Descrição de chapéu Novas formas de viver

Diversidade de imóveis ilustra revolução nas formas de viver

Mercado tenta se adaptar às mudanças de hábitos e valores e aos mil e um segmentos urbanos de São Paulo

Renan Marra
São Paulo

Mudanças no núcleo familiar, na expectativa de vida e nos valores da população urbana se traduzem hoje em uma grande diversidade de estilos de habitação.

Construtoras ampliam portfólios e tentam adaptar produtos às novas formas de viver. A oferta, na meca da diversidade e da desigualdade que é São Paulo, vai da microplanta abaixo de 20 metros quadrados ao apartamento com quatro suítes e piscina particular.

Vai do Minha Casa, Minha Vida à cobertura de condomínio nas alturas, disputada e vendida como pão quente.

“Unidades nas coberturas, maiores que as demais, são as primeiras a serem comercializadas”, diz José Rafael Zullo, da empresa SKR. É que a aposta do mercado, nos últimos anos, em imóveis compactos, gerou demanda reprimida por lares mais espaçosos.

Não seja por isso: a incorporadora Tegra entregará no fim do mês o luxuoso Curitiba 381, no Ibirapuera, para atender a essa demanda. São 15 apartamentos que variam de 332 a 719 metros quadrados. O preço mínimo é R$ 11,1 milhões.

Mas o que domina os lançamentos na capital desde 2009, mostram dados do Secovi, é o clássico “dois dormitórios”, associado à família-margarina.

E que convive hoje com a febre de estúdios em bons endereços, sonho de mais novos e mais velhos, gente que mora só, anda a pé, pega metrô.

Famílias encolhem, imóveis idem. Os de menos de 45 metros quadrados dominam o mercado: cabem no bolso, que também encolheu. 

“É uma forma de democratizar a moradia. Mais pessoas conseguem morar em áreas nobres. Elas abdicam do espaço individual, mas ganham tempo”, diz Alexandre Lafer, presidente da Vitacon.

A construtora assina o VN Nova Higienópolis, na região central, com os menores apartamentos do continente. As plantas vão de 10 a 77 metros quadrados.

Sem garagem, mas com bicicletário, cozinha e lavanderia coletivos, o prédio sobe a 400 metros da estação Marechal Deodoro e a 450 metros da estação Santa Cecília. Todas as unidades, com preços a partir de R$ 99 mil, já foram vendidas. Vão ser ocupadas por jovens de 18 a 35 anos.

Na outra ponta, a Eztec amplia a oferta de acompanhamento para idosos, em sistema “pay-per-use” do Z. Pinheiros, que tem plantas de até 68 metros quadrados. 

A relação do morador com a casa muda a cada geração, diz Daniela Dantas, diretora da consultoria WGSN.

Ela mostra pesquisa segundo a qual nascidos de 1994 a 2009 (10 a 25 anos), a geração Z, priorizam espaços pequenos, mas conectados e próximos ao trabalho ou escola. São compradores potenciais de imóveis inteligentes. Já a geração Y (26 a 40 anos), que focou menos na carreira e adiou a compra da casa, sente atração por coliving.

Se a relação das pessoas com seus bens e ofícios está em pleno movimento, o verbo compartilhar veio para ficar. O mercado projeta mais áreas de coworking e coliving, e mais prédios modernos propõem que vizinhos dividam cozinha e área de serviço.

Combina com o fato de que tem muita gente disposta a viver em apartamentos enxutos, desde que fincados em regiões irrigadas de serviços. 

A expansão da oferta de transporte e dos aplicativos estimula a busca de praticidade, diz Cyro Naufel, diretor da imobiliária Lopes. “A prioridade do jovem é gastar menos tempo no trânsito. Quer sair de casa, pegar o patinete e chegar ao escritório.”

Já quem não quer sair de casa por nada adere a esses empreendimentos gigantescos que capricham nos equipamentos de lazer adaptados a hábitos atuais, a saber: protagonismo canino, gastronomia-mania, culto à natureza. 

Segundo Dantas, da WGSN, condomínios-clube são a cara da geração X (41 a 54 anos), que tem o bem-estar como mantra e o vincula a infraestrutura e segurança.

Ontem, construtoras investiam em salão de beleza, lan house, modas de alta manutenção, que ficavam ociosas logo. Hoje, apostam em bosques, áreas gourmet. E pets.

Espaço para cachorro não falta no “clube de morar” que a Tegra lançará na zona oeste.

O Jerivás, segundo de três condomínios previstos no complexo Caminhos da Lapa, terá quatro torres, piscina, quadra poliesportiva, salão de jogos —e imóveis com mais de cem metros quadrados, cujo preço parte de R$ 789 mil. O empreendimento é criado em conjunto com a Helbor Empreendimentos e a Toledo Ferrari Construtora e Incorporadora.

Outras novidades são as adaptações que empreendimentos fazem para receber a modernidade: alguns já dispõem de ambientes refrigerados no térreo e espaços para armazenar compras, ou de recuo para a entrada do Uber.


Microapartamento
Área útil menor que 35 metros quadrados. Em geral, é parte de um condomínio, com áreas de serviço compartilhadas

Loft
Imóvel sem divisões internas e com pé direito duplo. Tem um ou dois dormitórios. Destaca-se pelo uso da iluminação natural, por instalações hidráulicas, elétricas e estruturais aparentes e texturas rústicas (tijolos, concretos e madeiras).

Estúdio
Apartamento com cerca de 30 metros quadrados e pé direito mais alto que o convencional. Sala, quarto e cozinha são integrados, sem divisão.

Compacto
Apartamento com até 45 metros quadrados. Pode ou não ter espaços integrados. Alguns prédios de compactos têm áreas de serviços compartilhadas.

Quitinete
Unidade de até 50 metros quadrados com cozinha, banheiro e cômodo que serve de sala e quarto. Popular nas décadas de 1960 e 1970.

Condomínio-clube
Empreendimento com vários itens de lazer e áreas comuns amplas, implantado em terrenos grandes, com mais de uma torre e muitas unidades

Fontes: Secovi-SP, Grupo Zap, Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) e Lopes
 

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