Para escrever, Ilan Brenman se inspira em sua infância e na vida das duas filhas

Ele é autor de mais de 80 títulos, com 40 deles traduzidos em 14 países

São Paulo

Aos sete anos, Ilan Brenman pisou sem querer em sua tartaruga de estimação. Pensou ter matado a bichinha. A mãe correu do trabalho para casa, tentaram juntos ressuscitá-la, mas não houve qualquer sinal positivo.

Três dias depois, a tartaruga voltou ao normal. Botou a cabeça para fora e viveu ainda por muitos anos, feliz.

Escritor calvo, veste camisa azul e usa óculos. Ele está sentando em uma poltrona de perna cruzada e sorri para a foto
Retrato do escritor Ilan Brenman, autor de mais de 80 títulos infantojuvenis - Arquivo Pessoal

O episódio de infância ressurgiu décadas depois em um dos livros mais famosos do escritor, o “Pó do Crescimento”, que conta a história do menino que salva uma tartaruga e ganha dela um pó mágico. Ilan, 47, explica que literatura é isso: esquecimento e recriação da memória.

Autor de mais de 80 títulos, com 40 deles traduzidos em 14 países, o israelense Ilan veio para o Brasil com a família quando tinha apenas seis anos. E sempre que precisa acessar mentalmente algo dessa época, pede ajuda à mãe, uma rainha na costura de lembranças.

No armário de Dona Diana ainda mora, por exemplo, a jaquetinha prateada que o pequeno Ilan, fã do mundo da Lua, ganhou quando era bem pequenininho. Naquela época, ficou curioso com a identidade dos astronautas que invadiram sua casa uma certa manhã.

Foto da jaqueta prateada vintage em cima de uma poltrona branca
Jaqueta prateada que pertence ao escritor Ilan Brenman - Arquivo Pessoal

“Eram os médicos com balões de oxigênio, para ajudar meu avô. Ele morreu dormindo, já era de muita idade. Tínhamos uma relação forte, e me lembro dele tomando café, todo dia, igual aparece numa foto que tenho. Ele foi deitar e, de repente, vejo essas pessoas entrando em casa”, conta.

As fotografias são grandes aliadas de Ilan na hora de montar sua trajetória. Elas ajudam a revisitar momentos como a chegada ao país onde se escrevia diferente —em Israel as linhas vão da direita para a esquerda —e a relação tensa com a matemática. “Tenho um trauma bem grande com uma professora que massacrava todo mundo”, brinca.

Pois os modos impiedosos da professora propiciaram, segundo Ilan acredita, um mergulho ainda mais poderoso no mundo da ficção e da fantasia. E, de novo e sempre, viraram história nas pontas dos dedos dele, que é um dos autores mais produtivos da literatura contemporânea infantil.

Para ter uma ideia, houve anos em que ele lançou seis livros, entre janeiro e dezembro. Agora, toda a sua obra vai para a editora Moderna, de quem Ilan se tornou autor exclusivo.

Na primeira leva, 25 livros já foram remodelados —outros 19 estão programados para o segundo semestre.

Ele adianta, ainda, que haverá novidades, como "livros sobre uma menina colecionadora, contos de mestre e alunos e uma garota que descobre um superpoder inusitado", revela.

Desde 2004, Ilan se dedica unicamente ao universo literário, com a criação de histórias, participação em feiras e palestras pelo país.

“No começo foi difícil. Se não fosse minha esposa, que falou que segurava a onda, não tinha dado certo. Os dois primeiros anos são catastróficos, com altos e baixos, mas com uma produção muito intensa. Ela brincava dizendo que era só eu olhar para a parede que inventava uma história.”

A cada cem ideias que tinha, diz, “98 iam para o lixo”. A insegurança dos primeiros anos foi vencida com o tempo e com a ajuda dos familiares —em especial, das filhas, Lis e Iris, hoje com 16 e 13 anos. Era delas a escala de avaliação implementada em casa e que servia de filtro antes de os textos irem para a editora.

