Descrição de chapéu The New York Times

Ritmo de novas infecções pelo coronavírus na China é alarmante, dizem autoridades

Doença está em período mais complexo, afirma autoridade de saúde do país; mortes vão a 80

Raymond Zhong Chris Buckley
Xangai (China) | The New York Times

Uma autoridade de saúde de alto escalão da China alertou no domingo (26) que o avanço do letal novo vírus coronavírus, já extraordinariamente rápido, poderia se acelerar ainda mais, aprofundando temores globais sobre uma doença que já contaminou mais de 2.000 pessoas pelo mundo e matou ao menos 80 na China.

Além disso, Ma Xiaowei, diretor da Comissão Nacional de Saúde da China, disse que pessoas que carregam o vírus, mas não apresentam sintomas poderiam mesmo assim infectar outras pessoas. O período de incubação, ele acrescentou, pode variar de 1 a 14 dias, com uma duração típica de cerca de 10 dias.

Essa transmissão assintomática representaria uma enorme diferença entre a nova doença respiratória e a Sars, que matou quase 800 pessoas na China e ao redor do mundo há quase duas décadas.

Policial, de máscara no rosto, gesticula em frente a uma série de bloqueios em uma via vazia, em Wuhan
Policial em um dos bloqueios que impedem a saída de pessoas de Wuhan, na China - Hector Retamal/AFP

"A epidemia está agora entrando em um período mais sério e complexo", disse Ma durante uma entrevista à imprensa em Pequim. "Parece que ela continuará por algum tempo, e o número de casos pode crescer."

Na China, o final de semana foi de novos alertas sombrios sobre o vírus ainda quase incompreendido e uma contagem crescente de infecções e mortes. O número oficial de infecções confirmadas por toda a China saltou em cerca de 50% em um período de 24 horas, chegando a 1.975 no domingo. Na manhã de sábado, eram cerca de 1.300.

Entre as mortes pelo coronavírus anunciadas mais recentemente estão a de um homem de 88 anos em Xangai —a primeira a ser registrada nesse centro comercial, que é uma das cidades mais populosas da China. Um dos últimos casos confirmados é o de uma menina de nove meses em Pequim.

Novos casos surgiram em Hong Kong, Taiwan, e nos Estados Unidos, onde os Centros de Controle e Prevenção de Doenças anunciaram que tanto a Califórnia quanto o Arizona tinham pacientes, levando o total do país a cinco. O vírus já havia sido encontrado na Tailândia, na França, no Japão, na Coreia do Sul, na Austrália, e mais. 

Em Wuhan, a cidade chinesa no centro da epidemia, o prefeito disse no domingo que autoridades de saúde poderiam confirmar ainda mais mil casos da doença na cidade.

O prefeito, Zhou Xianwang, disse que a estimativa era baseada na suposição de que cerca de metade dos quase 3.000 casos suspeitos da cidade teriam resultados positivos para a doença.

Zhou disse ainda que 5 milhões de pessoas deixaram Wuhan antes da restrição a viagens para fora da cidade, deixando 9 milhões ainda lá. Isso poderia levar a muitos novos casos em outras partes da China nas próximas duas semanas.

O líder chinês, Xi Jinping, prometeu medidas drásticas para conter o vírus. O governo nacional baniu no sábado a venda de animais selvagens até o fim da epidemia. A irrupção da doença atraiu renovada atenção aos mercados de animais chineses, onde a venda de criaturas exóticas esteve ligada a riscos epidemiológicos. 

As 50 milhões de pessoas da província de Hubei, da qual Wuhan é a capital, se encontraram em um bloqueio quase total no domingo. Autoridades chinesas consideravam estender o feriado do ano novo lunar, o que adiaria a reabertura de escolas e escritórios e encorajaria mais pessoas a ficarem em casa. Eles também limitaram as viagens de ônibus intermunicipais e ordenaram que grupos de turismo chineses cessassem suas operações na segunda (27). 

Mas temores persistem sobre se o governo conseguiria conter a expansão do vírus. Epidemiologistas do Imperial College, em Londres, estimaram que cada caso infectou uma média de 2,6 outras pessoas nas etapas iniciais da crise.

Esse número pode baixar conforme as autoridades tomem medidas mais rigorosas. Mas, se não cair, o número de infectados pode subir acentuadamente.

Mesmo enquanto os altos níveis do governo chinês se mobilizam para lutar contra a doença, muito do trabalho de prevenção do contágio ainda recai sobre autoridades locais, que podem estar inseguros sobre como responder à crise e agir de maneira desigual no cumprimento de políticas públicas. 

No domingo, em Wuhan, por exemplo, policiais estavam confusos com as novas restrições ao trânsito dentro dos limites da cidade. 

Primeiro, as autoridades municipais disseram que a maioria dos carros deveriam ficar fora das ruas, e que uma frota de 6.000 táxis estaria de plantão para entregar comida e remédios. Depois, as autoridades disseram que motoristas seriam avisados por mensagem de texto se eles tivessem que ficar fora das ruas. Ninguém parecia ter recebido as mensagens no domingo. 

"Meu entendimento", disse um policial, "é que você pode dirigir no seu distrito se você não receber uma mensagem de texto dizendo que não deve. Mas você deve checar isso com as autoridades de transporte."

No fim, a maior parte dos motoristas ficou fora das ruas. Mas conforme as horas passaram, mais e mais saíram de casa, e a polícia não parecia fazer muito quanto a isso. 

Para alguns moradores, era mais uma confusão desesperadora por parte das autoridades de Wuhan, que muitos acreditam ter lidado mal com a epidemia. Mas as restrições pareciam ter sido aceitas com a mesma força estoica que muitos demonstraram nos últimos dias, conforme a cidade impôs banimentos às viagens para fora de Wuhan para quase todos. 

Esse clima pode mudar, no entanto, caso as medidas afetem as reservas de comida e piorem a escassez do serviço médico

"Agora não é o momento para recriminações", disse Li Xiandu, um administrador de empresas aposentado. "O governo local não foi transparente com as informações e não tomou medidas vigorosas o suficiente. Mas é preciso superar esta situação primeiro, e depois apontamos os culpados."

A sensação de confusão e incerteza se estendeu até o esforço do governo dos Estados Unidos para evacuar diplomatas e cidadãos americanos da China. 

O Departamento de Estado disse no domingo que estava preparando um voo que deixaria Wuhan na terça, rumo a San Francisco. Além da equipe diplomática, o avião também levaria um número limitado de cidadãos privados, disse o departamento. 

Mas o órgão não disse quem teria prioridade no voo, se não há assentos o suficiente para todos que querem deixar o país. 

Isso não ajudou muito pessoas como Jonny Dangerfield, 30, um americano que foi a Wuhan para celebrar o Ano Novo Lunar com sua esposa e filhos. 

Dangerfield, que trabalha com finanças em Phoenix, disse que esperava que sua família pudesse ser considerada como sob grande risco do vírus, já que seus filhos têm todos menos de cinco anos. Por hora, ele simplesmente não sabe.

"Só para nos mantermos sãos, acho, devemos ter baixas expectativas sobre conseguir entrar naquele avião", disse Dangerfield, em uma entrevista por telefone. 

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