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'Guerra Fria' mostra como obra engajada é mais palanque do que arte

Criação artística do bem é travestida de denúncia, de preferência explícita

Miguel de Almeida

"Guerra Fria", novo filme de Pawel Pawlikowski, conta bela história de amor entre um pianista e uma cantora no pós-guerra. Eles estão na Polônia de 1947, já sob o jugo da União Soviética, cujos tentáculos dominam todo o Leste Europeu. O líder supremo é Stálin, rematado psicopata, e seus crimes só chegarão a público décadas depois.

Premiado anteriormente com o Oscar pelo ótimo "Ida", a nova obra de Pawlikowski, ao se escudar na narrativa de uma história de amor em tempos conturbados, registra a construção stalinista do uso da arte pela política.

O diretor usa a montagem e o sucesso de um grupo folclórico, criado sob a escusa de levar ao mundo a alma polonesa, para mostrar a deturpação provocada pelos burocratas comunistas na feitura artística. Tudo em nome da causa, e a causa é a emancipação de todos os povos.

E em nome da causa tudo será permitido e tolerado.

Em certo momento de "Guerra Fria", o dirigente do partido pergunta à diretora artística do grupo se não poderiam incluir no repertório algumas músicas sobre reforma agrária e outras de loas ao líder supremo (adivinhou: Stálin).

Ela responde que as canções são de extração popular e portanto o povo não trata desse tipo de assunto. Mas é atalhada pelo diretor administrativo, membro do partido e carreirista convicto: sim, eles poderiam incentivar composições nessa direção. O diabo gosta de boas intenções.

A arte engajada não foi inventada pelo regime soviético, mas se tornou um instrumento de luta principalmente com a ascensão da esquerda comunista, em 1917. Logo no início do cristianismo, a Igreja Católica lançou mão da pintura como forma de catequese. Com boa parte da população iletrada, as imagens de motivos sacros ofereciam imediata comunicação em busca de devotos.

A arte engajada comunista não produziu nada de expressivo, exceto dor e desalento. Imagens de trabalhadores musculosos e determinados, romances esquemáticos ou poemas assemelhados ao conteúdo de autoajuda —produção de fôlego curto montada em imediata oposição ao experimentalismo e à ousadia.

Daí que no Brasil a esquerda comunista irá eleger o samba de morro e seus tamborins como seu carro alegórico em oposição ao rock e à guitarra, vistos como representantes do imperialismo capitalista.

Também por aqui a arte engajada não resultou em obras de tirar o fôlego. No tempo da ditadura, Chico Buarque, o melhor dos artistas entre quem vestiu de colt seus versos, perpetrou manifestos como "Apesar de Você" que, convenhamos, é de um primarismo capaz de envergonhar Djavan.

Sob as atuais guerras culturais, ou em seu nome (olha a causa aí, gente), a arte engajada tomou novas feições. É uma arte do bem. De tentativa de externar um mundo platônico, idealizado. A criação artística é travestida de denúncia —de preferência explícita. Temos enfim um mundo que só existe nos filmes, porque irreal. As narrativas se mostram contaminadas pelas cotas sociais e suas respectivas reivindicações. Isso é bom para palanque não para a arte.

Basta observar as reações a um enredo como o de "Roma". O filme traz um retrato melancólico da classe média. Como o diretor mostra uma convivência conflituosa, porém amorosa e terna, entre a empregada e patrões, muitos militantes do politicamente correto desqualificaram a história. Exigiram a presença da luta de classes escandida.

A arte engajada, agora na pele de guerra cultural, trabalha ainda com a clivagem. É, enfim, uma briga pelo poder. Veja-se o caso redivivo de se forjar uma tal literatura feminina. Balela. Existem bons e maus escritores, só isso. Sem distinção de sexo.

Para quem duvida, "Guerra Fria" mostra como essa história só causa desalento. E isso não é um bom samba.

Miguel de Almeida é editor, dirigiu os documentários ‘Não Estávamos Ali para Fazer Amigos’ e ‘Tunga’
 

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