Passeie pela história da fotografia em 100 anos de imagens da Folha

Jornal investe em tecnologia para criar uma linguagem visual própria, unindo beleza e informação

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São Paulo

O fotojornalismo teve origem na Alemanha do início do século 20. Após a Primeira Guerra Mundial, revistas e jornais perceberam que a busca por serviços noticiosos com imagens eram exigência nos novos centros urbanos.

Mesmo rudimentar, a fotografia passaria a ser ferramenta indispensável para o novo formato de jornalismo. A qualidade das imagens proporcionadas pelas desajeitadas câmeras de fole era até razoável, mas a resolução dessas fotografias impressas nas rotativas tipográficas era sofrível.

A primeira foto publicada na Folha exibe o Largo São Bento. Sob o título ”Um largo pitoresco”, o texto relata a confusão urbana do ponto central da cidade. Depois, as cenas do cotidiano seriam publicadas na seção Aspectos da Cidade, que denunciava problemas urbanísticos e de administração - 19.fev.1921/Folhapress

Foi também dentro desse cenário que surgiu, em 1921, a Folha da Noite, jornal vespertino voltado para os assalariados urbanos. A crise econômica deflagrada durante a guerra arrasou os periódicos dessa modalidade na cidade de São Paulo. A Folha da Noite viria a preencher exatamente esta lacuna.

Seguindo a tendência do jornalismo europeu e norte-americano, os esforços do jornal em pautas fotográficas se voltavam geralmente aos recentes problemas urbanos, casos policiais e eventos esportivos.

A impressão de fotografias era um recurso demorado e dispendioso. A publicação da imagem tinha de valer muito a pena. A tomada dos instantâneos e a revelação das chapas de vidro eram um processo excessivamente longo.

Depois da fotografia pronta era necessário preparar os clichês, chapas metálicas em relevo que permitiam a impressão de imagens nas rotativas tipográficas. Uma confecção artesanal. Assim, clichês com imagem dos “cracks” (a grafia da época) Neco, do Corinthians , ou Heitor, do Palestra Itália, eram repetidos meses a fio nas páginas do jornal.

Movimentação de soldados paulistas durante operações na Revolução Constitucionalista de 1932, que não conseguiu tirar Getúlio Vargas da Presidência da República
Movimentação de soldados paulistas durante operações na Revolução Constitucionalista de 1932, que não conseguiu tirar Getúlio Vargas da Presidência da República - Folhapress

Mas as aquisições de duas impressoras ao longo da década impulsionaram a fotografia no jornal. A primeira foi uma rotativa usada, da tradicional empresa francesa Marinoni, comprada em 1925. A gráfica própria ainda permitiu o lançamento da Folha da Manhã, no mesmo ano.

Em 1928, uma moderna rotativa alemã Koenig & Bauer proporcionou grandes avanços gráficos e visuais.

Surgiram coberturas jornalísticas com narrativas de imagem mais extensas. O uso de fotografias nas primeiras páginas aumentou bastante.

Crescem as reportagens fotográficas do cotidiano de São Paulo nas páginas da Folha da Noite. Já a Folha da Manhã, geralmente com dois cadernos, passa a publicar imagem na primeira página todos os dias e traz coberturas sobre agronegócios, comércio e indústria com fotos didáticas.

Nas décadas seguintes, a foto ganha mais espaço. São criadas colunas sociais. Aumentam as seções. As reportagens fotográficas de política se destacam. Os bastidores de Brasília, Rio e São Paulo são retratados diariamente.

Alunos do Mackenzie, pró e contra eleições para a diretoria da União Estadual dos Estudantes, brigam na rua Maria Antônia. Foto vencedora do Prêmio Esso - Gil Passarelli - 26.out.1967/Folhapress

Aos poucos, o jornal vai formatando o modelo de cadernos. Editorias como Cidades, Economia, Esportes e Ilustrada vão adquirindo narrativas fotográficas próprias.

A partir dos anos 1980, vem o pioneirismo das imagens coloridas e fotografias digitais. Do exterior, a Folha absorve a dinâmica das agências de notícias internacionais, com padrões de produção e transmissão de dados.

