Turismo LGBT cresce em meio a onda conservadora

Evento em São Paulo discute formas de fidelizar público gay, que movimenta R$ 845 bilhões ao ano

Ana Luiza Tieghi
São Paulo

​As viagens feitas por gays, lésbicas, bissexuais e transexuais movimentaram US$ 218,7 bilhões (R$ 845 bilhões) no mundo em 2018, segundo a consultoria Out Now. 

Interessados em atrair esse público, agentes de viagem, empresas e destinos se reuniram em São Paulo na última quinta (6), na terceira edição do Fórum de Turismo LGBT.

Pessoas em auditório
Público em apresentação do terceiro Fórum de Turismo LGBT, em São Paulo - Divulgação

O evento foi realizado pouco mais de um mês após o presidente Jair Bolsonaro (PSL) dizer que "quem quiser vir aqui [ao país] fazer sexo com uma mulher, fique à vontade", mas que "o Brasil não pode ser um país de turismo gay", porque aqui "temos famílias". 

No evento, o presidente da IGLTA (Associação Internacional do Turismo Gay e Lésbico, em inglês), John Tanzella, lamentou o comentário, mas lembrou que não é apenas o presidente brasileiro que está dando declarações polêmicas. 

"O fato de Bolsonaro, Donald Trump, o líder italiano ou o húngaro dizerem coisas revoltantes não significa que vamos parar de viajar", afirmou. "É só um ruído, os turistas LGBT continuam sendo um grande mercado."

Segundo um estudo divulgado pelo fórum, em 2017 as viagens feitas por gays e lésbicas cresceram 11% no Brasil, contra 3,5% dos turistas em geral. 

Vinicius Lummertz, secretário estadual de Turismo de São Paulo, comentou a frase de Bolsonaro. "Sou contrário a esse tipo de posição. Como o Papa disse, as pessoas devem seguir o seu caminho e pensar em ser felizes."

No dia 23, a capital paulista recebe mais uma edição da sua Parada do Orgulho LGBT, considerada a maior do mundo. Em 2018, 3 milhões de pessoas passaram pelo evento, segundo os organizadores, sendo 24% delas viajantes, e movimentaram R$ 288 milhões.

Lummertz afirmou ainda que os turistas gays são curiosos, exigentes com os serviços que consomem e têm renda mais alta do que os demais, o que os torna interessantes para São Paulo. 

O fórum trouxe à capital paulista destinos internacionais que buscam atrair mais brasileiros. Um dos locais presentes foi São Francisco, cidade californiana reconhecida por acolher a diversidade.

De acordo com Igor Romeu, da San Francisco Travel Association, em 2020 o aeroporto local vai ganhar um terminal chamado Harvey Milk, uma homenagem ao primeiro político abertamente gay a se eleger na Califórnia. Ele foi morto em 1978, com menos de um ano de mandato. 

Ainda no próximo ano, a Parada do Orgulho LGBT da cidade vai comemorar 50 edições e terá uma celebração especial, ainda a ser definida. Neste ano, o evento será realizado nos dias 29 e 30, e terá a presença da cantora e drag queen brasileira Pabllo Vittar

​​Fort Lauderdale, na Flórida, também enviou um representante. Segundo Richard Gray, vice presidente do Convention & Visitors Bureau local, a cidade faz campanhas para atrair o público LGBT desde 1996, e o incentivo à diversidade se tornou uma das principais atrações do destino. 

No ano passado, a cidade recebeu 1,5 milhão de viajantes LGBT, que gastaram US$ 1,5 bilhão (R$ 5,8 bilhões). 

A administração Trump foi o que motivou a nova campanha de turismo da cidade, batizada de "Greater Together" (melhores juntos), que mostra muçulmanos, casais gays e transexuais. Gray disse que a cidade não teme ser preterida por conservadores. "Eles podem ir para outros lugares." 

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