Jornalista explica às crianças por que todo mundo agora fala do Afeganistão

Adriana Carranca escreveu livro sobre Malala e conta sua importância na região

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São Paulo

Nos últimos dias, ficou comum ouvir na TV ou ler na internet uma palavra: Afeganistão. Este é o nome de um país com muitas montanhas na Ásia, com mais de 32 milhões de habitantes, e que tem uma capital chamada Cabul.

Acontece que, sempre que agora alguém fala “Afeganistão” nas notícias, acaba dizendo junto uma outra palavra, “Talibã”, e é justamente por causa dela que todos andam preocupados com este país tão distante geograficamente do Brasil, e com problemas às vezes parecidos com aqueles enfrentados em outros lugares do mundo.

A palavra “talibã” significa “estudante” na língua pashto, um dos idiomas falados no Afeganistão, e serviu para batizar um grupo formado neste país e no país vizinho Paquistão há muito tempo, na década de 1979 a 1989.

Naquela época, vários estudantes se reuniram para formar essa organização fundamentalista, que é o modo como se define quem segue com muita rigidez as escrituras de uma religião.

Ilustração de Bruna Assis Brasil para o livro 'Malala, a Menina que Queria Ir para a Escola', de Adriana Carranca - Divulgação

O Talibã esteve no poder do Afeganistão entre 1996 e 2001, mas a maioria dos outros países não reconhecia este governo como legítimo. Seu jeito de controlar as coisas envolvia violência e a perda dos direitos das mulheres. Agora, o Talibã vira notícia porque, no último dia 17, depois de 20 anos fora do comando, está de volta a ele.

“No começo, os talibãs eram vistos como jovens genuinamente dispostos a estabelecer a paz. Mas, quando o regime começa, tem no comando homens ultra religiosos e brutalizados pela guerra. Proibiram a música, esportes, as meninas de estudar e trabalhar, exceto se fossem absolutamente necessárias, como médicas e enfermeiras”, explica a jornalista e escritora Adriana Carranca.

Adriana escreveu, em 2015, “Malala, a Menina que Queria Ir para a Escola” (Companhia das Letrinhas, 96 páginas, R$ 26,53). O livro conta a história de uma garota que nasceu e cresceu em uma zona rural na fronteira entre Afeganistão e Paquistão.

O pai de Malala fazia parte da elite intelectual local, formada por professores, poetas, e outras pessoas respeitadas por seus conhecimentos. “Por ser uma pessoa que lia e se informava muito, quando a Malala nasce ele decide dar a ela as mesmas oportunidades e direitos que os dois irmãos homens tiveram”, conta Adriana.

Ele abriu uma escola, e Malala passou a frequentar as aulas desde o começo. “Algumas meninas eram educadas em casa, outras, nem isso. Quando ele inaugurou a escolinha, ia de casa em casa tentando convencer as famílias a mandarem as meninas para lá. Ele empregou mulheres e foi conseguindo mudar aquela realidade”, diz Adriana.

Quando a jornalista visitou o país, já havia 900 alunas na escola do pai de Malala. “Como ele era considerado uma liderança, era muito respeitado e procurado para entrevistas, e a Malala ia com ele”, continua.

Malala acompanhava o pai sempre que podia - Divulgação

“Ele permitia que ela falasse também, diferente do que acontecia a outras meninas nas suas famílias, que as silenciavam. Normalmente, as meninas não fazem parte de reuniões onde há homens, muito menos podem falar. Quando muito, ficam num cantinho observando.”

Um dia, uma rede de notícias da Inglaterra chamada BBC procurou o pai de Malala para saber se alguma das alunas dele poderia escrever um blog para contar como era a vida das meninas lá. Você consegue adivinhar quem ele chamou? Sim, Malala.

“Ele permitiu, desde que fosse com pseudônimo”, fala Adriana. Pseudônimos são nomes inventados que escritores às vezes usam quando querem proteger sua verdadeira identidade.

O mundo começou a se interessar por aquela blogueira muito esperta e sensível e, com o passar dos anos, seu verdadeiro nome se tornou conhecido. O problema foi que, justamente por causa dessa exposição que Malala passou a ter, ela se tornou um alvo do Talibã.

“Todo mundo imaginava que o pai dela algum dia fosse ser alvo de um atentado, porque ele era um opositor do Talibã. Nunca se imaginou que eles atacariam uma menina, era quase inacreditável”, explica Adriana.

Um dia, voltando da escola junto com outras meninas, o veículo em que elas estavam foi interceptado e um homem atirou três vezes na direção de Malala. Uma de suas colegas levou um tiro no ombro e outro na mão, e Malala levou um tiro na cabeça.

Bruna Assis Brasil ilustra o momento em que Malala é levada ao hospital depois de sofrer um atentado - Divulgação

“A situação dela ficou muito ruim, ela ficou em coma, passou por várias cirurgias. Mas ela sobreviveu e pôde trazer pra gente essa história e essa realidade”, comemora Adriana.

Isso tudo aconteceu em 2012. Em 2014, com apenas 17 anos, Malala ganhou o Prêmio Nobel da Paz, uma das maiores honras que alguém pode receber. “Encontrei Malala a primeira vez nos EUA. Ela estava lá para conversar com o então presidente Barack Obama. Ela ia pedir que ele investisse mais em educação do que em ações militares”, lembra a jornalista.

“E sabe por que o Obama ouviria uma menina? Porque ela tinha tanto conhecimento quanto ele, e isso graças aos livros. Líderes do mundo inteiro a ouviram porque ela tinha o que dizer.”

Adriana gosta de repetir que Malala não é uma heróina, e, sim, uma pessoa normal. “Ela é engraçada, faz piada, briga com os irmãos, paquera, tem ídolos. É uma menina como qualquer outra. A diferença é que ela teve a liberdade da fala, e o conhecimento que a fez ser ouvida.”

Para a jornalista, toda essa história prova o poder da educação e do apoio da família na vida de alguém. Agora, que o Talibã está de volta ao poder, ela diz que sente um pouco envergonhada e um pouco triste, porque todos os países, ela diz, abandonaram o Afeganistão.

“É uma tristeza ver meninas incríveis vendo o fim do seu sonho. Elas acreditaram que o país ia ter oportunidades. Nem acredito como é que isso ainda possa acontecer”, lamenta.

Ela espera que todo mundo possa enxergar a Malala que tem dentro de si. “Queria que as crianças do Brasil soubessem que elas também têm o poder de transformar”, explica.

“Muitas pessoas subestimam as crianças, tem jornalistas que não gostam de entrevistar crianças porque acham que é uma opinião menos importante. Eu, pelo contrário, adoro. As crianças se expressam sem filtro. A gente precisa dar mais voz a elas, elas precisam ser ouvidas.”

TODO MUNDO LÊ JUNTO

Texto com este selo é indicado para ser lido por responsáveis e educadores com a criança

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