Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Atacante que liderou greve tenta levar Argentina às oitavas

Jogo contra Escócia pela Copa do Mundo acontece às 16h desta quarta-feira (19)

Santos

Florencia Soledad Jaimes, 30, nunca digeriu bem a ideia de conformismo. Em Nagoyá, pequena cidade da província argentina de Entre Ríos, lutava quando criança para convencer os irmãos a deixarem que ela jogasse futebol com seus amigos no parque.

“Era muito difícil no começo, brigávamos muito. Eles não me queriam por perto e ninguém me escolhia”, contou.

“Virei a primeira escolha e eles passaram a ser as últimas. Eram muito provocados”.

Sole Jaimes incentiva companheiras durante partida contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 2019
Sole Jaimes incentiva companheiras durante partida contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 2019 - Kenzo TRIBOUILLARD-10.jun.19AFP

Anos depois, a luta era outra: viver do sonho de jogar futebol. A menina outrora rejeitada nas ruas de Nagoyá já havia chegado ao poderoso Boca Juniors, mas com o dinheiro que recebia do clube mal conseguia comprar as próprias chuteiras e se alimentar.

Agora conhecida como Sole Jaimes, ela morava de favor na casa do irmão mais velho, só por parte de pai, no subúrbio de Buenos Aires. Para treinar, precisava pegar diariamente trem, metrô e ônibus.

“Ganhava só para viver mesmo e, às vezes, nem recebia. Era só comer e viver, sem perspectiva. Doía muito isso, algo precisava mudar”, afirmou.

Lutou, desta vez, para vencer a resistência de dirigentes do Boca para deixar o país e tentar a vida no Brasil.

“Me chocou ter que sair do país, ter que morar em outro lugar. Recebi muitas críticas, mas as pessoas não sabiam como eu vivia”, disse.

Sole chegou ao país para jogar pelo Foz Cataratas. Passou, ainda, pelo São Paulo até encontrar o Santos, onde construiu credenciais de respeito. Em 2017, recebeu o prêmio Bola de Prata pela artilharia na campanha vitoriosa do clube no Campeonato Brasileiro. Foram 18 gols em 19 partidas pela competição.

Foi para o Tianjin Quanjian (CHN), até chegar, no início deste ano, ao francês Lyon, principal potência da modalidade, que em maio conquistou a Champions League pelo quarto ano consecutivo (sexto título no total).

 

A luta, agora, é outra. No Mundial da França, Sole busca um inédito reconhecimento próprio e para a Argentina. “Sinceramente? Ninguém me conhece na Argentina”, disse.

Ela é uma referência na luta por direitos das jogadoras no seu país. No ano passado, na disputa da Copa América, vencida pelo Brasil, liderou uma greve por melhores condições de treinamento para a seleção feminina.

“Estávamos passando dificuldades. Algumas jogadoras sem receber e ainda usávamos roupas de homem, com cheiro ruim. Eram anos assim já, precisávamos mudar. Nos unimos e houve a mudança. Isso pode parecer pouco para um país como o Brasil, mas a Argentina hoje não tem nada.” 

 

A seleção feminina argentina recuperou o orgulho próprio. Voltou a uma Copa do Mundo após 12 anos de ausência. A última participação havia acontecido em 2007, quando caiu ainda na fase de grupos no Mundial da China.

Em campo, a luta de Sole é por uma classificação histórica. Fora dele, quer diminuir abismos em questões salariais e, também, na relação entre jogadoras e jogadores.

“É difícil para mim, pois no Lyon falo muito com os brasileiros Marcelo e Rafael. No Santos, tínhamos contato constante e ajuda de Ricardo Oliveira, Gabriel Barbosa e todos os jogadores. O Gabriel me chamava de chilena, de colombiana, menos de argentina. Na Argentina isso não existe. Passei anos para conseguir uma foto com Messi, fui barrada diversas vezes. Isso precisa mudar”, afirmou.

Na melhor fase da carreira, as lutas de Sole continuam. Ela segue ainda mais disposta a vencê-las. “Quero ajudar as próximas gerações da Argentina, preciso deixar algo.”

Com Copa do Mundo, futebol vira pauta feminista na Argentina.

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