Seleção feminina dos EUA processa federação por discriminação de gênero

Atletas afirmam receber menos do que jogadores da equipe masculina

Andrew Das
Nova York

​As 28 integrantes da seleção feminina dos Estados Unidos, campeã mundial de futebol, abriram um processo por discriminação de gênero contra US Soccer, a federação americana do esporte, nesta sexta-feira (8). O processo surge meses antes de a equipe iniciar a defesa de seu título na Copa do Mundo de futebol feminino.

O processo foi aberto no tribunal federal de primeira instância em Los Angeles, e as 28 jogadoras acusam a federação — sua empregadora, e responsável pela direção do futebol nos Estados Unidos — de "discriminação de gênero institucionalizada", afirmando que isso acontece há muitos anos.

As jogadoras afirmam que as questões afetam não só sua remuneração, mas os lugares e frequência de seus jogos, sua forma de treinar, os tratamentos médicos que recebem e até mesmo a maneira pela qual são transportadas aos jogos.

 
Crystal Dunn, Tobin Heath e Megan Rapinoe comemoram gol da seleção dos EUA
Crystal Dunn, Tobin Heath e Megan Rapinoe comemoram gol da seleção dos EUA - Frederick Breedon/Getty Images/AFP

Os argumentos do processo reproduzem muitas das reclamações que constam de uma queixa por discriminação salarial apresentada por cinco jogadoras da seleção americana à Comissão de Igualdade no Emprego, em 2016.

A falta de solução, ou mesmo de quaisquer ações perceptíveis, quanto à queixa apresentada três anos atrás levou as jogadoras a solicitar à comissão, em fevereiro, uma carta que as autoriza a abrir processo contra a federação; a autorização foi concedida, e a decisão de levar o caso à justiça federal se sobrepõe à queixa apresentada à comissão.

As jogadoras — um grupo que inclui estrelas como Carli Loyd, Megan Rapinoe e Alex Morgan, mas também algumas reservas — solicitaram que o processo seja classificado como ação coletiva. Elas querem que a ação represente qualquer jogadora que tenha defendido a seleção dos Estados Unidos de 4 de fevereiro de 2015 em diante — um grupo que poderia incluir dezenas de outras atletas. As atletas solicitam pagamento adicional retroativo, indenização e outras formas de ressarcimento; o valor total da causa pode chegar aos milhões de dólares.

A US Soccer, que ainda não recebeu a queixa, não respondeu de imediato a um pedido de comentário.
A ação das jogadoras é o mais recente confronto em uma disputa por igualdade de pagamento e de tratamento que já dura anos; as jogadoras da seleção feminina vinham reclamando há muito tempo — primeiro em foro privado e, nos últimos anos, de modo cada vez mais público —sobre sua remuneração, o apoio que recebem e as condições de trabalho que encontram quando estão representando a US Soccer. 


As jogadoras argumentam que têm de jogar mais partidas que a seleção masculinas, vencem maior número delas, e ainda assim recebem pagamento menor da federação.

As jogadoras de futebol da seleção americana que abriram o processo estão entre as atletas mais famosas do mundo, e sua importância no esporte e disposição de aproveitar o seu prestígio e seu grande número de seguidores na mídia social para defender sua causa já vem mostrando resultados: a seleção não joga partidas em grama artificial, um piso de que muitas jogadoras não gostam, desde 2017, por exemplo, e o sindicato das atletas realiza reuniões quinzenais com a US Soccer para que a equipe seja informada sobre todos os assuntos, dos próximos adversários a períodos de treinamento e planos de viagem e hospedagem.

No entanto, comparações diretas entre a remuneração dos homens e das mulheres no futebol podem ser complicadas. Cada seleção tem um contrato coletivo de trabalho específico com a US Soccer, e uma das principais diferenças entre os contratos é a estrutura de pagamento: os homens recebem bonificações maiores quando jogam pela seleção americana, mas só são pagos quando são convocados para jogos, enquanto as mulheres recebem salários garantidos suplementados por bonificações menores por partida.

Uma das maiores diferenças de pagamento está nas bonificações multimilionárias que as seleções recebem por participar da Copa do Mundo. Essas bonificações — US$ 400 milhões (R$ 1,5 bilhão) para as 32 seleções da Copa do Mundo masculina e US$ 30 milhões (R$ 116 milhões) para as 24 seleções da Copa do Mundo feminina — são determinadas pela Fifa, a organização que comanda o futebol mundial, e não pela US Soccer.

Mas as mulheres da seleção americana realizaram avanços importantes nas negociações nos últimos anos. Em 2017, depois de mais de um ano de negociações e de um processo da US Soccer para impedir uma greve das jogadoras antes da Olimpíada do Rio, a seleção fechou um novo contrato coletivo de trabalho com a federação.

As jogadoras optaram por ceder em sua busca de igualdade absoluta de pagamento, mas em troca de um acordo que incluía não só salários mais altos como um esquema de compartilhamento de receita que agora permite que as atletas busquem oportunidades comerciais por meio de seu sindicato.

O esforço delas é parte de uma luta mais ampla pela igualdade das mulheres no esporte, discussão na qual as futebolistas dos Estados Unidos emergiram como líderes. Elas também servem como apoio às atletas de outras modalidades e de outros países que buscam avanços semelhantes. 

Jogadoras de outras federações de futebol e até mesmo de ligas como a WNBA buscam regularmente conselhos das jogadoras da seleção americana de futebol, como aconteceu com a seleção feminina de hóquei no gelo dos Estados Unidos, que conquistou medalha de ouro na olimpíada de inverno de 2018 mas antes disso se envolveu em uma disputa com a federação da modalidade.

A US Soccer foi líder por décadas no apoio ao futebol feminino; o tempo e os recursos que a federação investiu fizeram dos Estados Unidos, que venceram três Copas do Mundo e conquistaram quatro medalhas de ouro olímpicas na modalidade, a potência dominante do futebol feminino. Mas ao longo do mesmo período, gerações de atletas da seleção feminina se queixaram de que o apoio financeiro e a estrutura logística que a equipe recebe da federação são inferiores aos da seleção masculina, que tem maior destaque.

Essas queixas estão sempre presentes; irritada com a baixa remuneração, uma geração anterior de estrelas americanas do futebol boicotou um torneio na Austrália em janeiro 2000, apenas meses depois de uma vitória na Copa do Mundo que havia feito das jogadoras as queridinhas do esporte americano. Mas nos últimos anos elas vêm se expressando de forma mais aberta; a seleção feminina, cada vez mais ousada e ativista, encarou a US Soccer e a Fifa em uma sucessão de disputas sobre todo tipo de assunto, dos gramados artificiais a bonificações por participação em copas do mundo, passando pela qualidade da arbitragem.

No entanto, as melhoras obtidas não resolveram as questões de igualdade de gêneros de modo satisfatório para as mulheres do futebol dos Estados Unidos. Assim, dada a falta de resultados da queixa à Comissão de Igualdade do Emprego e diante de um contrato coletivo de trabalho que vigora até 2021, as jogadoras decidiram tentar a sorte na Justiça federal.
 
Tradução de Paulo Migliacci

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