Pussy Riot fala muito e canta pouco em show

Nadya Tolokonnikova grita 'Fora, Bolsonaro' e fica mais próxima do pop fofo do que do punk

Show da Pussy Riot
Show da Pussy Riot - Larissa Zaidan/UOL
São Paulo

Famosa por seu ativismo político, a banda Pussy Riot (revolta da xoxota) tocou neste sábado (20), em São Paulo, no festival Garotas à Frente, na Barra Funda. O que se viu, na verdade, não foi uma banda punk com guitarras e berros.

Nem chegou a ser uma banda propriamente, pois Nadya (ou Nadezhda, seu nome real) Tolokonnikova é a única das integrantes do coletivo original que veio ao Brasil. Na sexta (19), ela havia se apresentado no festival Abril pro Rock, no Recife.

Com ela havia apenas outra integrante no palco, que comandava bases eletrônicas, e duas dançarinas brasileiras convidadas. Nadya, por vezes com uma máscara de esqui no rosto, símbolo da Pussy Riot, pouco cantou. A maior parte das vozes era playback (pré-gravado).

A música está muito mais próxima do pop fofo de Lily Allen do que de uma banda de rock raivosa, com algumas exceções, nas quais a Pussy Riot parece voltar às bases punk. Essa escolha surpreendente, entretanto, tem uma base ideológica: resistir à opressão com extravagância e sorrisos, de forma lúdica, é a intenção de Nadya.

Outra escolha foi menos compreensível: a pedido de Nadya, a equipe de iluminação do Fabrique Club (capacidade para mil pessoas) não deveria ligar as luzes que a mostrassem. Durante toda a uma hora e meia de show, apenas a silhueta dos artistas era visível.

Mas, se ela nem cantou nem se mostrou, ela falou. Disse “Fora, Bolsonaro” quatro ou cinco vezes e manteve um cartaz que atentava para a morte de Marielle Franco ao seu lado.

Foi o bastante para uma boa parte da plateia, que enchia o lugar, se sentir representada. O público era formado por umas 700 garotas empoderadas e dançantes, que gritavam como mulheres, algumas delas arrastando seus homens para a festa feminista.

Ela escreveu também: na tela, às suas costas, protestos se sucediam durante as músicas. Em um letreiro inspirado na introdução dos filmes da série “Guerra nas Estrelas”, a Pussy Riot metia a boca: “Fuck you, dear pigs”, por exemplo (fodam-se, caros porcos).

Falando em inglês, Nadya contou que, na Rússia, estão proibidas canções sobre álcool e drogas, por ofenderem religiões, e que dúzias de músicos já foram presos. E que dar likes nas redes sociais ou publicar memes contrários ao regime pode dar prisão.

Nadya conhece a prisão russa. Em 2012, após invadirem uma igreja e cantarem contra o presidente Vladimir Putin, ela e a colega Maria Alyokhina passaram 21 meses encarceradas. Essa performance, gravada em vídeo e distribuída no YouTube, deu o pontapé inicial para a fama da Pussy Riot, associando-a à luta pela liberdade de expressão e pelos direitos da mulher.

Foram anistiadas, mas não se calaram. Na Copa do Mundo da Rússia, no ano passado, voltaram a protestar e a ter problemas com a polícia.

No ano passado, a banda fez o show mais lotado do festival americano South by Southwest e, agora, chegou a São Paulo após uma turnê latino-americana que incluiu Colômbia, Peru, Uruguai, Argentina e Chile.

Antes do grupo russo, o festival Garotas à Frente apresentou dois bons shows nacionais que agradaram: Bloody Mary, projeto de uma garota só, que tocou e cantou com energia de uma banda de cinco, e Sapataria, grupo punk que defende a causa lésbica.

O festival ainda contou com o lançamento de dois livros: “Pussy Riot - Um Guia Punk para o Ativismo Político”, da própria Nadya Tolokonnikova (ed. Ubu, 288 págs., R$ 49,90), e “Garotas à Frente”, da americana Sara Marcus (ed. Powerline Music & Books, 432 págs., R$ 59,90).

Por fim, uma exposição de cartazes celebrando o movimento feminista tomou conta das paredes do clube. Entre desenhos com a inscrição “meninas rebeldes mudam o mundo”, dois chamavam a atenção: eram guias passo a passo de sexo oral e de masturbação feminina.

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