De promessa a cicatriz no centro, Minhocão completa 50 anos

Graça e repulsa contidas no apelido, anterior mesmo à inauguração, resumem relação da cidade com o elevado

Vista do elevado Presidente João Goulart, que nasceu como Costa e Silva, em 1971, mas foi sempre o Minhocão; é uma foto noturna, vemos a estrutura serpentear entre prédios, alguns dos quais exibem grafites coloridos; os faróis dos carros deixam marcas de luz na pista

Vista do elevado Presidente João Goulart, que nasceu como Costa e Silva, em 1971, mas foi sempre o Minhocão Karime Xavier - 14.nov.20/Folhapress

São Paulo

Ao mesmo tempo que completa 467 anos, São Paulo também celebra bodas de ouro de um casamento conflituoso, iniciado em 25 de janeiro de 1971, com a inauguração do Minhocão.

Foi Maluf que fez. Em 1969, o político anunciava à imprensa a construção da “maior obra em concreto armado de toda a América Latina”, que, sobrepondo-se a vias da região central, ligaria as zonas leste e oeste sem semáforos, agilizando o trajeto para, previa-se, 12 mil veículos ao dia.

O elevado marcaria a primeira gestão de Paulo Maluf como prefeito, nomeado pelo general Costa e Silva —segundo presidente da ditadura (1967-69), com cujo nome seu preposto batizou o viaduto.

Mas ele é simplesmente o Minhocão desde antes de ser inaugurado, como registra reportagem publicada pela Folha em 1º de janeiro de 1971.

A graça e a repulsa contidas no apelido resumem a relação da estrutura com a cidade.

Na citada reportagem, os superlativos números de sua construção denotam o orgulho com que se mirava o colosso de concreto, promessa de modernidade —quase 2.500 operários trabalhando em regime de 24 horas, 680 mil sacos de cimento que cobririam, enfileirados, quase 600 km, algo como a distância de São Paulo a Belo Horizonte.

Naquele janeiro, lojas enalteciam em reclames sua proximidade com a estrutura, e até na coluna social de Tavares de Miranda, na Ilustrada, acompanhava-se o progresso da obra, tocada pelas duas primeiras colocadas na licitação —o Consórcio Construtor Brasileiro de Estruturas e a Rossi Engenharia.

Já então, porém, a obra não era do agrado geral.

“Esse não era o projeto que os funcionários da prefeitura, os técnicos, queriam executar”, recorda o arquiteto Eduardo José de Carvalho, 78.

Recém-formado pela FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), ingressara em 1967 na Secretaria de Obras. Trabalhava no departamento de urbanismo, que era uma espécie de “núcleo de ideias” para a cidade, conta —criava-se um “estoque de projetos” que ficava disponível para que a gestão usasse quando bem lhe aprouvesse.

O que o departamento concebera para ali era um túnel. “Só que um túnel custa mais caro, é muito mais difícil de fazer. Impediria um pouco a vontade de realizar a obra em pouco tempo.”

Carvalho conta que a mudança decidida sem discussão pelo prefeito criou mal-estar no departamento, que não foi responsável pelo projeto —este ficou a cargo dos vencedores da licitação.

Em pouco tempo o elevado perdeu a graça, e medidas foram adotadas para limitar seus efeitos deletérios.

Em 1976, passou a ficar fechado de 0h a 5h, para diminuir os acidentes —e os incômodos para a vizinhança.

Desde 2014, a repulsa e a graça vêm opondo membros dessa vizinhança no debate público, a partir da decisão, inscrita no Plano Diretor, de que o elevado deveria ser desativado, por desmonte ou por transformação em parque.

De um lado da contenda, ficou o Movimento Desmonte Minhocão; de outro, a Associação Parque Minhocão.

Lucio Gomes Machado, professor aposentado de história da arquitetura na FAU-USP, é partidário do desmonte.

Ele tinha 25 anos quando o elevado foi construído a poucas quadras de sua casa. Desde então, abomina a estrutura, que “desqualificou prédios fantásticos”. Gomes Machado lembra que moradores logo foram à Justiça contra a prefeitura, devido à depreciação de seu patrimônio.

