Destruído por barões, Vale do Café se recupera com grãos especiais

Técnicas sustentáveis ampliam lavoura em terras quase estéreis no passado

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São Paulo

Quem passa pela Rodovia Presidente Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, ainda corta a mesma paisagem careca, feita basicamente de montanhas cobertas de pasto.

Mas basta pegar as estradas secundárias que levam ao Vale do Café, na porção fluminense do caminho, para entender que essa realidade começa a mudar —em algumas das fazendas históricas, os pés de café voltam aos poucos a fazer companhia aos palacetes do século 19.

Fazenda Alliança, no Vale do Café - Caio Ferrari

São cafezais pequenos, quase experimentais, que vêm sendo plantados desde 2015 e já estão dando frutos. Alguns fazendeiros já conseguiram colocar seus produtos oficialmente no mercado. É o caso da Fazenda Alliança, produtora do café orgânico Durini, e da Fazenda Florença, que conquistou seis prêmios, de 2019 para cá, com o café Vale do Café.

Tudo começou com o projeto Vocações Regionais da Cafeicultura Fluminense, criado pelo Sebrae-RJ em 2014. Contratado pela entidade, Flávio Borem, professor do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Lavras, visitou a região com a missão de ajudar os proprietários a recuperar a tradição cafeeira.

O cenário era desolador. "A visão deles era de que aquelas terras não davam mais nada, mas mostrei que existem técnicas para restaurar o solo", conta Borem.

O desencanto dos fazendeiros tinha razão de ser. Durante a fase áurea do Vale do Café, em meados do século 19, propriedades espalhadas pelos municípios de Barra do Piraí, Rio das Flores, Vassouras e Valença chegaram a ser responsáveis por 75% da produção mundial de café.

Algumas fazendas acumulavam mais de 1 milhão de pés. Ricos e poderosos, seus proprietários conquistavam títulos de nobreza e mantinham relação próxima com a família real.

Só que o período de opulência foi curto —em cerca de meio século, boa parte deles passou da fortuna à falência. Sem dominar técnicas de manejo, queimavam a Mata Atlântica nativa e plantavam os cafezais em colunas verticais, encostas acima.

A estratégia permitia que vigiassem de longe o trabalho dos escravos, mas favorecia a erosão e o arrasto de nutrientes. Em algumas décadas, o solo estava praticamente estéril.

A abolição da escravatura, em 1888, foi a pá de cal. Com produção em declínio e sem a mão de obra escravizada, os barões abandonaram a região, deixando para trás um rastro de destruição que perdurou por mais de um século.

Agora, a nova geração de cafeicultores do Vale do Café não quer saber de volume. Focados na produção de cafés especiais, eles seguem com rigor os manuais de boas práticas no campo e no beneficiamento.

Plantados em curvas de nível, em solo coberto com matéria orgânica, os pés de café arábica crescem irrigados por sistema de gotejamento, entre árvores nativas, que dentro de alguns anos garantirão o sombreamento. A colheita é manual e só os frutos maduros são escolhidos.

O método de secagem varia conforme a propriedade. Na Fazenda da Taquara, única ainda nas mãos da mesma família, há seis gerações, os grãos secam ao sol sobre o antigo terreiro de cimento. Na Florença, são dispostos em bandejas suspensas protegidas sob estufas. A Alliança também usa estufas, mas uma máquina secadora já foi encomendada.

Por ser uma produção tão recente, os novos cafeicultores do vale ainda não conseguiram determinar qual é a variedade com maior potencial na região. No passado, foi a Mundo Novo, mas atualmente as mais comuns são Arara, Catuaí amarelo e vermelho, Bourbon e Catucaí.

Animados com os resultados iniciais, os produtores já estão investindo na ampliação das lavouras. Marcelo Streva, herdeiro da Fazenda da Taquara, pretende passar de 16 mil pés para quase 20 mil até o fim do ano. Mas é do turismo que o retorno está chegando de forma mais acelerada.

Os cerca de 500 mil turistas que o Vale do Café recebia antes da pandemia ganharam um estímulo extra para conhecer as fazendas. "Eles visitavam os casarões, ouviam as histórias, mas não viam café algum", lembra Leda Barreto, analista do Sebrae-RJ, que participou da implantação do projeto.

Agora, as propriedades oferecem a experiência completa, do campo à xícara, e vendem os cafés que, pela produção reduzida, ainda não chegaram ao varejo —para comprá-los, é preciso ir até os produtores.

Na fazenda São Luiz da Boa Sorte, em Vassouras, os pouco mais de mil pés foram plantados junto a uma antiga estrutura, transformada em Museu do Café. Se a visita acontece entre março e agosto, os visitantes têm a sorte de ver a colheita de perto.

Na Fazenda Florença, uma microtorrefação e cafeteria foi construída literalmente no meio do cafezal é ali que os turistas encerram a visita, degustando o café da casa. Já na Fazenda Alliança, uma estrutura semelhante ocupa a antiga tulha: depois de ver como os grãos são torrados, os turistas podem degustar bebidas quentes e frias com café.

Uma vez por mês, o Vale do Café ainda sedia o evento Rota do Grão e uma Provinha de Cachaça. Durante a temporada 2022, de abril a agosto, fazendas produtoras de café e cachaça estarão de porteiras abertas, oferecendo experiências completas, das visitas no campo às degustações, com direito a espiadas no interior dos casarões. O próximo acontece em 21 e 22 de maio, com ingressos vendidos em sympla.com.br.

Vale a pena espichar o programa e se hospedar em uma das antigas sedes, decoradas com móveis e adornos de época. A lista completa das propriedades pode ser conferida no site portalvaledocafe.com.br.

A repórter viajou a convite da organização do evento Rota do Grão e uma Provinha de Cachaça

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