Vacinada, Paquetá clama por turistas e é alternativa ao Rio

Ilha atrai com paisagem bucólica, bicicletas, cemitério de pássaros e cultura

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Fim de tarde na ilha de Paquetá, a 15 km do centro do Rio, com garça em barco e o morro Dedo de Deus ao fundo Ricardo Borges/Folhapress

Rio de Janeiro

Um barquinho paira na água, que reflete as nuvens, que dão espaço ao sol, que cai no mar. Mais na beirada, uma garça caminha. Já na areia, os pedalinhos em forma de ganso aguardam os turistas que hoje não vêm, porque é segunda-feira.

Quem criou a palavra “bucólica” deve ter passado por Paquetá, pois de fato não há nada melhor para descrever a tranquila ilha de nome indígena que povoa o centro da baía de Guanabara, a 15 quilômetros do barulhento centro do Rio de Janeiro.

O pedaço de terra que imita um número “oito”, oficialmente um bairro carioca, abriga agora uma das poucas populações brasileiras com mais de 90% de indivíduos vacinados com a primeira dose contra o coronavírus, e com isso clama para que seus visitantes voltem.

“PaqueTá Vacinada” é o slogan do estudo em curso pela Secretaria Municipal de Saúde e pela Fiocruz para analisar no mundo real a efetividade da AstraZeneca, aplicada em 20 de junho em quase todos os 3.530 moradores acima de 18 anos, que em geral continuam usando máscara.

Com a picada da Pfizer nos adolescentes prevista para daqui a dez dias e a segunda picada nos adultos planejada para meados de agosto, o prefeito Eduardo Paes (PSD) já prometeu até Carnaval-teste em setembro, segundo ele num parque, restrito e controlado.

Mas mesmo sem poder participar da festa, quem é de fora tem motivos de sobra para visitar o lugar. Primeiro, é preciso navegar por cerca de uma hora de barca, partindo da Praça 15 e passando por baixo das pernas da gigante ponte Rio-Niterói. A passagem custa R$ 6,90.

Ao saltar na estação, a primeira coisa que se vê são as bicicletas e os carrinhos apelidados saudosamente de “charretes elétricas”. O nome tenta conservar um pouco do charme das carroças com cavalos de verdade, levados embora há cinco anos após queixas de maus-tratos.

É que na ilha é proibido circular de carro, exceto os autorizados como ambulâncias, que vivem de gasolina de galão. E assim os valores se invertem, observa José Lavrador, 65, ex-veranista e morador há 30 anos: “Ter roupa ou carro caro não significa nada aqui”.

A caminhada é outro bom meio de transporte pelas ruas de saibro. Bem no meio delas, já que não há veículos, despontam árvores tão inusitadas quanto a Maria Gorda, um raro baobá africano tombado que exige nove pessoas para abraçá-lo por inteiro.

Não é a única atração inesperada. Andando mais um pouco se chega ao Cemitério dos Pássaros, inédito no país segundo a herdeira Marli Coutinho, 65. Seu falecido pai, pedreiro, perdeu um curió preto e castanho décadas atrás e decidiu abrir as covinhas de cimento. É só levantar a tampa e colocar lá dentro.

Ela mantém o espaço e recebe “cadáveres” congelados até de outros estados, sem cobrar nada. “As pessoas fazem cerimônia, choram”, conta a aposentada, pegando na mão um porta-retrato que emoldura a foto da recém-chegada Elsa, uma calopsita branca que ainda jaz ali inteirinha.

Ao lado fica o cemitério de gente. Naquele dia morreu alguém na ilha, mas os detalhes do finado ainda não tinham se espalhado. “Paquetá é vida pra mais de cem anos”, reflete Marli, enquanto um grupo faz churrasco com cadeiras de praia em frente aos jazigos.

Paquetá também é “ilha dos amores”. Uma das razões é ter sido cenário do primeiro romance brasileiro, “A Moreninha”, escrito em 1843 por Joaquim Manuel de Macedo, e das gravações da novela global de mesmo nome em 1975, na famosa casa rosada.

Diz a lenda também que se você jogar, de costas, três pedrinhas em cima da grande Pedra dos Namorados, e ao menos uma delas ficar, seu amor será correspondido. “Se a pele arrepiar sem ter sido tocada, foi o coração que disse sim”, anuncia alguém que escreveu nela.

Tem ainda a praia e a pedra da Moreninha, de onde se vê o pôr do Sol, a silhueta do Rio e a ponte que o liga a Niterói. Foi depois da sua construção que Paquetá “começou a cair”, suspira Reinaldo Lacerda aos 62 anos, 40 deles cuidando dos pedalinhos na beira do mar.

“Ainda temos a fama da tranquilidade, mas uns anos atrás não se andava aqui de tão cheio”, relembra. No último ano, os moradores têm culpado as barcas por essa queda. A concessionária CCR espaçou os horários de saída e, afirmam, prejudicou o turismo.

“Respeita Paquetá! Mais barcas, menos pandemia” tem sido a campanha da associação de moradores em pôsteres pretos espalhados pelas portas e portões. É que quase a ilha toda “vive de fim de semana” —dos visitantes e da pesca—, diz Beto, o guia e motorista da charrete 15.

Nascido e criado ali, Roberto Lacerda, 40, chama pelo nome cada um que passa e prega que segurança como ali não existe igual. Fácil esquecer que se está nos limites do Rio de Janeiro, exceto quando se ouve ao longe os tiros no Morro do Salgueiro, “com o mar sereninho”, se diverte.

Ele conta que não há poluição grave e o esgoto é tratado, mas às vezes um sofá é arrastado da cidade grande. Do outro lado da margem se vê outras ilhotas, como o Palácio de Brocoió, imponente e deteriorada casa de praia do governador do estado.

Para quem quer passar mais que um dia, há ao menos sete pousadas ou hotéis. Um dos restaurantes é o Bar do Zaru, que serve um pastel cinco estrelas, “mas quando tem nuvem fica com três”, brinca o próprio, Paulo Roberto Gitsin, 64. O peixe às vezes não vai nem no gelo, se limpa na hora, e o camarão é “de lixo, de mangue”, e tem outro gosto, assegura.

É comum também que se alugue casas de veraneio, herança desde os tempos de Brasil colônia, quando passou a ser destino de famílias nobres. O mais célebre frequentador foi o rei Dom João 6º, depois de 1808, que achou o lugar refugiando-se de uma tempestade.

Ainda está ali o pequeno canhão que o saudava quando chegava e o Poço de São Roque que milagrosamente curou sua úlcera. O santo é padroeiro da ilha e até hoje nomeia sua festa mais tradicional, celebrada em torno de 16 de agosto, quando todos que já a habitaram voltam a ela.

“Se um bebê nasceu no dia do padroeiro aqui, é batizado de Roque. Esse tipo de coisa já fugiu pelos dedos da cidade grande”, diz José Lavrador, fundador da Casa de Artes e em grande parte responsável por fazer de Paquetá uma referência cultural, com cursos de música e orquestra jovem.

Procissões, rodas de choro, blocos de Carnaval e a festa de São Pedro são algumas das manifestações que lotavam a ilha antes da pandemia. Com a vacinação parcial, alguns eventos menores devem recomeçar aos sábados ainda neste mês.

“A ideia é empoderar para que a melhora venha de dentro. Paquetá tem um estilo de vida, um instinto de comunidade muito diferente das cidades. É um lugar onde se bebe cultura, bucólico e seguro", propagandeia em frente ao casarão de onde soa o oboé, soprado por uma aluna enquanto o sol vai descendo.

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