Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

CBF pressiona clubes por mudança em contrato de TV após concorrência

Sport Promotion quer incluir em acordo cessão de imagens para sites de apostas

Diego Garcia Carlos Petrocilo
Rio de Janeiro e São Paulo

A dois dias do início do Campeonato Brasileiro, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) está pressionando os clubes da Série A a aceitar a ampliação do escopo do contrato de venda dos direitos internacionais de transmissão do torneio para a empresa Sport Promotion, vencedora de concorrência organizada pela entidade.

Dirigentes de ao menos 6 dos 20 clubes que disputam a competição se mostraram contrariados com as atitudes da confederação e da empresa, que quer incluir a cessão da transmissão de partidas do campeonato para sites de apostas.

Uma comissão formada por oito times recebeu a oferta da Sport Promotion em reunião na CBF na segunda (22).

“Na terça-feira nós recebemos o documento para assinar até quarta, e acrescentavam mais alguma coisa de apostas, [que estavam] fora do escopo original. Hoje não vamos assinar. Outros clubes também decidiram isso”, afirmou Francisco Battistotti, presidente do Avaí.

Como argumento para rejeitar a alteração, o dirigente usa a mesma justificativa para a eliminação da proposta da empresa Prudent na última fase da concorrência, por ampliar o escopo original do contrato. A concorrente queria incluir a exploração da imagem dos clubes em jogos virtuais.

O fundo com sedes nos Estados Unidos e em Luxemburgo havia oferecido R$ 230 milhões por ano, com 10 anos de contrato, totalizando R$ 2,3 bilhões, com luvas de R$ 800 milhões imediatos às equipes.

A proposta era bem maior do que a feita pela Sport Promotion, de R$ 160 milhões por ano, com cinco anos de contrato.

“Cancelaram a [proposta da] Prudent porque ela pretendia acrescentar games. A briga do pessoal da auditoria [Ernst & Young] que fazia a análise da documentação era que não podia mexer no escopo. A posição do Avaí é que ‘pau que bate em Chico bate em Francisco’”, afirmou Battistotti.

Até a última semana, todos os clubes estavam dispostos a assinar o contrato de venda dos direitos internacionais. No entanto, depois de a CBF enviar comunicado sobre a inclusão de sites de apostas, alguns recuaram. Quatro dirigentes confirmaram à reportagem terem ficado insatisfeitos com a alteração no escopo.

“Tivemos uma comissão de clubes lá atrás e dissemos que não poderíamos alterar o escopo original. Como querem mudar agora? É contra o que foi definido. Votamos contra. A licitação era para ter transparência”, disse Wagner Pires de Sá, presidente do Cruzeiro.

Ele sugere inclusive adiar a assinatura do contrato para o segundo semestre, com reajuste no valor do acordo. “Estou convocando [outros clubes] para não assinarmos, está em cima do início do campeonato.”

Há clubes, por outro lado, que aceitaram a mudança. “A Chapecoense vai assinar o acordo, mesmo com a mudança do escopo, porque não tempo hábil para mudança. Eu recebi uma consulta da CBF, foi um pedido para que informássemos nossa posição sem qualquer imposição. Acontece que a maioria dos clubes já contam com esse recurso”, disse o presidente do clube, Plinio David de Nes Filho.

Outros preferiram resolver a questão entre si. “O Corinthians vai decidir internamente”, afirmou o presidente Andrés Sanchez.

Para o advogado Bruno Fagali, especialista em direito público e compliance, ainda que a inclusão dos sites de apostas venha acompanhada de um acréscimo financeiro aos clubes, a isonomia e a integridade da disputa terão sido violadas. "Isso porque outras empresas que participaram da disputa, se soubessem, poderiam ter realizado ofertas ainda melhores que a da Sport Promotion", afirmou.

Os clubes da Série A também têm mostrado resistência em assinar outro contrato vencido pela Sport Promotion em concorrência organizada pela CBF, referente à exploração de placas de publicidade estática no Brasileiro.

Palmeiras e Athletico-PR já disseram que não aceitarão o acordo. O time paulista deve realizar um serviço próprio na exploração de publicidade estática no Allianz Parque, mas não quis confirmar ou comentar o assunto. Os paranaenses ainda não definiram o que farão, mas se recusam a ganhar menos que outras equipes.