A vida dos moradores, muitos dos quais trazidos pela desvalorização da região, foi tema do documentário “Elevado 3.5”, realizado em 2006 por João Sodré, Paulo Pastorelo e Maíra Bühler.

Sodré, que é arquiteto e hoje professor da Escola da Cidade, orientou alunos num exercício sobre o elevado em 2019.

A inserção do Minhocão no currículo atendeu a uma proposta feita pela prefeitura à Escola da Cidade e às faculdades de arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da USP.

A grande preocupação de Sodré é que a população de baixa renda seja expulsa pela revalorização que o desmonte ou o parque trariam.

A maior parte de seus alunos optou pela demolição do viaduto. Ele próprio pensa que a manutenção da estrutura impossibilita a recuperação da cidade, em especial pela degradação do plano térreo, o baixio.

Mas pondera que gostaria de preservar os pilares, “como uma obra de arte pública”, sinalizando “a ruína desse modelo de cidade” e em lembrança do esforço dos operários que cavaram a terra, com pás, para fazer as fundações.

Um repasse pelas notícias de jornal mostra que, em 1981, o baixio já era foco de preocupação para o paulistano: lambe-lambes e pichações maculavam os pilares da estrutura, e a prefeitura prometia limpá-la mensalmente. Uma crônica na Ilustrada sugeria plantar hera, já que “a essa altura não dá para derrubar mesmo”.

Na década de 1990, o incômodo parecia assimilado com resignação. Os registros noticiosos são de acidentes.

Nos anos 2000, o elevado parece mencionado como algo nefasto, uma cicatriz urbana; e, por fim, na década passada, surge reinventado como palco de intervenções artísticas.

Esse novo congraçamento tem entre suas marcas simbólicas a mudança de nome do elevado, em 2016, na gestão de Fernando Haddad (PT), para João Goulart—o presidente deposto pela ditadura que erigiu o Minhocão.

A adoção do elevado como área de lazer se consolidou com a progressiva ampliação das horas de fechamento.

As faixas horárias vedadas ao tráfego de veículos haviam sido esticadas primeiro em 1989, na gestão de Luiza Erundina (PT), e depois em 2018, sob João Doria (PSDB).

Foi Doria quem promulgou a lei que oficializa a criação do parque e a desativação gradual do elevado, em atenção ao disposto no Plano Diretor.

Esse uso de lazer, opina Francine Sakata, não deveria ser eliminado. Professora de paisagismo, ela orientou na FAU-USP disciplina optativa que também atendeu à proposta da prefeitura.

Antes da reflexão promovida em sala de aula, ela tendia à manutenção do viaduto, que garantia o espaço de lazer.

Entre os achados dos estudantes, ela destaca o levantamento feito por um deles que aponta que não é o parque que vai supervalorizar a área —o entorno, segundo os dados, nos últimos dez anos tem sido bem mais dinâmico, em termos de produção imobiliária, que o resto da cidade.

“É possível”, aponta ela, “que a ideia do parque decorra já desse movimento.” Ao mesmo tempo, diz, em pesquisa feita por outra aluna, as pessoas “falavam mal do barulho, da sujeira, mas não do Minhocão”, que, diz ela, foi naturalizado e faz parte da paisagem.

Pessoalmente, ela é pela remoção do viaduto, por causa das condições do baixio.

No entanto, aponta, dada a numerosa população em situação de rua que o habita, essa questão não pode ser “um problema só de arquitetos”. “Mas daria para atenuar as necessidades das pessoas, que às vezes são um banheiro, uma água.”

A disciplina ministrada por Sakata previa a implantação do parque, e foram contempladas três vertentes —manter a estrutura, desmontá-la ou desmontá-la parcialmente.

“Na hora que tira o Minhocão, tem vários espaços que começam a existir, locais que são muito legais para praças, lugares de encontro muito bacanas”, diz.

“Mas não quer dizer que, se tirar o Minhocão, isso vai se consolidar. A questão é a da cidade que você quer ter, o que você quer fazer com os carros, a população de rua”

Em 2019, parecia que os partidários do parque iam ganhando a disputa; a prefeitura, já sob Bruno Covas (PSDB), anunciou que implantaria um trecho dele, usando um projeto do arquiteto e ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner e ideias vindas de concursos e debates feitos ao longo dos anos.