O leitor é convidado a entrar no assunto por meio de fotos que levam a pensar. Como na icônica imagem produzida pelo fotógrafo Jorge Araújo, que mostra uma pomba pousada sobre faixa durante ato em favor da anistia aos exilados e presos políticos, em São Paulo, em agosto de 1979. Foi a imagem vencedora do Prêmio Esso daquele ano.

Pomba pousa sobre faixa durante ato com 5.000 pessoas em defesa da anistia a exilados e presos políticos, na praça da Sé, em São Paulo. Foto vencedora do Prêmio Esso
Pomba pousa sobre faixa durante ato com 5.000 pessoas em defesa da anistia a exilados e presos políticos, na praça da Sé, em São Paulo. Foto vencedora do Prêmio Esso - Jorge Araújo/Folhapress

Outra inesquecível foto, esta de Fernando Santos, registra em 1984 a praça da Sé vista do alto, tomada por paulistanos que lutavam pelas eleições diretas para presidente. Ela sintetiza a força da fotografia da Folha: a cobertura política.

Multidão de cerca de 1 milhão de pessoas ocupa a praça da Sé em comício pelas eleições diretas para presidente, no dia do aniversário de São Paulo - Fernando Santos - 25.jan.1984/Folhapress

Todos os dias um batalhão de fotógrafos estava em todos os cenários onde havia uma querela política que o leitor precisava saber. A consolidação de uma fotografia a serviço do Brasil.

Em busca do apelo popular

Publicar fotos em um jornal na década de 1920 era uma tarefa complicada. As câmeras fotográficas ainda não possuíam tantas possibilidade técnicas.

A câmera Speed Graph, produzida pela empresa norte-americana Graffex a partir de 1913, foi o modelo que caiu no gosto dos primeiros repórteres-fotográficos.

Câmeras eram pesadas, grandes e com fole. Exatamente igual àquelas que aparecem com os fotógrafos em filmes de gângster. Essas câmeras ainda não utilizavam negativos. Nesse tempo, os flashes eram com lâmpadas, muito caras, ou ainda aqueles à base de pólvora, também vistos em filmes de época.

Não bastasse a própria dificuldade de fotografar, era bem complicado produzir o clichê que entraria na composição da página para impressão da rotativa tipográfica.

Nessa condição, as apostas fotográficas tinham de ser certeiras. Entre os temas que tomavam conta da pauta fotográfica da Folha da Noite em seus primeiros anos estavam questões urbanas, crimes vultosos e eventos esportivos.

Exatamente as pautas que fariam o sucesso do vespertino. Como não havia rádio, a Folha da Noite levava as últimas notícias à nova classe trabalhadora urbana. Noticiário de apelo popular, que chamava a atenção dos trabalhadores que voltavam para casa.

O primeiro crime com cobertura fotográfica foi um feminicídio. Um sapateiro italiano, Angelo Fiori, matou a facadas a mulher. A dramática reportagem trouxe duas fotos. Uma com a cena do crime, na casa dos italianos. A outra imagem, impensável nos dias de hoje, mostrou dois dos filhos pequenos do casal.

Longe da timidez dos primeiros anos, a cobertura do Carnaval de 1925 foi ousada, trazendo na segunda-feira oito fotos com registros dos bailes de três clubes da cidade.

No dia 5 de junho de 1926, é extensa a cobertura da captura de um célebre ladrão de casas, Gino Meneghetti. Cinco fotos na primeira página e mais seis fotos em página interna davam o tom do fotojornalismo que começa a ser buscado pelo jornal.

Passeata no centro de São Paulo pela emenda que pedia a eleição direta para a Presidência. Naquela noite, a proposta foi rejeitada em Brasília - Luiz Carlos Murauskas - 25.abr.1984/Folhapress

Estado Novo sufoca a força das imagens

Em 24 de outubro de 1930, parte da multidão que comemorava nas ruas a deposição do presidente eleito Júlio Prestes destruiu por completo as instalações do jornal. Uma represália dos seguidores de Getúlio Vargas, que assumiu o poder, contra quem tinha apoiado a candidatura vitoriosa de Prestes.

A Folha da Noite e a Folha da Manhã entraram numa fase completamente distinta. O jornalismo voltado para a classe média trabalhadora cedeu lugar para uma cobertura de temas relacionados à agricultura.

