Descrição de chapéu E eu? jornalismo

Toda vez que vou dar uma entrevista, tenho medo do resultado, diz atriz cadeirante

Para Tabata Contri, narrativas de superação em reportagens distorcem sua imagem

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Tabata Contri

Atriz, apresentadora e consultora de inclusão

São Paulo

Como parte dos projetos especiais dos 100 anos da Folha, o jornal convidou 13 integrantes de grupos sub-representados no jornalismo profissional praticado no Brasil. Eles expõem episódios de preconceito e desinformação, além de problemas na relação com jornalistas e na forma como a imprensa noticia —ou não noticia— questões que os afetam direta ou indiretamente.

Batizada de “E Eu? - O Jornalismo Precisa me Ouvir”, a série é formada por vídeos e depoimentos em forma de texto.

A atriz e consultora de inclusão Tabata Contri, no auditório da Folha
A atriz e consultora de inclusão Tabata Contri, no auditório da Folha - Bruno Santos/Folhapress

Atriz, apresentadora e consultora de inclusão, Tabata Contri, 40 anos, fala sobre a representação, na imprensa, de pessoas com deficiência. Ela foi a primeira cadeirante a integrar o elenco de uma novela no Brasil e também atuou como assistente de direção na Oficina dos Menestréis. Leia entrevista ou assista ao vídeo (há uma versão com recursos de acessibilidade logo abaixo).

VERSÃO COM RECURSOS DE ACESSIBILIDADE

Sofri um acidente de carro no Réveillon de 2000 para 2001, quando eu tinha 20 anos. Metade da minha vida eu não tive deficiência e metade eu tive, então, estou bem no meio do caminho —e esse momento está me trazendo muitas reflexões importantes.

De todos os grupos minorizados, a pessoa com deficiência é a que tem menos orgulho de ser quem é. Existe o orgulho negro, o orgulho LGBTQIA+, mas não existe o orgulho de ter deficiência. Até porque ter deficiência não é uma coisa boa. Ninguém quer ter deficiência. Mas o orgulho não é da deficiência em si, é de ser quem se é —e a deficiência fazendo parte [disso].

Tudo que conquistei, ter pisado em um palco de teatro pela primeira vez, em um estúdio de TV, ter estado em empresas de todo o Brasil falando de diversidade e inclusão, ter engravidado, ter tido meu filho, foi com a cadeira. Não por causa da cadeira, mas com a cadeira. Então preciso ter orgulho da minha trajetória.

O primeiro grande impacto para mim [após o acidente] foi não me ver. Eu não me via nos jornais, na TV, nas revistas, nas novelas, nas séries. Eu não via pessoas como eu trabalhando numa loja de shopping, como eu trabalhava, ou numa farmácia, numa padaria. Então tinha muitas dúvidas. "O que vou fazer da vida agora? Será que eu posso trabalhar, estudar, namorar?" Eu não via pessoas como eu estudando, trabalhando ou namorando.

A atriz Tabata Contri com uma cadeira de rodas em miniatura, durante entrevista à Folha
A atriz Tabata Contri com uma cadeira de rodas em miniatura, durante entrevista à Folha - Bruno Santos/Folhapress

Demorei sete meses, depois da lesão, para conhecer pessoas que estavam passando pela mesma situação, na reabilitação. Ali foi um divisor de águas. A partir de então comecei a ter um olhar de possibilidades, e não só de dificuldades.

Uma amiga que conheci lá tinha um amigo que era diretor de teatro. Ele falou: "Vem fazer uma aula, sou louco para dar aula para pessoas que usam cadeira de rodas. Leva uma amiga assim igual a você." Me amarrei naquele espaço e não saí mais do palco.

Amo o teatro, mas é uma carreira desafiadora para qualquer pessoa. Para uma pessoa com deficiência, ainda mais. Tive que fazer muito teste sem dizer que eu tinha deficiência. Eu chegava nos lugares e era carregada escada acima, escada abaixo —se não fosse assim, não ia nem fazer o teste.

Tudo que conquistei foi com a cadeira. Não por causa da cadeira, mas com a cadeira

Tabata Contri

Atriz, apresentadora e consultora de inclusão

Estava difícil viver daquela realidade, por isso fui trabalhar com inclusão de pessoas com deficiência —para a gente poder ter a profissão que a gente quiser.

O Jairo Marques, colunista da Folha, tinha um quadro chamado Persona e me entrevistou. Eu contava ali que tinha preguiça de assistir qualquer coisa que envolvesse deficiência em novelas e séries, porque as pessoas voltavam a andar e enxergar milagrosamente, e a vida real não é assim.

Um diretor de TV, o Del Rangel, marcou um papo comigo. Ele pediu para o autor da novela [Água na Boca, da Band, de 2008] escrever um papel para mim. Gravei dez capítulos. Aprendi muito e me senti respeitada como profissional, foi o maior trabalho que fiz [na TV].

O que impede a pessoa com deficiência de estar na sociedade não é a deficiência, são as barreiras —arquitetônicas, atitudinais, comunicacionais e muitas outras. Como mulher e cadeirante, mal consigo andar em uma calçada.

A barreira atitudinal tem a ver com o modelo mental das pessoas, que nos enxergam com o rótulo do coitadinho. Ou o outro extremo, também muito perigoso, de lição de vida, exemplo de superação, esses clichês. Isso tem nome: se chama capacitismo, que é a discriminação direcionada à pessoa por causa da deficiência. Ela parte da premissa de que a pessoa sem deficiência é capaz e a pessoa com deficiência é incapaz.

Toda vez que vou dar uma entrevista, tenho medo do resultado. Porque já aconteceu de eu gravar um vídeo e sair aquela faixa embaixo escrito assim: "Ela está presa a uma cadeira de rodas para o resto da vida." Para ajudar, tem aquela música triste de fundo. E aí passa uma imagem que não é a minha.

Muitas vezes dou uma entrevista e o jornalista completa: "Ela é uma lição de vida, um exemplo de superação." Eu entendo que superei a deficiência, mas já faz 20 anos. Eu queria ser elogiada pela minha competência.

Tem uma frase da convenção da ONU que aconteceu no Brasil em 2006: "Nada sobre nós sem nós." Ela é muito forte. Ela diz que a gente está cansado que façam para a gente, que façam pela gente. A sociedade tem que fazer com a gente. É muito violento que decidam por nós. A gente tem que ser protagonista da nossa história.

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