgs e foi auditada pela empresa de segurança cibernética Kryptus, que acompanharam a votação neste domingo. Além disso, consultores do PSDB e de cada uma das três campanhas monitoraram os dados do aplicativo em tempo real.

O acompanhamento foi elaborado com a ideia de dar mais segurança ao processo, mas dirigentes do partido e membros da campanha reconhecem que a ferramenta não estava totalmente pronta e pode haver riscos.

Ao todo, 44,7 mil tucanos (cerca de 3% do 1,3 milhão de filiados) se inscreveram para a votação indireta, em que cada grupo representa 25%: filiados; prefeitos e vices; vereadores e deputados estaduais; deputados federais, senadores, governadores e vices, ex-presidentes do PSDB e o atual.

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