Veto de Doria a feira do MST em parque estadual gera embate político

Reações incluem abaixo-assinado a favor do evento e discussões acaloradas nas redes

Mariana Zylberkan
São Paulo

A ideia era angariar apoiadores nas redes sociais contra a decisão do governador João Doria (PSDB) que proibiu a feira anual de orgânicos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) de ser montada no parque da Água Branca, na zona oeste de São Paulo.

A postagem do editor de livros Haroldo Ceravolo Cereza, 44, em um grupo virtual de moradores do bairro de Perdizes, porém, descambou para uma discussão política acalorada e logo foi apagada pela administradora da página.

“Por isso, decidi criar um abaixo-assinado”, conta o editor sobre a mobilização online assinada por 17 mil apoiadores até o momento.

Montada uma vez por ano desde 2016 no parque da Água Branca, a Feira Nacional da Reforma Agrária, neste ano, teve autorização negada pela secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente, que gere o parque.

O órgão estadual atribuiu a negativa ao fato de que a área do parque não comportaria o público atraído pelas barracas, que cresce ano após ano. Segundo os organizadores, 260.000 pessoas compareceram à edição de 2018.

De acordo com decreto estadual, a autorização para eventos em parques públicos é para até 5.000 pessoas por dia. Em ofício, o MST previu a presença de 30.000 pessoas ao dia durante a feira, que deveria acontecer no primeiro final de semana de maio, mas foi adiada. 

A secretaria informou que a decisão teve “caráter estritamente administrativo e legal” e disse que ofereceu outros parques estaduais, como da Juventude e Ecológico do Tietê, mas as sugestões não foram aceitas.

Pessoas ligadas à organização da feira afirmam que enfrentam resistência todos os anos, mas que esta foi a primeira vez que a feira foi de fato barrada.

No ano passado, o conselho gestor do parque, formado por representantes da sociedade civil e da administração pública, também negou autorização para a feira, mas o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) teria intervindo a favor do evento. 

Registros do evento do ano passado mostram diversas manifestações a favor da soltura do ex-presidente Lula, preso cerca de um mês antes. Faixas com os dizeres "Lula livre" foram exibidas no palco durante as apresentações musicais. O bicentenário de Karl Marx foi comemorado na programação. 

Diante da negativa de Doria, a bancada do PT na Câmara Municipal de São Paulo se mobilizou para transferir a feira para parques municipais, como o Ibirapuera, o que foi negado por questões de segurança.

A gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB) sugeriu o parque Chácara do Jockey, mas os organizadores argumentaram que o espaço físico ali seria insuficiente. O Anhembi também foi aventado, mas, por não dispor de estrutura para abrigar as barracas do sol e da chuva, foi descartado. 

O vereador Eduardo Suplicy (PT) enviou uma carta a Doria exaltando a importância da feira, mas recebeu nova negativa do governador. 

A mobilização da oposição ao governo tucano se deu também na Assembleia Legislativa, por meio de representações da Bancada Ativista e do deputado Carlos Giannazi, ambos do PSOL, criticando a decisão. 

O embate político em torno da organização de uma feira de alimentos cultivados por agricultores ligados ao MST chegou às esferas do poder e foi tema, no último domingo (14), de trocas de farpas virtuais entre Doria e o perfil oficial do ex-presidente Lula no Twitter. 

O perfil do governador paulista fez uma postagem em que sobrepôs com uma faixa com os dizeres “Lula cara de pau” o tuíte atribuído ao ex-presidente que divulgava o link do abaixo-assinado a favor da liberação do parque da Água Branca para a feira.

Doria acusou a organização de estar em desacordo com normas de segurança e de fraude, com vendas de produtos não orgânicos. 

No parque da Água Branca fica a sede do Fussesp (Fundo de Desenvolvimento Social e Cultural do Estado de São Paulo), gerido pela primeira-dama, Bia Doria, em parceria com o ex-secretário municipal de Assistência Social Filipe Sabará. Eles têm usado os espaços do parque para organizar cursos profissionalizantes.

O parque é também sede de outra feira de alimentos, gerida pela Associação de Agricultura Orgânica, que ocorre ali todas as semanas desde 1991.

O crítico gastronômico Jota Bê conta que passou a ser xingado nas redes sociais e diz ter perdido milhares de seguidores depois de ter postado fotos de sua participação na Feira Nacional da Reforma Agrária no ano passado.

“Venho sendo bastante agredido, mas, para cada xingamento, quero apresentar um trabalho legal”, diz Jota Bê, que tem acompanhado e postado registros de atividades do MST, como a colheita de arroz orgânico, café e chocolate. 

Ele conta que os ataques virtuais se intensificaram há cerca de uma semana, quando postou fotos cozinhando ao lado de João Pedro Stédile, um dos fundadores do MST, durante almoço para divulgar a feira. “[Essa reação] ainda é reflexo do antipetismo que ganhou a eleições”, diz Jota Bê. 

​A liderança do MST em São Paulo ainda não descarta a realização da feira no parque e a postergou para a primeira semana de agosto, na expectativa de ter mais tempo para convencer o governador.

“Nos outros anos, com o ​Alckmin, era mais fácil dialogar”, diz um dos organizadores, Milton Fornazieri.

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