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Massa afirma não sentir falta da F1 e minimiza privilégios de Schumacher

Na Stock Car aos 40, piloto brasileiro valoriza fato de competir pela categoria

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São Paulo

Em 2006, momentos após vencer o GP Brasil, Felipe Massa deu um forte abraço em Michael Schumacher, que, naquele domingo, 22 de outubro, despedia-se da Ferrari. Sorridente, o brasileiro ainda apontou para o alemão e ergueu o dedo indicador, sinalizando que o então companheiro era o número um das pistas.

Nos bastidores também era assim. Massa, hoje com 40 anos, e Schumacher, com 52, correram juntos no time italiano apenas naquele ano, mas foi tempo suficiente para ficarem claros os privilégios dos quais o alemão desfrutava na escuderia, algo que o brasileiro via com naturalidade.

"Um piloto como ele, com tudo o que ele fez pela Ferrari, com os títulos que ele ganhou, era impossível não ser privilegiado na equipe", disse Massa, à Folha. "E isso não é uma crítica, não é um problema."

O ex-piloto da Ferrari lembra que as vantagens do heptacampeão incluíam escolher quem faria primeiro a parada nos boxes durante a corrida e ficar com peças para o carro em melhores condições para as provas.

"Quando você passa os motores pelo dinamômetro [aparelho que mede a potência do motor] e tem uma diferença de meio cavalo de um motor para o outro, esse meio cavalo, logicamente, vai para o piloto que tem, teoricamente, mais chances de vencer", exemplifica.

Ao longo dos anos, a Ferrari pouco se preocupou em esconder as vantagens que dava a Schumacher. Isso já era evidente desde 2002, quando a equipe deu uma ordem para Rubens Barrichello ceder a vitória para o alemão no GP da Áustria. O brasileiro acatou, mas o fez em cima da linha de chegada.

Para Massa, ainda que esse tipo de jogo de equipe, mais explícito, não tenha mais ocorrido na F1, grandes campeões sempre serão privilegiados. "Será que o Hamilton não tem privilégios hoje? A equipe pode dizer que não, mas o que o Hamilton pedir, o que Hamilton falar, eles vão fazer", afirma, citando o heptacampeão britânico.

Longe da F1 desde 2017, quando se aposentou da categoria, o brasileiro disputa neste ano a Stock Car pela primeira vez de forma regular. Em quatro corridas, ainda não subiu ao pódio, mas se diz feliz por continuar a competir.

Como avalia seu início de temporada na Stock Car? Logicamente, quando você tem um resultado ruim, não tem como ficar feliz. Muitas coisas aconteceram, tive uma quebra na primeira corrida, e isso me fez largar em último na segunda. Mas a gente não pode esquecer que não deixa de ser um aprendizado. Leva um tempo para aprender um campeonato completamente diferente do que eu estava acostumado.

A última etapa foi disputada em Interlagos, onde você teve duas vitórias na F1. Como foi voltar à pista? É uma pista especial para mim, de muitas histórias e emoções, como minha primeira vitória em 2006, as três poles, além de eu ser o brasileiro que mais vezes subiu ao pódio em Interlagos. Então, voltar a essa pista, mesmo com carro diferente, é muito bom.

Em Interlagos, apesar de você ter vencido o GP de 2008 de F1, o título escapou na última volta, por um ponto. Ainda fica frustrado com isso? De jeito nenhum. Eu venci a corrida. Para mim, a vitória era o que mais me interessava. O meu trabalho eu fiz. Se aconteceu de eu não chegar aos pontos [para o título], não foi por culpa minha. Então, eu sou um cara muito feliz pela luta que tive em 2008. Para mim, a frustração maior que eu tenho na minha vida como piloto é a corrida de Singapura, por tudo aquilo que aconteceu, que não é esporte. Foi uma malandragem, uma sacanagem. Isso, sim, me tirou o título.