“Há uma diferença muito grande entre os valores que Corinthians e Flamengo vão receber em relação aos demais clubes. O Flamengo não tem nem estádio. Precisamos acabar com isso, no Brasil tudo é Flamengo e Corinthians”, disse Mario Celso Petraglia, presidente do Conselho Deliberativo do Athletico-PR.

Corinthians e Flamengo acertaram com a Sport Promotion a exploração das placas por R$ 12 milhões anuais cada um. O contrato oferecido aos demais 18 clubes é de cerca de R$ 55 milhões por temporada, o que resultaria em cerca de R$ 3 milhões para cada um —um quarto do valor que os dois times de maior torcida do país receberiam.

Outro que deve se recusar a assinar o acordo é o Cruzeiro. Segundo seu presidente, o clube já recebe mais do que o oferecido em outros contratos.

“Ou negociamos à parte ou fazemos nós mesmos. Só com nossos patrocinadores já teríamos oito contratos garantidos, e por um valor maior”, disse Wagner Pires de Sá.

O acordo da Sport Promotion com Corinthians e Flamengo foi assinado em agosto do ano passado. Na ocasião, eles não quiseram participar do acerto com a BR Foot Mídia, empresa vencedora da primeira concorrência organizada pela CBF. O processo foi cancelado pela confederação após a empresa não pagar os valores prometidos.

Em uma segunda concorrência, a Sport Promotion saiu vencedora. O resultado foi antecipado pela Folha com mais de um mês de antecedência, o que levantou suspeitas sobre o processo.

A Sport Promotion possui longo histórico de proximidade com Marco Polo Del Nero, ex-presidente da CBF banido do futebol pela Fifa no ano passado por corrupção.

A empresa faturou cerca de R$ 75 milhões em negócios com o governo federal que envolveram a CBF desde 2012. O ano marca a chegada de Del Nero à confederação, primeiro como vice-presidente de José Maria Marin, preso nos EUA, e depois, de 2015 a 2017, como mandatário da entidade.

O primeiro negócio foi a exploração da publicidade estática da Série B do Brasileiro, por indicação do próprio Del Nero, que tinha relações com a empresa na Federação Paulista de Futebol, entidade que comandou.

Quando Del Nero estava na CBF, o grupo dos empresários José Francisco Coelho Leal e João José Bastos (sócio minoritário na Sport Promotion) também fechou acordos com o governo federal, que incluíam o licenciamento nacional para TV aberta e até internacional em caráter de exclusividade dos campeonatos brasileiros das séries B, C e D, e feminino.

Em nota, a Sport Promotion disse que a relação com a CBF é “a que se espera entre uma empresa dedicada ao marketing esportivo com a maior entidade do futebol brasileiro”. A empresa também afirmou que sua relação com Del Nero sempre foi profissional.

“Na época em que [Del Nero] presidia a FPF nunca adquirimos direito algum dos eventos da entidade. Apenas atendemos uma solicitação da FPF para que organizássemos uma competição amadora.”

A CBF foi procurada para falar sobre a mudança no escopo, mas não se manifestou. Quem está à frente das negociações é a Ernst & Young, contratada pela entidade para fazer a auditoria da concorrência. A empresa também não comentou, assim como a Sport Promotion.

Em nota que chegou aos presidentes de clubes sobre o tema, de acordo com eles enviada pela CBF, e à qual a Folha teve acesso, a entidade diz que a auditoria se mostrou contra a mudança e deixou a decisão a critério das equipes.

“A EY se posicionou demonstrando que o referido direito estava claramente excluído tanto do edital quanto da minuta contratual e que na visão de conformidade o processo estava prejudicado considerando principalmente a falta de isonomia frente ao concorrente que participou do processo. Foi colocado também pela EY que qualquer alteração deveria ter a aprovação formal de todos os clubes envolvidos”, disse a mensagem.

Na mesma nota, a CBF pede por uma reunião com todos os clubes para discutir o assunto.

"A realização da plenária é mandatória, considerando que foi decisão do mesmo colegiado a manutenção do escopo do edital. Adicionalmente, é de suma importância o registro e formalização da decisão dos clubes, detentores dos direitos, para a manutenção da integridade do processo. A CBF irá convocar os clubes para a realização da plenária na próxima semana, provavelmente na terça feira (30)."

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.