Descrição de chapéu Eleições 2022

Lula e Bolsonaro trocam acusações sobre corrupção e disputam economia em debate truncado

Na Globo, candidatos resgataram escândalos do mensalão e das rachadinhas e rivalizaram sobre salário mínimo

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São Paulo e Rio de Janeiro

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) se enfrentaram em torno de temas como economia e valorização do salário mínimo e trocaram acusações sobre corrupção em debate na TV Globo na noite desta sexta-feira (28), a dois dias do segundo turno das eleições.

Após o debate, em entrevista à emissora, Bolsonaro, que está em segundo lugar nas principais pesquisas de intenção de voto, disse se comprometer em respeitar o resultado das eleições de domingo (30), mesmo que ele não seja o mais votado.

"Não há a menor dúvida. Quem tiver mais voto leva. É isso que é democracia", disse para a apresentadora Renata Lo Prete, no Jornal da Globo.

Ao logo da campanha, Bolsonaro havia dito que só aceitaria o resultado caso considerasse que as eleições foram limpas. Nos últimos dias, a campanha levantou suspeitas não comprovadas sobre inserções em rádios do Nordeste a favor do petista.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no debate da TV Globo - Reprodução/TV Globo

No debate, sem profundidade, as discussões entre Lula e Bolsonaro se perderam em meio a ataques e contestações mútuas. O petista pediu 19 direitos de resposta e ganhou 2, enquanto o presidente pediu 5 e não ganhou nenhum.

Os candidatos entraram em embates sobre os legados de seus governos em áreas como política externa, valores de programas de transferência de renda (o Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil) e geração de empregos. Sobraram menções ao adjetivo "mentiroso", com ambos resgatando escândalos e polêmicas do lado oposto.

Os dois se esquivaram de temas incômodos, o que deixou truncado o ritmo do último debate antes da votação.

O petista introduziu questões de política externa quando foi questionado seguidamente sobre corrupção. Ele também conseguiu desviar da acusação de Bolsonaro de ser favorável à chamada "ideologia de gênero" e às drogas. "Não pensa nas crianças e nem na família", disse o incumbente.

Também evitou responder afirmação de Bolsonaro sobre invasão de terras pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), mas respondeu à acusação de ser "abortista", dizendo-se a favor da vida. O petista leu trecho de declaração do adversário na Câmara dos Deputados, em 1992, que citava a possibilidade de distribuição de pílula abortiva em um contexto a respeito de controle de natalidade.

"Nem lembro mais", respondeu o candidato do PL, que também falou: "Trinta anos atrás? Eu posso mudar, ué".

O tom de ambos foi mais ríspido do que o visto no debate promovido por Folha, UOL, TV Band e TV Cultura, no dia 16. Eles se movimentaram pelo estúdio e falaram olhando para as câmeras. Bolsonaro se queixou mais de uma vez de barulho feito por assessores do petista.

Lula desta vez não repetiu falhas no controle do banco de tempo, mas cometeu pequenos deslizes —trocou segundos por minutos em uma fala e 2019 por 1919.

Bolsonaro também se confundiu em algumas ocasiões, sendo uma delas nas considerações finais, quando errou o cargo que disputa: "Muito obrigado, meu Deus. Se essa for a sua vontade, estarei pronto para cumprir mais um mandato de deputado federal. Presidente da República".

O candidato do PT chegou a falar que não queria ficar perto do adversário no estúdio, depois que o presidente lhe disse: "Fica aqui, rapaz. Fica aqui, Luiz Inácio". Ao longo do programa, no entanto, o candidato do PT se aproximou do oponente. Chegou a ressaltar que ficaria perto dele para ouvir a justificativa sobre a compra de Viagra para membros das Forças Armadas.

Bolsonaro explorou pontos fracos do concorrente ao dizer que seu governo recebeu "sérios problemas éticos, morais e econômicos, em grande parte herdados do governo do PT". Também afirmou que "o sistema todo está contra" ele, inclusive a Globo e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Quando lhe sobraram alguns segundos a mais que Lula, o presidente olhou para o alto, ergueu as mãos e disse: "Deus, pátria, família e liberdade. Obrigado, meu Deus, por esse momento".

Lula optou por abordar temas econômicos, um dos pilares de sua campanha, para desgastar o rival. Mencionou o aumento da fome e a inflação dos alimentos, cobrando Bolsonaro pela falta de assistência aos pobres. "O povo está sentindo na carne, sabe que está passando fome, que está desempregado."

Uma das principais discussões foi em torno da revelação pela Folha, na semana passada, do plano do ministro Paulo Guedes (Economia) para mudar a política de reajustes do salário mínimo e de aposentadorias, permitindo que eles passem a ter aumento abaixo da inflação.

