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A informação como bem público

Comemoração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa retoma tema que marcou sua origem quase 30 anos atrás

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Patricia Blanco

Presidente-executiva do Instituto Palavra Aberta

No próximo 3 de maio, inúmeras associações espalhadas pelo mundo se unem à Unesco para celebrar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (WPFD, na sigla em inglês).

A data foi estabelecida em 1993, dois anos depois de um seminário realizado em Windhoek (Namíbia) ter plantado as sementes das ideias que culminaram na celebração global. Agora, ao comemorar quase 30 anos de ativismo em defesa da liberdade de imprensa, o evento propõe o inadiável diálogo a respeito dos principais desafios do jornalismo e da imprensa no mundo.

Sob o guarda-chuva do tema principal, “Informação como bem público”, estão os três pilares que precisam ser erguidos com extrema urgência para que possamos construir conhecimento e um ambiente midiático que resguarde as liberdades e, ao mesmo tempo, exija responsabilidade como contrapartida, mantendo e fortalecendo os princípios democráticos.

Mulheres majoritariamente de branco caminham em avenida e, no centro, uma moça de roupas escuras acompanha a marcha
A repórter Nasta Zakharevich (no centro, de cabelo curto e calça bege), como outros jornalistas que cobriram protestos contra a ditadura, foi detida e condenada à prisão - Arquivo pessoal

Entre os temas propostos para a celebração deste ano estão medidas para garantir a viabilidade dos veículos de comunicação, incluindo segurança dos jornalistas e sustentabilidade econômica; mecanismos para garantir a transparência das empresas de internet; e o incentivo e aprimoramento das capacidades de educação midiática e informacional que permitam às pessoas reconhecer e valorizar, bem como defender e enxergar o jornalismo como uma parte vital da informação como um bem público.

As temáticas, que serão debatidas tanto na Conferência Internacional promovida pela Unesco entre 29 de abril e 3 de maio –com o apoio do Governo da Namíbia–, bem como em diversos eventos espalhados pelo mundo, incluindo no Brasil, se entrelaçam.

Juntas, exigem urgente aprimoramento para que o mundo possa frear os avanços de grupos autoritários que se aproveitam de novas ferramentas de comunicação para gerar desinformação, discórdia, polarização e ódio, tendo como objetivo principal dividir as sociedades, questionar as instituições, enfraquecer o jornalismo profissional e, com isso, minar a democracia.

A primeira coluna desta obra fundamental é a garantia da viabilidade econômica das organizações jornalísticas livres, independentes e plurais em um ambiente cada vez mais digital. O acesso à livre informação e a compreensão de que os fatos mais confiáveis são aqueles fornecidos pelas organizações de notícias que seguem critérios éticos e métodos efetivos de checagem e verificação têm salvado vidas. O período tão doloroso da pandemia tem comprovado isso.

Infelizmente, na prática, os conteúdos que mais chamam a atenção são aqueles carregados de ódio, de teorias conspiratórias e histórias sensacionalistas, quase sempre inverídicos e cada vez mais distantes da verdade e do jornalismo profissional. Sem contar a quase total falta de conhecimento do papel da imprensa e de como o jornalismo é produzido, questões que acabam subvertendo a ordem natural e impondo um desafio ainda maior para a sustentação econômica dos veículos. Se o leitor não valoriza o trabalho da imprensa, por que pagaria por ele?

Para mudar essa verdadeira inversão de valores é preciso implementar um modelo conciliador e de transparência, segundo pilar temático proposto para este ano. A produção jornalística e o complexo trabalho das agências de checagem devem buscar um número cada vez maior de parcerias com as grandes plataformas de internet com o objetivo de obter mais audiência em seus canais, além de buscar condições de competir, em pé de igualdade, com a desinformação online.

O terceiro pilar também exige trabalho conjunto entre todos os agentes da sociedade da informação. Para driblar os desafios expostos acima, é necessário fomentar a educação midiática e informacional para que as pessoas não sejam ludibriadas e manipuladas por conteúdos falsos, com grande potencial de dano.

No Brasil, o Instituto Palavra Aberta atua a partir do seguinte conceito: é preciso ter ética, senso crítico e, principalmente, responsabilidade para exercer plenamente a liberdade de expressão. Essas boas práticas são a base do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto, que tem como objetivo formar cidadãos com habilidades e competências para acessar informações, analisá-las corretamente, conhecer as técnicas de criação e produção de mensagens e, com isso, participar ativamente da sociedade. Além, é claro, de aprender a valorizar e dar a devida importância para a imprensa como forma de fortalecer a democracia.

Que o dia 3 de maio vá além da data festiva e sirva como um momento de reflexão sobre o papel da imprensa e sobre a importância de formarmos uma geração que valorize a sua atuação.

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