Descrição de chapéu The New York Times

Disney tem seu império abalado pela Covid-19

Antes uma vantagem, o tamanho do conglomerado de entretenimento virou um desafio na pandemia

Los Angeles | The New York Times

O reino foi próspero, um dia, e causava inveja a todos. Mas uma ameaça invisível surgiu.

Essa poderia ser a história de um filme clássico da Disney. Mas em lugar disso a empresa a está vivendo —e o felizes para sempre não parece próximo.

Depois de uma década de crescimento espetacular, o conglomerado de entretenimento foi devastado pela pandemia do coronavírus. Seus 14 parques temáticos (que recebem 157 milhões de visitantes ao ano) produziram lucros recorde em 2019. Agora, estão trancados.

Os estúdios de cinema do grupo (são oito no total) dominaram espantosos 40% das bilheterias dos Estados Unidos no ano passado. Agora, estão praticamente paralisados.

“De ótimo a bom, e a ruim e péssimo”, escreveu Michael Nathanson, um respeitado analista de mídia, em um relatório sobre a reversão extrema da sorte da Disney. “E a recessão causará ainda mais dor”.

Na terça-feira, o novo presidente-executivo da Disney, Bob Chapek, e Bob Iger, o presidente-executivo do conselho da empresa, oferecerão sua primeira avaliação sobre o estrago.

Portão fechado e atrás se vê gramado com formato do mickey
Portão fechado do parque temático Disneyland, em Anahein (Califónia), em março - David McNew/AFP

A Disney deve reportar seus resultados trimestrais, depois do fechamento dos mercados de ações. Os analistas antecipam lucro por ação da ordem de 88 centavos de dólar, uma queda de 45%.

A verdadeira escala do impacto da pandemia sobre a Disney só se fará sentir no final do verão (no hemisfério norte, o terceiro trimestre), quando Chapek anunciar os resultados do trimestre em curso, no qual a Disney colocou 100 mil empregados de licença não remunerada, de acordo com estimativas, cortou em até 50% os salários de seus executivos e recorreu a uma linha de crédito de US$ 5 bilhões a fim de reforçar sua liquidez (isso depois de obter um empréstimo de US$ 8,25 bilhões em março).

O conselho da Disney terá de decidir em junho se vai pagar os dividendos que a companhia costuma conferir aos seus acionistas no terceiro trimestre; é improvável que os executivos recomendem que seja pago.

A companhia se transformou em um colosso, nos últimos 14 anos. Adquiriu a Pixar, a Marvel e a franquia “Star Wars”. Mais recentemente, para resistir à incursão do Vale do Silício a Hollywood, a Disney adquiriu uma coleção de propriedades de mídia como “Os Simpsons” e o grupo National Geographic, ao tomar o controle de diversos ativos da Twenty-First Century Fox em uma transação de US$ 71,3 bilhões.

Agora, no entanto, a vastidão da Disney se tornou um ponto fraco, criando uma coleção atordoante de propriedades, algumas das quais costumam ser ignoradas: quatro estúdios de TV, que juntos produzem cerca de 70 programas; 42 mil quartos de hotel e unidades de turismo “timeshare” espalhadas por três continentes; o maior negócio mundial de licenciamento, com faturamento de US$ 55 bilhões em vendas de mercadorias; uma divisão editorial que produz livros infantis, revistas e produtos digitais em 68 países e 45 idiomas; uma cadeia de 25 escolas Disney de inglês na China.

E isso é só a ponta do dedinho do Mickey. Abaixo, um panorama sobre algumas das operações da companhia.

Navios de cruzeiro

A Disney tem quatro navios (capacidade total: 13,4 mil passageiros), com outros três em construção, ao custo de cerca de US$ 1 bilhão cada. Castaway Cay, a ilha privativa da empresa no Caribe, serve como porto de parada para os cruzeiros, e a Disney está gastando centenas de milhões de dólares na construção de um segundo terminal turístico nas ilhas.

Mas o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) no dia 9 de abril prorrogou sua proibição à partida de navios de cruzeiro, por prazo indefinido. E mesmo quando os navios puderem voltar a navegar, a expectativa é de demanda fraca.

Um golpe de sorte: os novos navios da Disney provavelmente terão sua entrada em serviço postergada (o primeiro deveria começar a operar em 2022), porque os estaleiros alemães em que estão sendo construídos estão fechados.

Espetáculos teatrais

A Disney Theatrical Productions tinha 29 produções já em cartaz ou prontas para estrear em quatro continentes, até o começo de 2021. Todas estão suspensas. Variam do enorme sucesso da Broadway, “O Rei Leão”, em cartaz desde 1997, a uma montagem itinerante de “O Corcunda de Notre Dane”, no Japão. A divisão teatral também opera sete companhias Disney on Ice que realizam turnês constantes.

O teatro ao vivo deve ser um dos últimos segmentos da economia a se recuperar da pandemia, porque envolve grandes concentrações de espectadores em espaços fechados, e também requer proximidade entre os integrantes dos elencos. (Como respeitar o distanciamento social no poço de orquestra de um teatro?) A Broadway dificilmente reabrirá antes do começo de setembro, e pode ser que fique fechada até o ano que vem.

Mas a divisão se declara otimista.

“Acreditamos no negócio do teatro e antecipamos que —quando for seguro que as pessoas se reúnam— o apetite por ele será maior do que nunca”, disse um porta-voz da empresa.

Parques temáticos

O Shanghai Disneyland, fechado desde janeiro, deve ser reaberto para um número limitado de visitantes dentro de duas ou três semanas. Com a Flórida começando a relaxar restrições, é provável que o Walt Disney World também o faça.

Quando o Disney World gradualmente reabrir, os visitantes devem ter suas temperaturas medidas na entrada e terão de respeitar o distanciamento de dois metros nas filas das atrações. A Disney não pode arriscar que seus parques se unam às empresas de processamento de carne e às casas de repouso como pontos de contágio com o coronavírus.

“Há muito mais riscos do que recompensas para a Disney em reabrir cedo demais”, disse Steven Cahall, analista do banco Wells Fargo.

Será que as pessoas vão voltar a querer se divertir em parques temáticos? Executivos da Disney acreditam que exista uma enorme demanda reprimida por atividades realizadas em público, e apontam para as 40 mil pessoas que invadiram uma praia da Califórnia quando esta foi reaberta no mês passado.

Disney Stores

Algumas das 312 lojas da Disney nos Estados Unidos, Europa, Japão e China estão a ponto de reabrir, entre as quais unidades localizadas em shopping centers operados pelo Simon Property Group.

Nas últimas semanas, a loja online da Disney, ShopDisney.com, recebeu um dilúvio de novos compradores, e produtos como pijamas, quebra-cabeças e máquinas de fazer waffles com a figura de Mickey Mouse estão em forte demanda.

Na quinta-feira, a Disney começou a vender máscaras de tecido com desenhos de seus personagens (US$ 20 por um pacote com quatro unidades), e informou que o primeiro US$ 1 milhão em lucro seria doado a uma organização sem fins lucrativos de assistência médica; essa marca já foi atingida.

Tradução de Paulo Migliacci

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