Mulheres resgatam bordado para protestar contra declarações de Trump e de Bolsonaro

Americana e brasileiras costuram frases polêmicas e divulgam trabalho nas redes sociais

São Paulo

“Eu sou um gênio muito estável”, tuitou Donald Trump em janeiro de 2018. A declaração do presidente dos Estados Unidos aconteceu em um momento em que a mídia e o Congresso questionavam se ele tinha equilíbrio mental para exercer seu cargo.

Atônita com a afirmação do presidente, a americana Diana Weymar decidiu tecer a frase por cima de um bordado da década de 1960 deixado por sua avó. Ela publicou o resultado em uma rede social e a resposta positiva dos seus seguidores foi imediata.

Assim nasceu o Tiny Pricks Project, um projeto de arte pública criado por Diana que reúne bordados feitos por ela e por colaboradores do mundo todo que registram em pedaços de pano frases polêmicas de Trump e de outros governantes e políticos.

As criações são publicadas no perfil do projeto no Instagram, com mais de 54 mil seguidores, e parte delas já foi exibida em uma exposição em Nova York.

A ideia é criar um registro material desse período da história americana e do movimento contrário às ações de Trump. Para Diana, a delicadeza e a integridade de cada bordado contrastam fortemente com a política atual.

“O processo de costurar as palavras é uma espécie de reparo emocional. É uma resposta criativa e pró-ativa a estímulos negativos”, diz.

Diana estudou inglês e escrita criativa na Universidade de Princeton, em Nova Jersey, e há sete anos começou a pesquisar sobre arteterapia. O seu trabalho com técnicas de costura teve início há cinco anos.

Para ela, transformar as declarações controversas de Trump em peças de bordado é uma forma de não deixá-las cair no esquecimento.

“Quando Trump faz um comentário racista, é muito importante para mim que ele não se safe. Em suma, é um material desafiador, mas o sentimento geral é de esperança —a esperança de que apresentar a evidência de seu verdadeiro caráter dessa maneira nos guiará a mudanças em novembro [quando devem ocorrer as próximas eleições presidenciais nos EUA]”, afirma.

Diana não é a única a resgatar a técnica do bordado como forma de protesto. No Brasil, Nina Rocha, de Belo Horizonte, e Rafaela Gizzi, de São Paulo, criaram, em abril, o perfil no Instagram Palavra do Presidente, em que publicam declarações de Jair Bolsonaro (sem partido).

Nina e Rafaela são formadas em jornalismo, mas já trabalhavam com bordado para ajudar a complementar a renda quando um amigo em comum deu a sugestão, pelo Twitter, de bordar as frases do presidente. Elas, que não se conheciam pessoalmente, começaram a se seguir nas redes sociais e decidiram levar a ideia adiante durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus.

“É pesado bordar algumas frases porque o bordado é um processo lento, minucioso e cuidadoso. A gente fica ali lendo e repetindo na mente a frase que está sendo bordada. É um misto de sentimentos e acho que bordar no tecido isso tudo é uma forma, inclusive, de processar na mente o absurdo que um presidente da República é capaz de falar. É usar da arte para processar a vida”, diz Rafaela.

“As frases grosseiras se apresentam ainda mais absurdas no bordado, que é algo delicado e bonito. O delicado expõe, escancara o tosco. A frase salta aos nossos olhos quando colocadas de forma manual. O artesanato é resistência, o artesanato é político. É uma forma bastante interessante de escancarar os absurdos de um presidente que não valoriza a vida, não valoriza a arte, o artista, o culto, o conhecimento”, afirma.

Nina conta que uma das suas inspirações para usar o bordado como protesto foram as arpilleras, uma técnica têxtil usada por mulheres chilenas para denunciar a violência e repressão durante a ditadura de Augusto Pinochet, de 1973 a 1990.

“Essas mulheres costuravam em panos rústicos cenas do cotidiano e passaram a revelar, com seu trabalho, o desaparecimento de seus filhos e maridos, por exemplo”, explica Esther Vital García, produtora cultural que participou da organização da exposição Arpilleras da Resistência Política Chilena, em 2011, no Memorial da Resistência de São Paulo.

Durante a apuração desta reportagem, Nina e Diana entraram em contato e decidiram fazer uma parceria. “Como o Palavra do Presidente também é um projeto colaborativo, que publica trabalhos feitos por outras bordadeiras, eu e a Rafaela vamos coletar os bordados de quem quiser participar e mandar para a Diana pelo Correio”, explica Nina.

O plano é reunir as peças de protesto e exibi-las na próxima exposição organizada por Diana, nos Estados Unidos, quando passar a pandemia.

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