Governo quer transformar cruzeiro em hospital e recrutar formandos de medicina

Estudantes atuariam em funções de apoio e médicos aposentados em teleatendimento

Brasília

Diante do avanço do novo coronavírus, o Ministério da Saúde firmou um acordo com estados para distribuir imediatamente leitos extras de UTI, ao mesmo tempo em que planeja transformar alguns cruzeiros em hospitais e se prepara para iniciar um recrutamento voluntário de estudantes e médicos aposentados.

Segundo o secretário-executivo da pasta, João Gabbardo dos Reis, a ideia é recrutar estudantes do último ano de medicina e outras áreas de saúde para atuarem de forma voluntária em funções de apoio durante a emergência pelo novo coronavírus.

Outra convocação deve ser feita para médicos aposentados. Neste caso, a ideia é que eles fiquem em funções de teleatendimento, para evitar o risco de infecção mais grave pela doença.

O objetivo é garantir que haja um reforço na rede de saúde diante de um possível aumento na demanda por atendimento e como retaguarda caso profissionais de saúde tenham sintomas e precisem ser afastados temporariamente.

"Em todas as universidades relacionadas à área da saúde vai haver uma convocação para que os estudantes, no último ano da graduação, se inscrevam como voluntários", diz Gabbardo.

Neste caso, estudantes devem receber uma autorização excepcional para desempenhar funções de apoio na rede de saúde.

De acordo com Gabbardo, a pasta está fazendo um levantamento de quantos profissionais extras poderiam ser incorporados com essas medidas. A distribuição deve ocorrer conforme a demanda de secretarias de saúde no local onde atuam, afirma.

Além desses profissionais, o governo também finaliza um edital contratar 1.800 médicos cubanos no programa Mais Médicos.

A medida já era prevista na lei que cria o programa Médicos pelo Brasil, mas ainda não foi lançada.

Outros 5.811 médicos brasileiros já foram chamados para entrar no programa --destes, mais de 4.400 já se inscreveram.

O Ministério da Saúde também anunciou medidas extras para organizar a rede de assistência.

Uma delas é a distribuição de 540 leitos temporários de UTI para os estados. Todos devem receber no mínimo dez. Os demais devem ser distribuídos conforme a população de necessidade local – do total, 80 devem ser direcionados a São Paulo, 50 para Minas Gerais e 40 para o Rio de Janeiro.

Até o início da noite desta segunda, o país já somava 234 casos confirmados de covid-19, distribuídos em 15 estados e Distrito Federal. Também tinha registro de transmissão sustentada –quando não é possível fazer vínculo dos casos-- em ao menos duas cidades: São Paulo e Rio de Janeiro.

Em outra frente, o ministério avalia transformar cruzeiros em hospitais e centros de quarentena.

“Temos a possibilidade de um cruzeiro com mil quartos ficar funcionando no Rio de Janeiro como hospital que vai dar apoio ao serviço de saúde. Temos outro navio com 2.000 quartos já disponível e se for necessário, vamos ter mais. Essa é uma parceria que estamos fazendo com as empresas”, disse Gabbardo.

Segundo ele, a negociação ocorre em meio a um acordo também para suspensão da atividade desse navios durante a emergência para evitar o risco de infecção em meio a grande circulação de turistas.

Inicialmente, a ideia é que os custos de manutenção do navio sejam mantidos com as empresas, que cederiam o espaço. Já as equipes sejam fornecidas pelo ministério e secretarias estaduais.

“Teremos um local para fazer isolamento, quarentena, para atender pacientes de baixa complexidade. Vamos estudar qual a melhor utilização para esses leitos”, afirma o secretário.

Ainda de acordo com Gabbardo, o ministério vai adquirir 150 mil testes laboratoriais extras para o diagnóstico do vírus. Também avalia adquirir testes rápidos para oferta na rede –o volume não foi informado.

Apesar da medida, o governo ainda avalia uma mudança nos parâmetros de testagem em locais onde já há registro de transmissão sustentada da doença.

A ideia é, nesses locais, concentrar o monitoramento apenas em pacientes com síndrome respiratória grave internados em hospitais e em amostras sentinela coletadas na rede de saúde –ou seja, somente em parte dos casos leves.

A medida vai na contramão do que defende atualmente a OMS (Organização Mundial de Saúde), que recomendou nesta segunda que países que tiverem recursos disponíveis busquem a testagem de todos os casos, incluindo casos leves.

Segundo o secretário de vigilância em saúde, Wanderson Oliveira, ainda não há previsão de quando haverá essa mudança de modelo. “Estranha muito a OMS recomendar dessa maneira, uma vez que os insumos são insuficientes para testar todo mundo”, disse.

De acordo com ele, até que haja uma decisão pela mudança no modelo em algumas regiões, o ministério manterá a testagem de todos os casos de pessoas com sintomas e histórico de viagens ao exterior ou contato com casos confirmados.

Uma eventual mudança, diz, deve ocorrer após análise com a área técnica.

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