A empresa montou sucursais e instituiu correspondentes em várias cidades do interior paulista. Com a ênfase em pautas sobre agricultura e comércio, a tiragem dos dois jornais passou de 15 mil para 80 mil exemplares.

Com o título Órgão da Lavoura e do Comércio sempre no cabeçalho da última página, passaram a receber dezenas de reportagens sobre os problemas do comércio e da agricultura. É criada a página Vida Agricola, onde eram produzidas fotos de boa qualidade técnica e bem didáticas.

A Folha da Noite manteve em parte a cobertura e publicação de reportagens gráficas com temas de alcance urbano. A Folha da Manhã reduziu sensivelmente o uso de fotografias durante a semana. Primeiras páginas com pequenas fotos, longos textos sobre o mercado de café e outras commodities.

Apenas nas edições dominicais é que a Folha da Manhã publicava temas mais diversos. Um dos destaques é o Supplemento, caderno de reportagens e ideias, que bem poderia ser avô da Ilustríssima.

Em 1932, os dois jornais abandonaram o tom imparcial e apoiaram a Revolução Constitucionalista. Com cobertura fotográfica quente, clichês diários mostravam a ação dos paulistas no front. Esse papel de oposição durou até o golpe que resultou no Estado Novo, em 1937.

Com a pressão da Estado Novo de Vargas, a cobertura política foi sumindo das páginas. As investidas fotográficas na Folha da Manhã se limitam às pautas de agricultura e comércio, e alguma cobertura de imagens dos bastidores da política getulista. Parte da produção de imagens do cotidiano produzidas pela Folha da Noite também é aproveitada no matutino.

Além do ocaso editorial imposto pelo Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial tomou conta do serviço noticioso. Mas raramente eram publicadas fotos do teatro de operações. A guerra terminou, e Getúlio Vargas ficou no poder até 1946.

Enxergando pela perspectiva do leitor

Em março de 1945, José Nabantino Ramos, Clóvis Queiroga e Alcides Meirelles assumiram a Empresa Folha da Manhã. Vargas ainda estava no poder. A primeira providência da nova direção foi restabelecer a imparcialidade.

As coberturas fotográficas do dia a dia paulistano ganharam novos contornos. Ficaram dinâmicas, mostrando diversos pontos de vista.

Indígena do povo Guajás, no Maranhão, amamenta filhote de porco do mato, adotado após uma caçada. A foto recebeu o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha em 1993 - Pisco Del Gaiso - 10.nov.1992/Folhapress

Desde protestos contra os serviços da CMTC ou até a descoberta de um zoológico num bairro. As imagens tentavam enxergar através da perspectiva do leitor.

As coberturas esportivas, antes protocolares, colocaram o leitor dentro da cena. Os clichês posados dão lugar à ação e contexto das disputas.

Os fotógrafos da casa tiveram grande influência da chamada fotografia humanista, corrente que tomou conta do fotojornalismo no pós-Guerra. Uma escola que teve nomes como Henri Cartier-Bresson, Eugene Smith, Robert Doisneau e Robert Capa.

A nova linguagem buscava capturar a vida cotidiana de mulheres e homens comuns sempre através de uma narrativa crítica. Havia atenção especial à capa do jornal, com a primeira página reservada a assuntos nobres. As imagens tinham que brigar para conseguir um espaço na área mais importante do jornal.

Nos anos 1950, sob influência da revista O Cruzeiro, que por sua vez se inspirou nas revistas estrangeiras como a francesa Paris Match e a americana Life, foi implementada a cultura de duplas de repórter e fotógrafo.

O menino Jonas da Silva tenta defender chute a gol em campo de várzea em João Pessoa, na Paraíba, na frente de outdoor que anuncia a Paixão de Cristo - Antônio Gaudério - 26.abr.1998/Folhapress

Os jornalistas deixaram de explorar apenas o noticiário local. Séries de grandes reportagens foram produzidas e elevaram o patamar do jornalismo produzido pelas Folhas.