Bolsonaro reclamou que a campanha petista mentiu ao dizer no horário eleitoral que ele, se reeleito, não reajustará o salário e cortará férias e horas extras. O governante também prometeu que o salário mínimo terá valor de R$ 1.400 em 2023. Lula disse que o salário mínimo hoje (R$ 1.212) é menor do que quando o oponente assumiu o governo e que, antes, o PT garantia aumento real.

Bolsonaro afirmou: "Ele fica mentindo nos programas eleitorais para tentar ganhar voto das pessoas mais desavisadas. Isso é um estelionato. É levar o terror para os mais humildes".

"Você já viu esse país crescer, gerar emprego. Você já viveu o melhor, e não pode acreditar em fantasia. O salário mínimo não teve aumento real durante o mandato deste homem e ele vem aqui, com a cara de pau, prometer que vai aumentar", discursou o ex-presidente.

Com a insistência de Bolsonaro em debater o teor da propaganda do oponente, Lula disse que ele estava preso em um tema. "Parece que o meu adversário está descompensado, porque ele é um samba de uma nota só", afirmou o ex-presidente, que em outro momento falou que Bolsonaro estava desequilibrado.

"Eu não vou ficar vendo programa de televisão. Quem vê o programa de televisão é quem faz o programa de televisão e quem está em casa. Eu estava na rua conversando com o povo."

Bolsonaro buscou reforçar a ideia que a economia vai bem, com recorde de empregos. "Será que vou ter que dar uma exorcizada em você para parar de mentir?", disse a Lula, que afirmou que não responderia a mentiras. "Não compensa. Diga alguma coisa com coisa", afirmou o petista.

Lula recorreu à tese de que o adversário enfileirava disparates para fugir da discussão sobre temas importantes para o futuro do Brasil e chegou a ironizar que o rival precisava de um intervalo para pensar melhor sobre o que poderia falar.

O petista disse que em seu governo as pessoas tinham dinheiro para comprar comida, eletrodomésticos e para viajar. "Hoje o país está empobrecido. Por que o povo ficou miserável no seu governo?", questionou, citando a cifra de 33 milhões de pessoas passando fome e um dado de reportagem da Folha, baseado em pesquisa Datafolha, de que 24% dos brasileiros dizem ter comida insuficiente. O petista, porém, se confundiu e disse 24 milhões de pessoas.

Bolsonaro afirmou que, com base no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a miséria diminuiu em seu governo. "A minha fonte é o Ipea. Sua fonte é a Folha de S.Paulo. Pelo amor de Deus", ironizou.

O presidente culpou a pandemia e disse que governadores do Lula mandaram as pessoas ficarem em casa. "Tem gente passando fome, mas não nesse número que você chutou", acrescentou.

Outro tema em que o postulante do PT quis demarcar diferença com o rival foi a política externa, afirmando que o rival relegou o Brasil ao isolamento internacional.

Bolsonaro respondeu: "O mundo árabe me recebe de braços abertos. Falei com o [presidente dos EUA, Joe] Biden há pouco tempo. Converso com todo mundo".

Ambos abordaram também os vínculos do rival com o ex-deputado federal pelo PTB Roberto Jefferson, que atacou a tiros e granadas policiais federais que cumpriam uma ordem de prisão contra ele. Lula puxou a discussão, afirmando que Bolsonaro tem Jefferson como "homem de confiança".

O presidente rebateu, dizendo que o ex-parlamentar era "amigo de roubalheira" e "parceiro na compra de votos" do petista e foi o delator do esquema do mensalão.

O assunto voltou em outro bloco, com Lula dizendo que, se um negro da favela fizesse o que Jefferson fez, Bolsonaro teria "mandado matar", mas, como era um aliado, "mandou o ministro ir lá" —o titular da Justiça, Anderson Torres.

"Você chegou a dizer que não tem foto com ele [Jefferson]. A imprensa escancarou as fotos. Você não pode ter duas personalidades, cara, tenha uma só", disse o ex-presidente. O mandatário, então, respondeu que não tem fotos com Jefferson na "ocasião das eleições".

Ainda na chave da corrupção, Bolsonaro insistiu que as condenações de Lula na Operação Lava Jato foram confirmadas em três instâncias e que ele só está concorrendo por ter "um amigo" no STF (Supremo Tribunal Federal). "Você deveria estar preso", completou.

As sentenças do ex-presidente foram anuladas por decisão do ministro Edson Fachin e referendadas pelo plenário do tribunal em 2021, liberando-o para disputar as eleições. Bolsonaro também citou membros do PT que protagonizaram casos de desvios, como Antonio Palocci, José Dirceu e José Genoino.

O jornalista William Bonner, mediador do debate, quis fazer um esclarecimento depois de ser citado por Bolsonaro. O presidente insinuou favorecimento ao rival em entrevista no Jornal Nacional. "Você dizer que foi absolvido, só se foi pelo Bonner. Você foi descondenado, você é um bandido", disse a Lula.

