Se a notícia é um alarme, alarmar pessoas não é irresponsável, diz jornalista

David Wallace-Wells participou de encontro realizado pela Folha, em São Paulo

Bianka Vieira
São Paulo

Pior do que está, fica, e o medo pode ser uma ferramenta importante para sensibilizar a sociedade para as mudanças climáticas que serão enfrentadas nas próximas décadas.

É o que defende David Wallace-Wells, jornalista americano e autor do recém-lançado “A Terra Inabitável: uma História do Futuro” (ed. Companhia das Letras).

Tachado por muitos como um pessimista contumaz, Wallace-Wells afirma que a perspectiva é importante para lembrar que nunca é tarde demais para agir. 

O jornalista norte-americano David Wallace-Wells durante palestra na Flip 2019, em Paraty, no Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress

“Se a notícia é um alarme, alarmar as pessoas não é irresponsabilidade, é uma forma responsável de contar a história”, disse. “A mudança climática não é só uma história triste sobre tudo aquilo que a gente vai perder. Também pode ser uma história incrível sobre o que fizemos para que o planeta se tornasse um lugar habitável.”

Wallace-Wells participou de encontro realizado na terça-feira (16) pela Folha e pela Companhia das Letras, no Centro Cultural São Paulo, ao lado do líder indígena Ailton Krenak.

Krenak assina o livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”. “É uma provocação sobre a possibilidade de nós agirmos enquanto há ainda algum tempo, mas com uma desconfiança muito grande se esse tempo vai ser suficiente para mudar hábitos, tendências e um elemento fundamental que é a cultura”, disse sobre o título escolhido para a obra recém-lançada, também pela Companhia das Letras.

No âmbito cultural, a crítica de Ailton Krenak dirige-se principalmente para práticas de consumo que, na sua visão, fazem com que pessoas não se atentem à origem das coisas e aos custos ambientais envolvidos em seu consumo.

“Como diz [o líder indígena] Davi Kopenawa, os brancos são a civilização da mercadoria, onde desde criança o sujeito aprende a comer o mundo sem nem pensar de onde vem”, disse Krenak ao citar o xamã ianomâmi. 

A conversa entre Ailton Krenak e David Wallace-Wells foi mediada pelo jornalista Marcelo Leite, colunista da Folha especializado em ciência e ambiente, e por Adriana Ramos, assessora do Instituto Socioambiental, o ISA. 

O jornalista endossou a necessidade de reorientação do padrão de consumo e avaliou que, se em 1992 a Conferência da ONU para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento foi um marco em termos de ganho de consciência para um desenvolvimento global mais sustentável, de lá para cá não houve progresso significativo.

“Sabendo do que a gente fazia, nós danificamos muito mais do que quando fazíamos na ignorância. Agora vemos o impacto desse aquecimento com incêndios e ondas de calor que impactam nossa vida”, disse. 

A este diagnóstico o autor atribui três causas: as ideias de que mudanças climáticas demoram décadas para acontecer, de que o derretimento de geleiras só afetará cidades litorâneas e que ainda há tempo para evitar o aquecimento global (quando, na verdade, ele já está em curso).

Em 2017, ao publicar na revista New York a reportagem que deu origem ao livro, Wallace-Wells foi criticado pelo tom alarmista adotado. Passados dois anos, hoje ele acredita que o mundo está mais receptivo ao seu discurso. “Nos últimos anos, associações científicas e ativistas começaram a entender essa perspectiva que eu tinha.”

“A narrativa de uma geração forma a próxima geração”, sintetizou Krenak. O líder indígena contou ao público presente que se tornou ativista quando, ainda menino, teve quadros de mal-estar pelo cheiro de borracha produzido por caminhões que se aproximavam da aldeia onde vivia. "Entrei nessa cruzada para convencer os brancos de que eles estavam abrindo uma fenda que ia enterrar todos nós.”

Durante o evento, Krenak ainda criticou o americano Elon Musk, presidente da empresa de foguetes SpaceX. “É inaceitável a ideia de que estejam planejando cápsulas para viajar para outros planetas. É a narrativa de que a Terra já deu. Não tem problema você encher o oceano de plástico porque tem água na Lua e gelo em Marte”, disse. 

A TERRA INABITÁVEL

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IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO

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