Em 1958, foi lançado o Reide Brasil Norte-Sul, uma iniciativa pioneira quando a reportagem percorreu 25 mil quilômetros pelo país. Histórias como o último jagunço de Canudos, a realidade do Cariri, a construção de Brasília ou ainda a disputa pelas cabeças do bando Lampião são reveladas aos leitores.

Antonio Pirozzelli (1915-1981) e Gil Passarelli (1917-1999), dois dos maiores nomes do fotojornalismo brasileiro, fizeram memoráveis duplas com repórteres como José Hamilton Ribeiro, Audálio Dantas (1929-2018) e Hideo Onaga (1921-2007).

Policial socorre com respiração boca a boca menina de um ano, vítima de gás lacrimogêneo em confronto com traficantes da favela do Jacarezinho, no Rio. A imagem recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo - Zulmair Rocha - 20.mai.2000/Folhapress

Fotos de rabo preso com o leitor

Quando Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira assumiram a Folha em 1962, a empresa estava razoavelmente estruturada. Porém, o primeiro desafio dos empresários era moldar um modelo de negócio saudável para os próximos anos.

Em 1963, o publisher Octavio Frias de Oliveira contratou o jornalista Cláudio Abramo para reformular o jornal. A parceria com Abramo seria um passo decisivo no projeto de tornar a Folha um jornal influente e de prestígio nacional.

O fotojornalismo foi peça fundamental da transformação do jornal nas décadas seguintes. A intensa cobertura fotográfica política em Brasília, o registro das greves do ABC e a luta pela anistia foram marcantes neste período.

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Guerreiros mundurucus cruzam garimpo de ouro que devastou um rio e parte do seu território em Jacareacanga, no Pará. Foto vencedora do Prêmio Folha 2018 - Fabiano Maisonnave - 25.jan.2018/Folhapress

Em 1984, o jornal liderou a campanha pelas eleições diretas para presidente. A fotografia de Fernando Santos, que registrou o grande comício da praça da Sé, em abril daquele ano, se tornou ícone da luta democrática no Brasil.

O Projeto Folha, implantado nos anos 1980, transformou a fotografia da casa, que se tornou referência no fotojornalismo brasileiro. Com uma linguagem própria, o jornal propôs uma fotografia de leitura crítica e plural.

Sob essa perspectiva, a equipe fotográfica do jornal acompanhou com suas objetivas os principais momentos da história brasileira nas últimas décadas: a abertura democrática, Sarney e hiperinflação, a Constituição de 1988, eleições diretas de 1989, a Era Collor, o Plano Real e os Anos FHC, o Governo Lula, a fase Dilma, as manifestações de junho de 2013 até os dias atuais.

Candidato à Presidência da República, Fernando Collor, então no PRN, berra palavrões durante choques de seus apoiadores contra brizolistas em Niterói - Chico Ferreira - 9.ago.1989/Folhapress

O jornal sempre apostou no pioneirismo. Nos anos 1990, investiu em processos padrões de produção, transmissão de dados, imagens coloridas e fotografia digital. A editora de fotografia à época, Ana Estela de Sousa Pinto, conta que no início da digitalização a equipe torceu o nariz para a qualidade das imagens das primeiras câmeras.

Mesmo assim, em 21 de março de 1994, a Folha publicou pela primeira vez na América Latina uma foto de produção 100% digital.

Capa da edição de 31 de março de 1994 com a primeira foto digital transmitida por uma câmera digital na América Latina
Capa da edição de 31 de março de 1994 com a primeira foto digital transmitida por uma câmera digital na América Latina - Rubens Cavallari/Folhapress

Nos últimos 20 anos, o jornal sedimentou a linguagem de suas narrativas visuais. A preocupação deixou de ser somente de encontrar soluções estéticas aliadas à informação. O fotojornalismo da Folha passou a priorizar em suas coberturas a capacidade de informação, opinião e análise na estrutura de uma narrativa imagética. Se, em décadas anteriores, a foto-reportagem priorizava apenas a informação, a fotografia da Folha passou a levar em conta a experiência do leitor.

Corpo de um macaco bugio carbonizado por incêndio que atingiu a fazenda Santa Tereza, na região da Serra do Amolar, no Pantanal do Mato Grosso do Sul - Lalo de Almeida - 4.out.2020/Folhapress
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