Redução de assentos e reforço na limpeza devem impactar preço de passagem aérea

Novos procedimentos vão prejudicar a produtividade e a rentabilidade das empresas do setor

São Paulo

Novos protocolos de companhias aéreas para tentar barrar a propagação do coronavírus podem ter impacto no preço das passagens pós-pandemia.

Com menos demanda, muitas empresas já reduziram o número de assentos nos voos, para diminuir o risco de contágio. As companhias também reforçaram medidas de limpeza.

A Delta está bloqueando as poltronas do meio da aeronave, e o embarque agora começa pelos assentos do fundo, para reduzir o contato entre os passageiros nessa etapa da viagem.

Johan Lundgren, diretor-executivo da companhia aérea de baixo custo EasyJet disse que, quando a empresa voltar a operar, também poderá deixar os assentos do meio bloqueados.

Na Lufthansa, Air France e KLM, os comissários tentam manter os viajantes o mais separado possível, de acordo com o que permite a ocupação da aeronave.

Para Alessandro Oliveira, economista e professor do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), essas medidas funcionam durante a pandemia, quando o número de pessoas nos aviões é mais baixo que o normal.

Mas uma menor quantidade de pessoas a bordo representa menos receita para as empresas. Ou seja, seria uma medida custosa caso seja necessário mantê-la depois da pandemia.

Homem com colete e máscara de proteção limpa compartimento de malas em cabine de avião
Funcionários limpam cabine de avião da companhia aérea Air Europa, no aeroporto de Son Sant Joan, em Palma de Maiorca - Jaime Reina/AFP

“A tendência é que voar fique mais difícil e mais caro por um bom tempo”, diz Oliveira.

Na semana passada, o diretor da Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo), Alexandre de Juniac, afirmou que a redução na capacidade de transporte dos passageiros iria aumentar em 50% o preço das passagens aéreas, o que representaria o fim da era das viagens baratas.

Além das restrições na quantidade de passageiros, as companhias estão adotando outras medidas para tentar tornar o transporte mais seguro.

A Lufthansa, a Air France e KLM tornaram obrigatório o uso de máscaras pelo passageiros durante todo o voo. Na Gol, o item será obrigatório a partir do dia 10. A Azul também pede que os passageiros usem a proteção no rosto, que pode ser a máscara ou um lenço.

Há ainda a aplicação de testes rápidos do coronavírus antes do embarque em alguns voos, feita pela Emirates, a simplificação da alimentação a bordo, dando preferência para comidas já embaladas, e o reforço na limpeza da aeronave, as duas últimas adotadas por grande parte das companhias aéreas.

Uma limpeza mais pesada de toda a cabine, incluindo das mesas dobráveis, encostos para os braços, cintos e poltronas, representa um intervalo maior entre o pouso e a decolagem.

Faz parte do modelo de operação das companhias aéreas, e principalmente daquelas de baixo custo, a redução desse intervalo, para que cada aeronave opere o máximo de voos.

Por causa da limpeza extra, será preciso diminuir a quantidade de viagens que cada avião faz, o que terá efeitos nas rotas e na rentabilidade das empresas.

“Qualquer procedimento regulatório mais restrito torna as empresas mais improdutivas. Esse é mais um fator que vai prejudicar a competitividade das empresas”, diz Oliveira.

Segundo o economista, é provável que algumas empresas aéreas saiam do mercado e que haja fusões entre as que continuarem em operação. Com menos empresas competindo pelo mesmo mercado, haverá menos disputa pelo consumidor —e menos promoções.

A queda na demanda também pode ter impacto no preço das passagens no futuro.

Segundo a Iata, a relação de passageiros por quilômetro voado das companhias aéreas globais caiu 52,9% em março, em relação ao mesmo mês de 2019.

"A demanda atingiu o mesmo nível de 2006, mas temos frotas e funcionários em dobro. Para piorar, sabemos que a situação se complicou ainda mais em abril, com sinais de recuperação lenta", afirmou em nota Alexandre de Juniac, diretor da entidade.

Os turistas, além de terem a renda afetada por causa da crise, ainda podem ter menos tempo disponível para viajar depois da quarentena, porque muitas empresas estão debitando férias e folgas agora.

As viagens corporativas também devem ser afetadas, já que as empresas devem ter menos recursos para fazer eventos e as reuniões a distância, pela internet, estão cada vez mais populares.

“Já está claro que todo mundo vai perder demanda nos próximos meses e anos”, diz Oliveira.

Para a Latam, o preço das passagens deve cair no começo da retomada das viagens aéreas, porque haverá um desequilíbrio entre oferta e demanda.

Com muitos voos e poucos passageiros, as companhias farão promoções para tentar aumentar a taxa de ocupação. Mas isso será temporário. A queda dos preços será recuperada “conforme a indústria consiga reequilibrar esta relação, com redução de oferta e adaptação ao novo mercado”, afirma a empresa.

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