Descrição de chapéu Humanos da Folha

Com poucos recursos, Olival Costa fundou Folha da Noite em 1921

Jornalista apostou tudo na criação do jornal que completará seu centenário em 50 dias

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Bruxelas

Olívio Olavo de Olival Costa tinha um sonho, e jornais não estavam nele. O filho de imigrantes portugueses queria se tornar advogado. Sem recursos, porém, abandonou os estudos e começou a trabalhar como jornalista aos 19 anos, em Pedreira, na época um distrito de Amparo (SP).

De lá saiu aos 30 anos, em 1906, para tentar a vida no Rio. Meses depois, foi contratado não por um jornal carioca, mas por O Estado de S. Paulo, então o diário paulista mais importante.

retrato em preto e branco de grupo de homens brancos vestindo terno posando para foto junto a uma mesa
Olival Costa (de bigode) no 1º aniversário do jornal - Folhapress



Escrevia sobre corridas de cavalo, teatro e falecimentos quando, aos 45 anos, apostou o que tinha e o que não tinha no lançamento de um novo jornal vespertino: a Folha da Noite, que quase três décadas depois de sua morte se tornou Folha de S.Paulo e completa cem anos em 19 de fevereiro de 2021.

Com Olival na aventura estavam cinco colegas do Estado, que viram uma oportunidade no mercado de notícias da capital paulista. Com o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), algumas empresas deixaram de publicar uma edição no final da tarde, mais atualizada, cuja leitura havia se tornado hábito para os trabalhadores que voltavam para casa.

Sem capital, durante um bom tempo trabalharam sem receber um tostão de salário. A penúria era tanta que os sócios trocavam anúncios por pratos da Gruta Baiana, um restaurante do centro paulistano.

Pequeno, frágil, vestido em terno escuro, camisa branca e gravata, Olival usava os cabelos repartidos numa entrada mais alta à esquerda da testa e “tinha sempre uma pilhéria na ponta da língua”. Seu senso de humor aparecia mesmo em momentos difíceis do jornal.

Ele quis interessar o público feminino e idealizou uma seção de moda, mas não encontrava uma mulher que pudesse cuidar da coluna. “Por deliberação da Direção, tendo em vista suas tendências para o mexerico, fica você encarregado da seção nova”, escreveu para o repórter Paulo Duarte, que cobria política.

“O seu ordenado será dobrado!”, concluiu o diretor da Folha da Noite com um risinho: ninguém no jornal ganhava sequer um vintém.

Na rua do Carmo, onde os sócios instalaram em 1925 sua primeira rotativa, Olival andava agitado de um lado para outro, dava instruções, ajudava a carregar bobinas de papel, ensinava o funcionamento das máquinas, tomava notas.

Em 1925, com uma rotativa própria, Olival decidiu lançar um novo jornal, a Folha da Manhã.

Apesar dos dois títulos, os jornais eram conhecidos na São Paulo dos anos 1920 como “Folha do Olival” ou apenas “Folha”. Eram anos agitados, e as Redações reuniam intelectuais atraídos pela possibilidade de debater política e problemas sociais.

Nem sempre eram discussões pacíficas. Mais de uma vez, Olival teve que expulsar da Redação adversários irados. Aos amigos mais íntimos, ele confessava que se sentia esgotado pelos esforços agora dobrados para editar duas Folhas.

Em 1930, os conflitos atingiram o ápice. Na manhã de 24 de outubro, Olival, depauperado fisicamente, procurava animar os companheiros. Repórteres iam e vinham da Central de Polícia com informações preocupantes: avanços da coluna getulista, comícios nas praças públicas.

O ato final começou às 14h, quando foi confirmada a deposição do presidente Washington Luís, partidários de Getúlio Vargas começaram a se aglomerar na praça da Sé. A multidão queria vítimas, e as Folhas, que haviam apoiado Washington Luís, eram um alvo próximo, mas primeiro os getulistas seguiram para a Gazeta e para o Correio Paulistano.

Por volta das 23h, chegaram à sede do jornal, com archotes, pedaços de pau e barras de ferro. Da esquina, Olival viu máquinas de escrever, cadeiras e mesas serem arremessadas pela janela. Bobinas de papel-jornal foram desenroladas até a praça da Sé.

Pouco depois da meia-noite, estava tudo destruído. Uma fogueira pôs fim a esta fase da Folha. Olival morreu após dois anos, em 13 de dezembro de 1932, aos 56 anos.

O que sobrou das Folhas foi comprado pelo fazendeiro e comerciante Octaviano Alves de Lima.

Olívio Olavo de Olival Costa (1876-1932)

Fundador dos jornais Folha da Noite (1921) e Folha da Manhã (1925), que dariam origem à Folha de S.Paulo. Morreu dois anos depois de ver a Redação das Folhas ser destruída por apoiadores de Getúlio Vargas, em 1932.

Este texto faz parte do projeto Humanos da Folha, que apresenta perfis de profissionais que fizeram história no jornal. ​​ Uma versão desse perfil foi escrita para o livro “Folha Explica Folha” (Publifolha, 2012).

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