Foto de caixão vazio não é atual nem foi tirada no Amazonas

Imagem foi publicada em reportagem sobre golpe de seguro de vida há três anos

São Paulo

Uma publicação que contém a foto de um caixão aberto com um travesseiro dentro tem sido compartilhada nas redes sociais denunciando que caixões vazios estão sendo enterrados no estado do Amazonas. A imagem, contudo, não foi feita no Amazonas e nem mesmo no contexto da pandemia do coronavírus. A foto foi tirada em 2017 pelo repórter fotográfico Milton Rogério, do portal São Carlos Agora, e publicada em uma reportagem sobre golpe de seguro de vida.

Como verificado pelo projeto Comprova, além da foto do caixão aberto, a publicação também mostra a imagem de um cemitério em Manaus, com uma fileira de caixões em uma vala, e afirma que a denúncia foi divulgada pelo Jornal da Band.

A prefeitura de Manaus garantiu que caixões não estão sendo enterrados vazios no município e que foi necessário abrir trincheiras em um dos cemitérios da cidade devido ao alto número de óbitos. A TV Band negou que tenha veiculado qualquer reportagem com o conteúdo da mensagem. ​

Para verificar a origem das fotos, o Comprova usou o Google Imagens para fazer uma pesquisa reversa e descobriu que a foto que mostra o travesseiro dentro de um caixão foi publicada em 2017, em uma reportagem do portal São Carlos Agora que denunciava um golpe de seguro de vida.

A matéria contava a fraude orquestrada por uma família de São Carlos, interior de São Paulo, que teria enterrado um caixão com apenas um saco de serragem dentro, para forjar uma morte e obter indenizações de seguradoras.

Com a viralização da mensagem, o portal São Carlos Agora publicou uma nota explicando a origem da foto e afirmou que ela está sendo usada para espalhar informações falsas.

O Comprova também entrou em contato com a rede Bandeirantes e com a prefeitura de Manaus, que administra o cemitério onde a segunda foto foi tirada.

Por mensagem, a Band Amazonas disse que “tem produzido matérias diariamente para o Jornal da Band falando da situação da saúde no estado do Amazonas, mas em nenhuma das reportagens relatou que caixões estavam sendo enterrados vazios”.

Já a prefeitura de Manaus afirmou, por e-mail, que “não estão sendo enterrados caixões vazios nos cemitérios públicos da cidade”. Segundo a prefeitura, o sistema de valas foi adotado em um dos cemitérios do município devido ao aumento do número de sepultamentos na capital. “O número de sepultamentos mais que triplicou nas últimas semanas, saindo de uma média diária de 30 sepultamentos antes da pandemia de Covid-19 e já ultrapassando os cem enterros por dia”, informou a prefeitura.

Com alto pico de casos de coronavírus e unidades de tratamento intenso apenas em Manaus, o Amazonas foi o primeiro estado brasileiro a ver o sistema de saúde entrar em colapso. Atualmente o Amazonas contabiliza 6.683 casos da Covid-19, de acordo com o Ministério da Saúde.

Em números absolutos, o estado ocupa o quinto lugar no ranking de mortes causadas pela Covid-19 no Brasil –eram 548 até a manhã desta segunda-feira (4). O estado tem a maior taxa de mortalidade da doença, de 132 por 1 milhão de habitantes. Muitos pacientes têm morrido em casa, a espera de leito.

Só em Manaus foram registradas 396 mortes, segundo o boletim divulgado pelo governo do estado. O alto número de mortes na capital levou a prefeitura de Manaus a abrir valas em um cemitério da cidade para sepultar os caixões. Em abril, o município registrou 2.435 sepultamentos, um aumento de 179,5% em relação ao mesmo período do ano passado.

A situação crítica do Amazonas tem preocupado o Ministério da Saúde, que enviou médicos, respiradores e equipamentos para o estado, além de abrir vagas para contratação temporária de profissionais de saúde. Neste domingo (3), o ministro da Saúde, Nelson Teich, desembarcou em Manaus com um reforço de profissionais para ajudar no combate do coronavírus.

Até esta segunda-feira (4), a publicação no Facebook tinha sido compartilhada por 12 mil pessoas, mas já havia sido sinalizada como falsa pelo Facebook em parceria com a Agência Lupa, que realizou a checagem do conteúdo. No Instagram, uma versão adaptada da mensagem tinha sido curtido por 2.223 seguidores do perfil ForaCorruptosOficial.

A verificação desse conteúdo também foi feita pela A Gazeta e publicada pelo projeto Comprova nesta segunda (4). Coalizão reúne 24 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus.

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