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'Cidadão Kane' mostra manipulação da realidade análoga à dos dias atuais, diz Marina Person

Exibição de clássico de Orson Welles e debate abrem Mostra de Cinema Folha 100

São Paulo

​Candidato a governador do estado de Nova York, o magnata da imprensa Charles Foster Kane manda preparar duas capas para o seu principal jornal na noite em que espera ser eleito. Uma delas anuncia sua vitória e a outra –no caso de derrota –afirma em letras garrafais que a eleição foi fraudada.

​Na manhã seguinte, a falsa acusação está à venda em todas as bancas.

Para a cineasta e apresentadora Marina Person, são cenas como essa que confirmam a atualidade de “Cidadão Kane” quase 80 anos após o seu lançamento. “Cada vez que revejo, consigo relacionar com algo diferente. Está impecavelmente atual”, disse sobre o filme de 1941.

As tentativas de Kane de manipular a realidade a partir de seu império midiático remeteram Person às lideranças políticas autoritárias que usam o Twitter como uma espécie de “jornalismo controlado”.

 

“Esses líderes não têm nenhum compromisso com os fatos e se veem com total autonomia para falar o que quiser e negar realidades evidentes. Fazem isso com tamanha cara de pau que as pessoas acabam acreditando”, disse a diretora.

“Cidadão Kane” abriu nesta terça-feira (18) a Mostra de Cinema Folha 100, realizada pelo jornal em parceria com o Espaço Itaú. O público lotou a principal sala do cinema da rua Augusta, em São Paulo.
 

A exibição foi seguida de um debate com a atriz Bete Coelho, o crítico de cinema da Folha Inácio Araújo e Marina Person. A mediação foi de Sandro Macedo, editor do Guia Folha.

A mostra marca o início das celebrações do centenário do jornal, fundado em 19 de fevereiro de 1921. Ao longo do ano, sempre no Espaço Itaú, serão apresentados alguns dos mais importantes filmes sobre jornalismo da história do cinema.

Dirigido por Orson Welles, “Cidadão Kane” reconstrói a vida de seu protagonista (interpretado pelo próprio Welles) a partir de um enigma. A última palavra dita por Kane é “rosebud”, e o repórter Jerry Thompson (William Alland) é escalado para descobrir o que ela significa. 

“Sequência por sequência, é um filme absolutamente único”, afirmou Araújo. “Welles era um ilusionista fabuloso e via o cinema como uma espécie de ilusionismo.” O diretor, ele lembrou, tinha experiência como mágico e explorava com frequência a relação entre verdade e mentira em seu trabalho.

Araújo relacionou a inversão cronológica apresentada no filme a outras inovações introduzidas por Welles no cinema americano, como o uso abundante de planos-sequência. “Seu olhar ora está em um personagem, ora em outro, ora no fundo. O olhar passeia pela cena, não é obrigado a ver uma coisa só. Isso é uma novidade absoluta para o espectador, que se consolida depois”, disse o crítico.

Ele também comentou a tecnologia utilizada para produzir o filme na época. Como as câmeras de então tinham uma “acessibilidade miserável” (ou seja, absorviam pouca luz), era necessário exagerar na iluminação do set para conseguir transmitir profundidade à câmera.

Nesse momento, o crítico da Folha se lembrou de uma história contada pelo amigo Carlos Reichenbach, cineasta que morreu em 2012. Segundo Reichenbach, a iluminação intensa produzia tanto calor que a equipe do filme precisava trocar as estátuas colecionadas por Kane entre um take e outro porque elas começavam a derreter.

Com 26 anos à época em que o filme foi lançado, Welles existia em uma contradição dentro de Hollywood. Por um lado, foi dada a ele liberdade desproporcional para escrever, dirigir e montar o longa, uma raridade no sistema de estúdios então em vigor. Por outro, nunca ganhou um Oscar e “Kane”, seu filme de estreia, foi um fracasso comercial em um primeiro momento.

Segundo Marina Person, Welles também ia na contramão da indústria ao estruturar seus roteiros a partir dos diálogos dos personagens, e não das ações —uma influência vinda do teatro.

Bete Coelho também ressaltou esse aspecto do clássico. “É absolutamente teatral”, afirmou. Assim como Kane, disse a atriz, Welles inventou sua própria narrativa. “É um grande ator, uma pessoa do teatro, um geniozinho.”

Ela lembrou que “Cidadão Kane” estava na lista dos filmes prediletos de Otavio Frias Filho, ex-diretor de Redação da Folha, de quem era amiga. A atriz chegou a interpretar o jornalista, morto em 2018, na peça “O Terceiro Sinal”.

Durante o debate, a atriz leu trecho do livro “Sobre a Liberdade”, do filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873), em que o autor fala do compromisso com a verdade como preceito moral.

“O mal especial em silenciar a expressão de uma opinião é que constitui um roubo à raça humana, à posteridade, assim como à geração existente, àqueles que discordam da opinião, mais ainda do que àqueles que a apoiam”, escreveu Mill.

Bete Coelho continuou a leitura: “Se a opinião estiver correta, são privados da oportunidade de trocar o erro pela verdade; se estiver errada, perdem, o que é um benefício quase tão grande, a percepção mais clara e a impressão mais viva da verdade, produzida por sua colisão com o erro”.

Para a atriz, “Cidadão Kane” confirma “que a grandeza humana não morre. Precisamos de pessoas como Orson Welles e Otavio”, disse. “Mais do que um clássico, é uma obrigação.”

Ao final do debate, os espectadores receberam um pôster do filme com ilustração de Adams Carvalho.

A mostra vai apresentar um filme por mês. Prevista para 17 de março, a próxima produção será "A Montanha dos Sete Abutres" (1952), que conta a história de um repórter inescrupuloso. Dirigido por Billy Wilder, o filme tem no papel principal Kirk Douglas, que morreu no último dia 5, aos 103 anos. 

 
Cartaz de cinema do filme Cidadão Kane. No cartaz, Orson Welles (senhor de meia idade com calça preta cintura alta, camisa branca para dentro da calça e sapatos pretos), atrás um trenó de neve amarelo e escrito Cidadão Kane na altura da cabeça
Cartaz do filme "Cidadão Kane", que abriu a Mostra de Cinema Folha 100. Ilustrado por Adams Carvalho - Adams Carvalho
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