(Nota da Redação: No GP de Singapura de 2008, Massa liderava quando o brasileiro Nelsinho Piquet bateu propositalmente sua Renault no muro para forçar a entrada do "safety car", o que poderia beneficiar Fernando Alonso, seu companheiro de equipe. O espanhol seguiu na pista, enquanto Massa resolveu ir para os boxes. Lá, ele acabou prejudicado por um erro da Ferrari e terminou a prova em 13º. O espanhol triunfou. Se tivesse vencido, Felipe teria assumido a liderança do Mundial, que terminou com vantagem de um ponto de Hamilton sobre ele: 98 a 97.)

Você conversou com o Nelsinho sobre isso? Eu perguntei para ele antes de ele falar [publicamente, admitindo a ação intencional], e ele falou. Mas, para falar a verdade, o que aconteceu, aconteceu. O que adianta ir conversar com a pessoa? Eu tenho apenas tristeza por aquilo que aconteceu.

Recentemente, Rob Smedley, que foi seu engenheiro na Ferrari, disse que, durante seu período na equipe, um erro que você teria cometido foi querer se igualar ao Michael Schumacher. Como vê essa crítica? Não vejo como uma crítica. Entrar num carro querendo ser mais lento do que o outro, seja o Schumacher ou o Senna, já é entrar sem a motivação de fazer o melhor. Nunca fui contra o Schumacher, nunca achei que eu fosse melhor do que ele, mas eu sempre tentei chegar o mais próximo possível e ser mais rápido. Eu sempre fui um cara o mais humilde possível e sempre respeitei as pessoas da melhor forma.

Como era seu relacionamento com o Schumacher? Muito bom. Ele era um professor para mim. É um cara que eu sempre respeitei demais. Tive sorte de correr e aprender com ele. Nosso relacionamento era muito bom na equipe.

O Schumacher tinha privilégios na equipe? Um piloto como ele, com tudo o que ele fez pela Ferrari, com os títulos que ele ganhou, era impossível não ser privilegiado na equipe. Impossível. E isso não é uma crítica, não é um problema. Ele tinha a equipe para ele por tudo aquilo que conquistou. Será que o Hamilton não tem privilégios hoje? A equipe pode dizer que não, mas o que o Hamilton pedir, o que Hamilton falar, eles vão fazer. Então, no final, o piloto merece por aquilo que faz.

Na prática, que privilégios eram esses? Isso pode ser em vários sentidos. Na estratégia de uma corrida. Pode ser na montagem de um carro. Quando você passa os motores pelo dinamômetro e tem uma diferença de meio cavalo de um motor para o outro, esse meio cavalo logicamente vai para quem tem, teoricamente, mais chances de vencer. Na estratégia de prova, ele escolhe quem vai ser o primeiro a parar. Enfim, são coisas que fazem parte.

Felipe Massa (de macacão verde) abraça Michael Schumacher após o GP Brasil de 2006
Felipe Massa (de macacão verde) abraça Michael Schumacher após o GP Brasil de 2006 - 22.out.06/Folhapress

Recentemente, em entrevista à ESPN, você disse que o Fernando Alonso dividia a equipe Ferrari na época em que vocês correram juntos. Por quê? O Alonso é um piloto extremamente talentoso, que, sem dúvida, foi o companheiro com que eu tive mais dificuldade. Não só pelo talento dele mas pelo tipo de piloto que ele é. O trabalho com ele era bacana, ele respeitava o que você falava, mas, na hora em que ele fechava a viseira, não respeitava muito e pensava só no melhor para ele. Isso acabou dividindo um pouco a equipe.

O Alonso voltou neste ano à F1, aos 39 anos. Você está com 40. Ainda pensa em voltar? Não tenho vontade de voltar, não. Eu tive o meu tempo na F1, fui muito feliz com aquilo que eu conquistei. Corri 16 anos na F1, mas acho que a gente tem de ter o pé no chão. Passou, eu tenho 40 anos, não acho o certo voltar. Se você me perguntar se eu sinto falta da F1, vou dizer que não. Eu sinto falta da competição, que é o que eu estou fazendo hoje, na Stock Car.

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