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Homofobia no futebol não é pauta secundária, afirma jornalista

Para João Abel, imprensa esportiva deve discutir o que acontece fora de campo

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João Abel

Repórter e social media do jornal O Estado de S. Paulo; autor do livro “Bicha!: A Homofobia Estrutural no Futebol”.

São Paulo

Como parte dos projetos especiais dos 100 anos da Folha, o jornal convidou 13 integrantes de grupos sub-representados no jornalismo profissional praticado no Brasil. Eles expõem episódios de preconceito e desinformação, além de problemas na relação com jornalistas e na forma como a imprensa noticia —ou não noticia— questões que os afetam direta ou indiretamente.

Batizada de “E Eu? - O Jornalismo Precisa me Ouvir”, a série é formada por vídeos e depoimentos em forma de texto.

O jornalista João Abel no auditório da Folha
O jornalista João Abel no auditório da Folha - Bruno Santos/Folhapress

O repórter e social media do jornal O Estado de S. Paulo, João Abel, 23 anos, fala sobre a representação dos gays e bissexuais na imprensa, e em especial da associação entre futebol e homofobia. Abel é autor do livro "Bicha!: A Homofobia Estrutural no Futebol" e coautor de “O Contra-Ataque: O Futebol É Uma Manifestação Cultural”. Leia entrevista ou assista ao vídeo (há uma versão com recursos de acessibilidade logo abaixo).

VERSÃO COM RECURSOS DE ACESSIBILIDADE

Quando um torcedor LGBT vai ao estádio, ele tem que ouvir muita coisa calado. Entra por um ouvido, sai pelo outro: bicha, viadinho, bambi, fresco, frouxo.

Tenho uma série de amigos bissexuais —como eu— e gays que adoram discutir futebol, comprar a camisa do time e ir ao estádio, mesmo que esse seja um ambiente onde não são bem-vindos. Um homem não pode ir lá com o companheiro —se for, não pode demonstrar afeto.

O futebol não está à parte da sociedade, é preciso pensar nele como elemento social e cultural. O esporte também potencializa e reflete a masculinidade tóxica que existe no Brasil. Por exemplo: os homens estão mais expostos à criminalidade, conflitos armados e morrem mais por violência. Corta para o futebol. Você vê muitos homens se valendo desse pretensa masculinidade e desvirtuando o papel de uma torcida organizada para matar alguém que veste a camisa rival.

João Abel mostra seu livro 'Bicha!: A Homofobia Estrutural no Futebol', durante entrevista à Folha
João Abel mostra seu livro 'Bicha!: A Homofobia Estrutural no Futebol', durante entrevista à Folha - Bruno Santos/Folhapress

Os homens cuidam menos da saúde e se suicidam três vezes mais que as mulheres. Corta para o futebol. O primeiro jogador a se assumir homossexual foi um inglês chamado Justin Fashanu. Além de ser gay, ele sofria com racismo, abandono dos pais, nunca se firmou em nenhum clube e tirou a própria vida antes dos 40 anos.

Tem 80 mil jogadores profissionais no Brasil e o único exemplo recente de jogador homossexual não está em um clube de expressão: o goleiro Messi, do Palmeira, time do interior do Rio Grande do Norte. Você não vê nenhum jogador de clube grande expressar a própria sexualidade se não for heteronormativa.

O esporte também potencializa e reflete a masculinidade tóxica que existe no Brasil

João Abel

Jornalista

Em 2019, lancei um livro sobre a homofobia estrutural no futebol chamado “Bicha!”. O grito de “bicha” talvez tenha sido a coisa mais simbólica na última década para mostrar que o problema existe. A recusa em usar a camisa 24 é outro exemplo.

Hoje, quando alguém grita “preto” ou “macaco” num estádio, a maioria das pessoas acha inaceitável. Mas há cinco ou seis anos a gente ouvia 50 mil pessoas gritando “bicha” e até hoje muita gente acha que é algo cultural.

De lá para cá, muitas torcidas aboliram o grito, apesar de não terem abolido outros cânticos homofóbicos.

Apesar disso, a gente tem visto avanços. Cada clube grande no Brasil tem um coletivo de torcedores LGBTs. Tem pelo menos 60 equipes exclusivamente de LGBTs, e até times de homens trans.


O futebol tem retomado sua dimensão política. Se a gente conseguir transformar o futebol, isso vai moldar a sociedade brasileira de forma impactante, porque ele influencia muita gente.

Até 2016, nenhum clube tinha feito qualquer tipo de menção aos seus torcedores LGBTs nas redes sociais. A partir de 2017, os clubes começaram a falar disso. No ano passado, praticamente todos eles fizeram uma campanha positiva direcionada ao público LGBT.

Quando você entra numa Redação de esportes, a maioria é formada por homens heterossexuais, o que pressupõe que a causa LGBT não é algo vivenciado. A gente precisa ter mais diversidade na imprensa —isso é fato e tem mudado nos últimos anos.

Mas também acho que a forma como os casos de homofobia no futebol são externados nas pautas poderia ser melhor. É quase cíclico: no mês do orgulho LGBT, em junho, o jornalista esportivo fala disso porque é uma pauta que está no noticiário, mas não é algo recorrente.

O jornalismo precisa pautar mais as ações de luta contra a homofobia no futebol e deixar claro que a imprensa esportiva é um ambiente de discussão sobre um objeto social. Isso não é uma pauta secundária. O que acontece dentro e fora de campo deve ser igualado.

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