"Eu, de fato, disse na entrevista do JN que Lula não deve nada à Justiça, mas, como jornalista, eu não disse isso da minha cabeça, eu disse baseado em decisões fundamentadas pelo STF", afirmou o jornalista.

Bolsonaro voltou a ressaltar a falácia de que em seu governo não há corrupção. "Eu falo palavrão, mas não sou ladrão". A estratégia de se desculpar pelos maus modos também foi levada ao horário eleitoral no intuito de reduzir a rejeição a ele.

Lula mencionou mais de uma vez a compra de imóveis com dinheiro vivo pelo presidente e seus parentes e as suspeitas de rachadinha que pesam sobre os membros da família que estão na política. Também citou o esquema de propinas no MEC no atual governo com a participação de pastores e os decretos de sigilo de 100 anos.

Em embate sobre economia, Lula provocou: "Prosperidade para quem? Talvez para a família Bolsonaro", em alusão aos imóveis.

Lula mencionou as ameaças do mandatário a membros do Judiciário e de outros Poderes, além da desobediência à Constituição, depois que Bolsonaro disse seguir "as quatro linhas" da Carta Magna. Ele, porém, faz ameaças golpistas constantes e afronta ministros de cortes superiores.

O presidente acusou Lula de "amordaçar" a mídia. "A rádio Jovem Pan foi calada pelo ministro Alexandre Moraes e pelo TSE. Foi teu partido que entrou com a ação", disse Bolsonaro. O petista respondeu sua campanha pediu apenas isonomia.

O ex-presidente levou à arena a conduta negacionista do governante durante a pandemia, por considerar o tema favorável à sua campanha. Ele afirmou que Bolsonaro foi ao funeral da rainha da Inglaterra, Elizabeth 2ª, enquanto "tinham 680 mil pessoas", em alusão ao número de mortos pelo vírus no país, "esperando um gesto de humanismo que ele não teve".

Ainda no tema da saúde, Bolsonaro criticou o programa Mais Médicos, afirmou que os cubanos não entendiam nada de medicina e que Lula usou a medida para repassar dinheiro a Cuba. O petista respondeu que o programa foi "exitoso".

Falando de segurança pública, Lula disse que iria "facilitar o acesso das pessoas às coisas que educam, e não às coisas que matam", em referência a ampliação do acesso às armas promovido pelo governo Bolsonaro. "Quem está se beneficiando das suas armas é o crime organizado", disse.

Bolsonaro afirmou que Lula foi "visitar traficante", em referência a um ato de campanha no complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e questionou o ex-presidente sobre não ter transferido o chefe do PCC Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, para um presídio federal.

Lula, então, disse que a comunidade "tem gente extraordinária" e tentou desgastar Bolsonaro pelo corte de verba em programas contra a violência da mulher. O atual governo cortou em 90% a verba disponível para ações de enfrentamento ao problema, como mostrou a Folha.

Os candidatos duelaram também sobre taxas de desmatamento, com Bolsonaro distorcendo dados para afirmar que houve elevação dos índices na era PT. Ele também aproveitou para defender o setor do agronegócio, que disse que "não é fascista".

O ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro (União Brasil) com o presidente Jair Bolsonaro (PL) no estúdio do debate da Globo - Eduardo Anizelli/Folhapress

Segundo pesquisa Datafolha desta quinta (27), Lula permanece à frente de Bolsonaro, com 49% das intenções de votos totais, ante 44% do candidato à reeleição. Brancos e nulos somam 5%, e indecisos, 2%.

Em votos válidos (excluindo branco e nulos), o candidato do PT tem 53%, e o adversário, 47%. No primeiro turno, Lula ficou 5 pontos percentuais à frente de Bolsonaro em votos válidos (48,4% a 43,2%).

O debate desta sexta foi o segundo do segundo turno. No anterior, os candidatos dispararam falas duras um contra o outro, mas mantiveram um ambiente no geral moderado, sem gritos ou exaltação.

Lula alegou conflitos de agenda para não comparecer aos programadas marcados pelo SBT e pela Record. Ambos foram substituídos por sabatinas com Bolsonaro.

O debate de Globo foi apontado pelas campanhas de ambos como decisivo para a atração de indecisos.

Lula foi acompanhado no estúdio por aliadas como a senadora Simone Tebet (MDB) e a deputada federal eleita Marina Silva (Rede-SP), além do candidato a vice, Geraldo Alckmin (PSB). Sua mulher, a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, também compunha a comitiva.

Bolsonaro teve a companhia do ex-juiz Sergio Moro (União Brasil), senador eleito pelo Paraná e que também foi com o presidente ao debate do dia 16, selando a reaproximação entre os dois. Moro condenou Lula na Lava Jato, o que o impediu de concorrer em 2018, quando Bolsonaro foi eleito.

Além do ex-magistrado, estavam no grupo o ministro das Comunicações, Fábio Faria, e o ex-secretário Fabio Wajngarten, um dos coordenadores de comunicação da campanha.

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