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Netflix supera estúdios e ameaça TV com 1.500 horas de conteúdo original

Para dar conta do que é lançado no streaming, seriam necessárias quatro horas diárias

Jonah Hill e Emma Stone na série 'Maniac', da Netflix

Jonah Hill e Emma Stone na série 'Maniac', da Netflix Divulgação

Guilherme Genestreti
São Paulo

Se alguém quisesse acompanhar todo o conteúdo original que a Netflix lança em sua plataforma, teria de gastar mais de quatro horas por dia em frente a uma tela. É o equivalente a um pouco mais do que um trabalho de meio período, mostram os cálculos do site de notícias Quartz.

Como a empresa californiana de tecnologia não costuma liberar informações sobre seus números, o levantamento é o mais próximo que se pode chegar de uma estimativa. 

É também um ponto de partida adequado para situar o lugar da companhia dentro da indústria do entretenimento, em especial num período como o de agora, em que ela tem feito movimentações estratégicas para fazer frente a estúdios de cinema e canais de TV.

Pelas estimativas do site Quartz, que levaram em conta informações de duração das atrações, o serviço de vídeo sob demanda lançou cerca de 1.500 horas de programação original durante o ano de 2018 no território americano.

Desse total 66% correspondem a séries de ficção, carro-chefe da gigante do streaming. Entram no cômputo as últimas temporadas de “House of Cards”, “Fuller House” e lançamentos como “Maniac” e “O Mundo Sombrio de Sabrina”.

As grades de atrações mudam de país para país, mas como o número considera apenas produções encomendadas ou licenciadas pela Netflix, a situação não é lá muito diferente no Brasil, um dos países que impulsionam os 139 milhões de usuários do serviço.

Por aqui, o número dá margem a algumas comparações. 

No mesmo período em que a empresa americana despejou em sua plataforma essa quantidade de programação original, a TV Globo exibiu, só no ano passado, em torno de 2.500 horas de conteúdo próprio de entretenimento, segundo informa à reportagem. São mil horas a mais. Entram aí as novelas, por exemplo.

Não entram nesse número as atrações do acervo (como os folhetins exibidos na faixa Vale a Pena Ver de Novo) ou os quadros de dramaturgia que fazem parte de programas jornalísticos (como aqueles que vão ao ar no Fantástico). 

Também não é contabilizado o que está apenas no catálogo do Globoplay, o serviço de streaming do Grupo Globo. 

É ali que estão os 12 episódios de uma hora da primeira temporada de “Ilha de Ferro”. A série, que tem Cauã Reymond e Maria Casadevall disputando poder numa plataforma de petróleo, é uma das armas do conglomerado brasileiro contra a Netflix e o seu primeiro grande pé nesse novo horizonte do audiovisual.

Ainda que exibida na grade aberta, a série médica “Sob Pressão” é outro produto dessa inflexão da Globo. Capitaneada pelo cineasta Jorge Furtado, trouxe linguagem que tem mais a ver com a dos congêneres americanos do que com as minisséries tradicionalmente exibidas no canal, mais aparentadas das novelas. É um ensaio para testar os novos gostos do espectador.

Enquanto a televisão se aproxima do streaming, o streaming causa uma revolução barulhenta no cinema. 

Segundo os mesmos cálculos do site Quartz, longas-metragens, como “Roma”, “A Balada de Buster Scruggs” e “Caixa de Pássaros”, totalizam 8.500 minutos, 10% do total do tempo de programação da Netflix.

Se considerarmos 120 minutos como a duração média para um título, a estimativa é que a empresa tenha lançado em torno de 70 filmes em 2018.

Esse número quase empata com a soma do que Disney (10), Warner (38) e Universal (31) lançaram de longas nos cinemas no ano passado. Os três foram, respectivamente, os estúdios campeões de bilheteria do período que passou.

Isso dá dimensão do quão altas têm sido as apostas do serviço sob demanda para se firmar como potência cinematográfica. Na prática, isso fica claro com a recente adesão da Netflix à Motion Picture Association, organização nonagenária que reúne o seleto grupo dos grandes estúdios. 

“Roma”, de Alfonso Cuarón, coroa esse esforço. O longa faturou três prêmios no Oscar (direção, fotografia e filme estrangeiro) e quase levou o principal. Sinal dos tempos: a produção do streaming, que ninguém sabe quantas pessoas do mundo viram, competiu com o campeão americano de bilheteria, “Pantera Negra”.

Não são poucas as queixas sobre a falta de transparência na divulgação desse tipo de dado de audiência. A compreensão de alguns fenômenos pop, como o recente “Caixa de Pássaros”, passa pelo 
filtro do que a Netflix acha conveniente divulgar ou não.

Num raro caso em que a empresa se dispôs a informar números, disse que 45 milhões de usuários assistiram ao thriller com Sandra Bullock nos seus sete primeiros dias no ar. Mas isso é o que propala o serviço de vídeo sob demanda, e não um órgão independente.

Há que se levar em conta ainda que, para o serviço de vídeo sob demanda, se um usuário assistiu a ao menos 70% do conteúdo da obra, ela já é considerada como vista. 

No limbo dos números, pululam alguns feitos. O jornal The New York Times trouxe a história curiosa de como a primeira temporada da série de suspense “Você” foi um fiasco ao estrear no canal a cabo americano Lifetime Channel. Tanto é que, descontente com a audiência, a emissora voltou atrás com a ideia de rodar uma segunda temporada.

Três meses depois, contudo, “Você” foi adquirida pela Netflix e se tornou um fenômeno instantâneo no streaming. Ali, já tem a nova temporada assegurada, tendo encontrado nicho num público cada vez menos disposto a interromper sua rotina para sintonizar a televisão a uma certa hora.

O ano de 2019 deve se provar um divisor de águas nesse sentido. É quando vai ao ar, pela HBO, a última temporada de “Game of Thrones”, o grande fenômeno pop da década. 

E quando aquelas batalhas e intrigas palacianas enfim se resolverem, essa poderá ter sido a última vez que multidões pararam ao mesmo tempo para grudar os olhos numa série na televisão tradicional. 

De qualquer forma, a HBO, que não informou à reportagem números sobre sua programação em 2018, não é considerada uma ameaça à Netflix. Pelo menos, não é a maior ameaça, segundo a empresa de streaming deixou claro em seu mais recente relatório trimestral, publicado em janeiro. 

No texto, diz a companhia californiana, o maior rival hoje é o Fortnite, jogo eletrônico centrado num mote simples: ganha quem sobreviver nas lutas travadas numa ilha. O game se tornou febre especialmente entre pessoas com menos de 30 anos, “uma loucura com elementos de beatlemania”, diz a revista New Yorker. 

No último dia 2, a imprensa especializada cravou que o show virtual do DJ Marshmello na plataforma do Fortnite reuniu mais de 10 milhões de jogadores. Ao mesmo tempo.

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