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Correspondentes internacionais traduzem o mundo ao leitor da Folha

Jornal já passou pelos seis continentes, cobrindo desde grandes conflitos até histórias cotidianas

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São Paulo

O jornalista Clóvis Rossi (1943-2019) acreditava que a melhor função do jornalismo é a de correspondente internacional, pois são repórteres que podem “olhar o bosque inteiro, e não apenas as árvores”.

Esse olhar para cenários mais gerais e complexos ajuda a estabelecer pontes entre diferentes países e a traduzir não só os últimos acontecimentos, mas também culturas e formas de estar no mundo.

mulher branca posa para foto ao lado de jovens e crianças de serra leoa em estrada de terra
A enviada especial Patrícia Campos Mello em estrada para a cidade Kailahun durante cobertura da epidemia do ebola em Serra Leoa - Avener Prado

Nesse papel, os jornalistas “ajudam a formar a consciência do mundo nas pessoas”, conforme relata Carlos Eduardo Lins da Silva, correspondente da Folha em Washington ao longo da década de 1990. Para ele, o jornal tem feito, ao longo da sua história, uma cobertura internacional que se distingue “pela audácia de colocar correspondentes em lugares não tão óbvios”.

Foi nas décadas de 1970 e 1980 que a Folha consolidou essa tradição no jornalismo internacional, com correspondentes como Paulo Francis (em Nova York), João Batista Natali (Paris), Gerardo Melo Mourão (Pequim), Osvaldo Peralva (Tóquio) e Isaac Akcelrud (Jerusalém).

Em 1988, afirma Jaime Spitzcovsky, ex-editor de Mundo, o jornal inovou ao mandar um correspondente para Moscou, onde estavam baseados poucos jornalistas brasileiros. José Arbex Jr. foi, assim, o primeiro correspondente da Folha na Rússia, acompanhando o processo de abertura da União Soviética. Em 1990, os jornalistas fizeram uma “troca de guarda’’, como chama Spitzcovsky: “Eu fui ser correspondente em Moscou, e Arbex voltou para ser editor”.

Quando chegou a Moscou, aos 25 anos de idade, Spitzcovsky se viu diante da experiência única de “cobrir o que era o principal evento histórico em escala global naquele momento”, a derrocada da URSS.

“Eu cheguei num país chamado União Soviética, governado por um sujeito chamado Mikhail Gorbatchov. Fui embora quatro anos depois de um país chamado Rússia, governado por Boris Iéltsin”, o que sintetiza o desafio jornalístico do repórter no que chama de seu “período Moscou”.

Como correspondente, é preciso construir para os leitores brasileiros “a imagem de um país”. No caso, a Rússia, que atravessava um momento de “abertura e descoberta” de si própria, para além da cortina de ferro.

Apesar da importância de manter correspondentes em lugares “não óbvios”, é igualmente crucial investir na cobertura de países que têm maior evidência, como os Estados Unidos.

“Qual história você quer contar para além desse dia a dia soterrado de notícias?” é a pergunta que a correspondente da Folha em Washington há dois anos, Marina Dias, um dia fez a si mesma. Sua resposta foi a série Os Americanos, de 2019, idealizada com a equipe de Mundo.

Na companhia do repórter fotográfico Lalo de Almeida, Marina viajou de carro pelos quatro estados que compõem o chamado Cinturão da Ferrugem, reduto eleitoral de Donald Trump no país. O objetivo era preparar o terreno para a cobertura das eleições presidenciais seguintes, conversando com o máximo de pessoas possível para mostrar ao leitor brasileiro a pluralidade dos rincões americanos.

“Nós tratamos a política dos EUA muitas vezes pelos extremos. Eu queria olhar o meio, o americano comum”, diz, em um esforço para evidenciar as complexidades –e desigualdades– da sociedade americana.

Essas características ficaram ainda mais evidentes em 2020, quando eclodiram no país os protestos do Black Lives Matter. Durante a cobertura, ela conta que evitou estabelecer falsas equivalências com o racismo no Brasil e que procurou ouvir historiadores e cientistas políticos ligados em especial à universidade Howard, historicamente conectada ao movimento negro. “Eu quis usar meu privilégio para fazer justiça, o que no meu caso significa fazer bom jornalismo.”

Os correspondentes se diferenciam dos enviados especiais pela permanência. Enquanto os primeiros residem em outro país, às vezes por anos, os enviados viajam ao exterior com o objetivo de cobrir um evento específico —conflitos armados, Olimpíadas ou um tsunami, por exemplo— e têm data para voltar.

É o caso de Patrícia Campos Mello, que viajou a Serra Leoa como enviada especial para reportar a epidemia do ebola. “O principal motivo que me fez querer ir foi o desespero”, diz. Ela não queria que a crise sanitária do país africano se reduzisse a um conjunto de estatísticas no noticiário. Queria contar as histórias dos médicos, das vítimas e, para além disso, o cotidiano da população –tarefa que não foi simples.

