Pioneira no combate à fome no Brasil amplia impacto durante a pandemia

Luciana Quintão, da ONG Banco de Alimentos, distribuiu quase 6 milhões de quilos de comida

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Gisele Vitória
São Paulo

São 9h, e Luciana Quintão sobe as escadas da casa amarela onde fica a sede da Banco de Alimentos, em Perdizes, São Paulo. Chega carregando uma bolsa com seu gato, que levaria ao veterinário.

A máscara esconde o sorriso da economista carioca, mas uma imagem risonha de uma fatia de melancia, com olhinhos felizes de quem está alimentado, estampa a fachada da ONG.

Na fase mais crítica da pandemia, a organização levou 5,6 milhões de quilos de alimentos a cinco estados do país, impactando 1,5 milhão de brasileiros.

"A fome não pode esperar e, diante da urgência, buscamos fazer mais", diz Luciana. A força-tarefa, que envolveu aluguel de galpões e de caminhões, foi batizada de Brasil sem Fome.

Luciana Quintão da ONG Banco de Alimentos
Luciana Quintão da ONG Banco de Alimentos - Renato Stockler/Folhapress

"Foi uma mobilização intensa, ampliamos o nosso trabalho", afirma, com o sorriso largo e já sem máscara de quem há 23 anos fundou a instituição com desejo de combater a fome e o desperdício de comida. "É o que me move. Chegou um momento que eu me cobrei ações."

A Banco de Alimentos busca comida onde sobra para levar aonde falta. Graças a essa "colheita urbana", realiza complementação alimentar para 43 entidades que atendem a mais de 23 mil pessoas por dia.

Com a crise da Covid-19, grandes empresas que nunca haviam participado do combate à fome foram engajadas. Além da Grande São Paulo, a ONG chegou ao Vale do Ribeira (SP) e a Bahia, Amapá, Paraná e Rio de Janeiro.

Com a campanha "O Brasil que Come Alimenta o que Tem Fome", iniciada em abril de 2021, a ONG bateu a meta de R$ 1 milhão em arrecadação. "Chegamos a R$ 1,4 milhão", contabiliza Luciana, ao desfiar também os números da fome no Brasil.

Antes da pandemia, 52 milhões de brasileiros viviam em situação de insegurança alimentar. Hoje são 116,8 milhões. Entre esses, 19 milhões passam fome, enquanto 27 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas em média por ano, segundo dados da FAO/ONU.

"Não podemos ser indiferentes a essa realidade. A sociedade precisa se conscientizar. É preciso mudar a cultura do desperdício", afirma a empreendedora social nascida em família abastada.

"Minha casa na Gávea era linda, e a vista para a favela da Rocinha me impactava. Desde pequena, era sensível à desigualdade. Sempre tive esse olhar para as nossas dores."

Aos 59 anos, mãe de três filhos (Diana, 29, Artur, 27, e Antonio, 18), companheira do "namorido" Mario Nístico, ela tem formação antroposófica. "Adoro ioga, estudei cabala e budismo. Tenho um pé na psicologia."

Antes de se mudar para São Paulo, morou um ano e meio nos Estados Unidos nos anos 1980, acompanhando o primeiro marido transferido a trabalho. Lá, fez o mestrado em finanças.

Neta de Fernando Chinaglia, fundador da distribuidora, gráfica e editora homônima, ela trabalhou como gestora na área editorial antes de enveredar para o social.

Há muitas fomes. O que nos prejudica é a falta de acesso.

Luciana Quintão

Brasil sem Fome

Na juventude, aos 19 anos, um assalto em seu Escort prateado, o carro da moda na época, mostrou-lhe a face da violência que a desigualdade abarca. "Eu via a Rocinha de longe. Dois meninos, possivelmente de lá, me abordaram agressivamente perto do túnel Dois Irmãos. Não sei se digeri aquela violência."

Aos poucos, Luciana foi se envolvendo com doações na época de Natal e da Páscoa. "Eu ia aos orfanatos e depois ficava uma semana doente, de cama."

A decisão de abrir a ONG esbarrou em resistências e prejulgamentos. "Era uma iniciativa à frente de seu tempo, e fui considerada desobediente civil, com ameaça de ser presa, já que não tinha proteção da legislação. Enviamos 400 cartas para indústrias de alimentos. Só cinco responderam, com votos de boa sorte. Um baque, mas não desanimei."

Estruturou a instituição com recursos próprios, após vender sua parte na editora. Depois de 21 anos trabalhando voluntariamente, Luciana decidiu prever um pró-labore para sua função de presidente. "Já tive várias vezes em vias de fechar por falta de recursos. Não temos convênio com governos. Mas hoje estamos equilibrados", diz.

No final de 2019, pouco antes da pandemia começar, Luciana lançou o livro "Inteligência Social - A Perspectiva de um Mundo Sem Fome (s)".

Na obra, propõe uma visão diferente do conceito descrito pelo psicólogo americano Daniel Goleman, autor do best-seller "Inteligência Emocional" e que em 2006 lançou "Inteligência Social - O Poder das Relações Humanas."

"A inteligência social tem que estar a serviço da coletividade, tendo interface com inteligência política, econômica e educacional, todas as outras áreas necessárias à sociedade", defende Luciana.

Com 253 páginas, a obra se divide em três partes: Inteligência social, Rumo à Evolução Social e Inteligência Social Aplicada. Também relata a história da fome no Brasil, com levantamento da segunda metade do século 19 até os dias de hoje, que mostra a persistência da insegurança alimentar. "Um mundo assim não é inteligente."

Luciana C. Quintão é a líder à frente da ONG Banco de Alimentos - Renato Stockler/Divulgação

Alex Atala, que assina o prefácio, endossa: "Se o livro fala de inteligência social, eu quero contribuir com a palavra valor. Luciana gerou novo valor para o alimento".

O chefe de cozinha continua: "Por que não jogamos moeda fora? Esse é o valor (quase utópico) que damos para o dinheiro. E por que jogamos comida fora? A Banco de Alimentos vem praticando este valor."

Atala conta que conheceu Luciana no final dos anos 1990. "Ela não gerou menos lixo, ela gerou uma cadeia mais justa. É um exemplo que muitos brasileiros falam e poucos praticam, e eu talvez me inclua neles", diz. Ele afirma que a Banco de Alimentos foi uma das sementes para, quase 20 anos depois, ter fundado o Atá, instituto que dirige.

Luciana quer inspirar também estudantes. Lançou em outubro uma plataforma, que inclui o aplicativo Inteligência Social, em fase de teste.

"Acredito que escolas devem e podem ser um centro transformador." É uma ação voltada para o Brasil que não passa fome, mas, por não fazer nada, faz com que ela se perpetue.

Para Luciana, a fome é uma metáfora universal para a falta. "Há muitas fomes. Percebi isso desde cedo. Falta de educação, falta de saúde, falta de acesso à comida. O que nos prejudica é a falta de acesso."

A dureza da distopia da pandemia não a impede de pensar em uma sociedade mais justa e seguir fazendo algo por isso.

"Um mundo melhor, com menos fomes e mais respeito", almeja Luciana, com a certeza de ter construído uma tecnologia social que minimizou os efeitos da crise sanitária entre os mais vulneráveis.

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