“Eu lia a história que tinha acabado de criar. As reações eram ‘conta de novo’, ‘a gente não quer mais essa história’, ou o silêncio, que era o meio do caminho e que me deixava mais inseguro ainda”, diz.

Ilan explica que, quando escreve, não está focando um leitor ou uma causa específica. “Penso que, quando o artista se torna muito militante com sua literatura, isso compromete a criação artística. A minha ideia do mundo eu coloco nos meus artigos, mas, quando vou para a ficção, isso me atrapalha. É uma coisa particular minha.”

Para ele, depois de escrito, o livro já não pertence mais ao autor —e cabe aos leitores fazer dele o uso que quiserem.

“Até as Princesas Soltam Pum”, por exemplo, faz sucesso com feministas. “Tem gente que acha que é para empoderar meninas, tem gente que acha que é para quem tem prisão de ventre. É um livro aberto, cada um agarra como quiser. Mas ele nasceu por causa de um pum aqui em casa.”

Capa de livro rosa com ilustrada de princesa de vestido estampando com flores azuis e verdes
Capa do livro "Até as Princesas Soltam Pum" (ed. Brinque-Book), de Ilan Brenman - Divulgação

No fim das contas, o que move Ilan são as delicadezas. “Escrevo porque tive uma infância rica, porque tenho duas filhas lindas e capetas, porque me divirto e porque amo fazer livros”, resume.

Todas as crianças do mundo sonham, têm medo, querem os pais juntos, têm ansiedades e um quê de coragem. As pequenas riem com escatologia e têm pesadelos. E é essa universalidade que sempre me mostra o caminho”.

Livros de Ilan Brenman

Até as Princesas Soltam Pum (Brinque-Book, 28 páginas, R$ 46)
Best-sellers não ocupam esse posto por acaso, e com o maior sucesso de Ilan Brenman não seria diferente. Laura é uma menina curiosa, que um dia encasqueta com uma questão filosófica de primeira ordem: será que as princesas soltam pum? Com a ajuda do “Livro Secreto das Princesas”, ela vai descobrir a resposta, em uma história que mostra que todo mundo no mundo, no fundo, é bem parecido.

Papai É Meu! (Moderna, 32 páginas, R$ 47)
Criado com base em uma situação vivida na casa do autor, e inspirado com carinho em Iris, filha de Ilan Brenman, este livro mostra o que acontece quando duas irmãs que amam muito, muito, muito seu papai resolvem, cada uma, puxá-lo por um braço, uma para cada lado. No combate ao ciúme e à possessividade, o livro conduz um relato de amor e tolerância.

A Cicatriz (Companhia das Letrinhas, 32 páginas, R$ 39,90)
A menina Silvinha caiu da cama no meio da noite, e, não bastasse o susto com a queda, agora ainda tem que lidar com o medo de ir para o hospital e costurar o queixo! Enquanto tem criança que vai ao médico e ganha pirulito, Silvinha, por sua vez, ganha uma cicatriz – e que vai ficar para sempre no rosto dela. E, o que poderia parecer uma tragédia, aqui vira uma linda reflexão sobre o tempo e a vida.

O Bico (Moderna, 32 páginas, R$ 47)
A filha mais nova do autor, Lis, inspirou esta história deliciosa sobre Leonor, uma menina conhecida em sua família como a senhorita Bicuda. Quem é ou já foi criança sabe: tem hora que a gente bota mesmo um bico na cara e não há adulto que consiga tirar! Pois Leonor, que vivia emburrada, com um bico imenso, um dia descobre que há um jeito de ele desaparecer.

O Rei Davi, o Príncipe Salomão e o Ovo Cozido (SESI, 32 páginas, R$ 39)
​Com prefácio do jornalista Clóvis Rossi, que explica que a arte cria pontes e não muros, este livro usa um ovo cozido para ensinar sobre tolerância e justiça. A parábola, que conta como Samuel precisa, um ano depois de um empréstimo, se virar para pagá-lo, é baseada em uma tradicional história judaica, e traz ilustrações de uma artista islâmica – a ideia é mostrar que estamos sempre muito mais próximos do que pode parecer.

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