“Em toda cobertura internacional é preciso ter plano A, B e C, porque tudo é perrengue”, explica a jornalista, que também cobriu a guerra civil da Síria. “Mas, em Serra Leoa, tudo o que podia dar errado, dava errado. Até o que já estava certo, dava errado.”

Exemplo é sua viagem por uma estrada de terra rumo à cidade de Kailahun. Seu carro, que ela define como “um 4x4 tabajara”, atolou ao lado de um caminhão da ONU, que poderia guinchá-los. Mas o caminhão da ONU também atolou. Tudo poderia se resolver quando passou um caminhão do WFP (World Food Programme, ligado à ONU), que também atolou.

“Perrengue” é também a palavra que Sylvia Colombo, que se dedica à cobertura da América Latina desde 2011, usa para descrever seu dia a dia, embora seus perrengues sejam outros, como escrever matérias com os olhos ardidos de gás lacrimogêneo após os protestos de rua que presenciou no Equador, em 2019.

Baseada na Argentina desde 2011, Sylvia é responsável por cobrir de Ushuaia, no sul da América Latina, a Havana, capital de Cuba. Em suas matérias, costurando diferentes realidades latinas, a correspondente procura mostrar as especificidades de cada país, ciente de que as comparações entre vizinhos têm limitações.

O avanço progressivo da Venezuela rumo a um governo ditatorial foi uma das coberturas que mais a marcou, pela intensidade dos acontecimentos.

“A Venezuela é às vezes vista pelo leitor brasileiro como uma espécie de espantalho e, ao mesmo tempo, como um espelho do fracasso da esquerda”, resume. Ir além dessa visão simplista para compreender o momento histórico do país exige trabalho duro e sensibilidade, que devem ser traduzidos com didatismo para o leitor.

Didatismo é, aliás, uma palavra-chave fundamental quando se trata de narrar acontecimentos geopolíticos complexos, como as guerras –em especial as que ocorrem em regiões pouco familiares aos brasileiros.

Nesses casos, além da preocupação com contexto e clareza, os enviados especiais precisam sobretudo observar questões de segurança.

Foi o que fizeram o repórter fotográfico Juca Varella e o jornalista Sérgio Dávila, hoje diretor de Redação da Folha, quando foram a Bagdá para cobrir a Guerra do Iraque (2003-2011). “Tudo dizia para a gente não ir para lá”, conta Varella. Contudo, um dia antes de terminar o prazo do ultimato do presidente George W. Bush para que o ditador Saddam Hussein deixasse o Iraque e evitasse o conflito armado, os dois decidiram sair de Amã, na Jordânia, e entrar no país.

Os jornalistas, os únicos brasileiros na zona de conflito, passaram mais de 30 dias, de 19 de março a 20 de abril de 2003, reportando bombardeios e a entrada das tropas norte-americanas no Iraque, comunicando-se com a Redação por meio de um telefone via satélite.

Apesar do uso do aparelho ser autorizado apenas dentro do Ministério da Informação iraquiano, Varella e Dávila escaparam ao confisco (o que envolveu presentear com um chocolate Toblerone um militar iraquiano), sob risco de serem presos por espionagem.

No quarto de hotel dos jornalistas, três batidas pausadas na porta era o código que indicava “barra limpa”: o celular poderia sair de seu esconderijo no duto do ar condicionado e mandar notícias da guerra ao Brasil.

Na zona de conflito, Varella aprendeu o que ninguém ensina. “A gente vivia com a iminência da morte ou, o que parecia pior, de ficar ferido.” A experiência foi intensa. “As autoridades iraquianas nos levavam aos locais bombardeados pelos EUA, principalmente os que tinham civis, para que víssemos os efeitos colaterais. Eu pisava em restos humanos”, conta o fotógrafo.

Na volta ao hotel, Varella lavava vigorosamente suas botas no banheiro. O ritual era sua catarse diária, a maneira de digerir o horror que, ele sabia, se repetiria no dia seguinte e depois. “Tinha dias que eu me sentia mais seguro com um boné do Brasil do que com capacete balístico”, conta ele, lembrando da simpatia dos iraquianos pelo “país do futebol”.

Nesse sentido, ter correspondentes brasileiros espalhados pelo mundo faz toda a diferença. Embora as agências internacionais de notícias tenham uma estrutura mais capilarizada e enviem continuamente informações dos quatro cantos do planeta, o olhar brasileiro, expresso pelo jornalista que se transporta ao coração da notícia, é insubstituível.

Morando em Bruxelas desde o início de 2020, a correspondente da Folha na Europa, Ana Estela Sousa Pinto, reforça que “o papel do correspondente é traduzir os acontecimentos para os brasileiros, mas também buscar o que as agências não fariam” —e, desse modo, enxergar, para além das árvores, o bosque inteiro.

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