Descrição de chapéu

Achar que a Casa do Porco revitaliza o centro de SP é cair em golpe de marketing

Restaurante do chef Jefferson Rueda é o único brasileiro no ranking World's 50 Best

Casa do Porco, no centro de São Paulo

Casa do Porco, no centro de São Paulo Gabriel Cabral/Folhapress

Francesco Perrotta-Bosch

Dez anos atrás, a esquina das ruas Araújo e General Jardim tinha um mercadinho mambembe e, sob sua marquise, dormiam mais de uma dezena de moradores de rua. Hoje é o endereço da Casa do Porco, um dos 50 melhores restaurantes do mundo segundo o ranking da revista Restaurant recém-divulgado.

Os frequentadores com certeza mudaram. Mas não só devido à qualidade gastronômica e aos valores do menu. A arquitetura tem um papel fundamental nisso.

Havia uma parede quase toda fechada e pichada que se voltava para a calçada onde, lado a lado, deitavam pessoas sem abrigo. Na conversão do espaço para restaurante, foram abertas vitrines que permitem aos clientes visualizar a cidade enquanto esperam ou comem seu prato suíno. Ao mesmo tempo, constrange quem antigamente fazia daquela calçada o seu lar.

O projeto arquitetônico tem requintes de crueldade na janela da cozinha voltada para a calçada. Ali, os leitões em preparo ficam visíveis para a rua. É um tanto obsceno para os antigos moradores de rua que não podem pagar por um prato no estabelecimento —é igualmente constrangedor para boa parte dos residentes do centro, que também não têm um jantar na Casa do Porco como possibilidade real.

O sanduíche de porco vendido numa janelinha na rua Araújo parece a contrapartida para amenizar o ato seguinte do restaurante: ocupar aquela calçada com mesinhas, ampliando o número de lugares para fregueses. 

A princípio, podemos tomar os cafés de Paris como exemplo e dizer que é positivo para a vitalidade da rua. O problema é que o espaço do pedestre diminuiu e muito. E o infame toldo, aberto para proteger os consumidores da chuva e do sol, acaba por diminuir ainda mais a área que restou.

A redução do espaço público pouco afeta a clientela, que, em grande parte, chega de carro, deixa a chave com o manobrista na porta e entra rapidamente no recinto. O estreitamento da calçada incomoda os vizinhos que, diariamente, têm parte do seu caminho mais dificultada.

Essa análise só serve para questionar quem está sendo beneficiado pelo surgimento de restaurantes nos arredores da praça da República e na Vila Buarque. A Casa do Porco é o exemplo mais emblemático (e arquitetonicamente extremo) de um fenômeno igualmente visto com a abertura de casas como o Z Deli e o Orfeu e a boate Tokyo.

Quem considera que o surgimento desse novo comércio de rua é simbólico da revitalização do centro da cidade não deve ignorar que os moradores de rua saíram da calçada onde fica a Casa do Porco e foram para outro lugar da região central. A manchete deste jornal no último sábado, por exemplo, converte essa percepção em números.

Não se trata de impregnar o freguês com culpa social ao comer um porquinho. Um restaurante pode receber todas as láureas internacionais, mas nunca será capaz de transformar o centro de São Paulo. Achar que estabelecimentos de compra podem revitalizar regiões da cidade não passa de um golpe de marketing.

Francesco Perrotta-Bosch

É arquiteto e crítico de arquitetura

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