Zé Alves foi vencedor de um dos concursos, o Prestes Maia, realizado em 2006. Ao lado de sua mulher, Juliana Corradini, propôs um edifício serpenteante usando a estrutura, formando uma galeria para comércio e usos públicos —na cobertura, um parque linear.

“Nosso projeto tem a ver com deixar a memória em pé”, diz ele, frisando que a opção por manter a estrutura é também mais sustentável.

“Algumas pessoas enxergam como monstro, elefante branco. Eu enxergo como uma categoria de estrutura que pode acoplar usos contemporâneos.”

Para o arquiteto, há que se tentar “exercer um outro urbanismo, que lida com a preexistência, como um palimpsesto de verdade, não fazer tábula rasa da cidade”.

“Fico imaginando se a gente tivesse essa mentalidade desde a Antiguidade, o que seriam as pirâmides, o que seria Macchu Picchu?”

É papel dos arquitetos, diz, apontar as possibilidades. “A população nem imaginava que o Minhocão pudesse se transformar num parque, agora as pessoas enxergam o parque tranquilamente.”

Mas, diz Zé Alves, “o Minhocão não precisa de um design super-rebuscado”. Aliás, “nem deve ter, a manutenção é supercomplicada. Tem de ser um design muito bruto e resistente a vandalismo.”

Morador da região por 16 anos, ele se mudou para Araras, a 168 km de São Paulo, em parte motivado pelo desencanto com a falta de resolução para o problema que o Minhocão se tornou.

A tentativa de implantação do parque foi travada por uma Adin (ação direta de inconstitucionalidade) movida pelo então vereador Caio Miranda (PSB). O projeto foi interrompido por liminar em junho de 2019 e teve sua retomada autorizada em outubro do mesmo ano.

Estão em implementação melhorias de segurança e acessibilidade, que eram requeridas pelo Ministério Público mesmo para o uso atual de lazer da estrutura, independentemente da transformação prevista para o parque.

Também foi feita uma consulta pública, como parte do Projeto de Intervenção Urbana Minhocão.

Em paralelo, a prefeitura levou à SP Urbanismo as propostas das universidades, que vão ampliando o banco de ideias a respeito do elevado, ao lado de outras propostas, como as vindas do concurso Imagine Parque Minhocão, realizado pelo site Projetar.org com apoio da prefeitura.

No momento, o destino dessas iniciativas está em suspenso, porque foi aprovada na Câmara, no ano passado, a realização de um plebiscito, que teria lugar junto das eleições de 2022.

“A gestão defende que a melhor forma de aprofundar os estudos técnicos e de qualificar o debate com a população diretamente afetada, e também de toda a cidade, para ao fim definir a melhor solução para o Minhocão, é através da continuidade do PIU”, diz a prefeitura em nota.

“Dessa forma, o plebiscito não aparenta ser o instrumento consultivo mais adequado para avançar sobre questões urbanas complexas como esta”, continua.

Lucio Gomes Machado aposta que, sem a presença de Caio Miranda, defensor do desmonte na Câmara, a proposta do plebiscito não irá adiante.

João Sodré e Zé Alves, por sua parte, se mostram receosos com a realização da consulta popular, por acreditarem que a vontade dos moradores do entorno se diluiria nela.

Para Sodré, moradores mais antigos podem ficar alijados do debate.

Já Zé Alves opina que “muita gente vai votar contra [o parque] porque vai falar da ditadura, que é um monstro”. “Pessoas que nunca usaram e não sabem o real sentimento de quem mora lá”, afirma.

Na mais recente pesquisa Datafolha sobre o tema, em setembro de 2020, 54% dos paulistanos afirmaram achar que o Minhocão deveria ser mantido como está —uma avenida expressa cujo trânsito é interrompido para dar lugar a uma área de lazer à noite, em finais de semana e feriados.

Querem o parque 30% da população —em 2014, eram 23%. Outros 7% querem a demolição total, e o restante não sabe qual o melhor destino a dar à estrutura.

“Uma decisão, isso é que está faltando há anos. Se é para demolir, demole”, diz Zé Alves. “O que não dá é para resolver tudo. Se você quiser agradar todo mundo, não vai sair nada.”

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