Música latino-americana vira nova onda global e domina festivais europeus

O faturamento do mercado fonográfico latino cresceu 16% no último ano, maior alta do planeta

Felipe Maia
Barcelona

A hora marcada havia passado em 20 minutos quando o porto-riquenho Bad Bunny enfim subiu ao maior palco do Sónar 2019, festival realizado no fim de julho em Barcelona.

Era algo incomum. Não o atraso que, embora comprometesse a agenda de shows, parecia até previsto pela organização e tolerado pelo público disperso num espaço equivalente a três campos de futebol. 

A novidade era ver o novo astro do pop latino-americano como estrela de um evento europeu que, desde sua primeira edição, em 1994, se gaba de apresentar uma tal “música avançada” —lema do Sónar desde sua fundação.

Bad Bunny não estava sozinho. O Sónar deste ano teve 150 apresentações e um décimo delas foram de artistas da América Latina. Era o caso do set xamânico do duo peruano Dengue Dengue Dengue, do burlesco obscuro do artista venezuelano Arca ou do downtempo matemático do equatoriano Nicola Cruz. 

Em outros festivais de peso da Europa, a presença de países das Américas também não se resume ao público. Pela primeira vez, seis brasileiros se apresentaram no Tomorrowland, na Bélgica —Alok, Anitta e MC Fiotti estão na lista. 

A DJ e produtora Badsista tocou num dos palcos do gigantesco Glastonbury, no Reino Unido, repetindo o feito de Marky, Patife e Dolores em 2005. O Dekmantel, festival holandês, teve seis apresentações latino-americanas. No ano passado, foram só a DJ Cashu e o duo Selvagem, ambos do Brasil.

O elenco do Dekmantel é também um provável reflexo das declarações de Valesuchi, DJ chilena radicada no Rio de Janeiro. No início do ano, a artista publicou um texto em que apontava a ausência de artistas latino-americanos no line-up do festival. Mas o fator relevante para o avanço da onda latina nos festivais da Europa reside nos números. 

Segundo o mais recente relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica, o faturamento do mercado latino-americano de música cresceu 16% no último ano. Esta é a maior alta em todas as regiões do planeta, e o Brasil apresenta a maior elevação entre os dez países mais importantes na indústria. 

De acordo com a consultoria Chartmetrics, centros urbanos como São Paulo, Santiago e Cidade do México são enormes usinas de acesso a vídeos e músicas no Spotify e no YouTube, a frente de metrópoles como Nova York ou Londres. 

Os mesmos smartphones e computadores conectados à internet que favorecem esse consumo podem ser também centros de produção —agora, com uma vitrine global organizada em playlists e plataformas especializadas por gêneros, como o site Boiler Room. 

Para uma região de tradicional fertilidade musical, isso resulta em uma onda que marca presença no catálogo de agentes, produtoras e selos. É algo que não pode ser ignorado por programadores de festivais europeus.

Bad Bunny, circulando entre o pop e o underground, personifica essa tomada do velho continente. No YouTube, ele soma quase 2 bilhões de visualizações em só duas parcerias com os rappers Drake e Cardi B. No Instagram e sobre o palco, ele interrompe o perreo (música e estilo de dança que lembra a “sarrada” do funk) para fazer discursos políticos que seriam mais dados a artistas independentes. 

Em sua lírica ora romântica, ora áspera, o artista une trap, a face mais eletrônica do rap, e reggaeton, uma das mais prolíficas reapropriações do hip-hop. É uma “nova religião da gangue latina”, como ele diz numa de suas letras.

“Quando decidimos chamar o Bad Bunny, eu vi todos os seus vídeos e me converti completamente”, explica Georgia Taglietti, membro do conselho diretor do Sónar. “A expressão cultural do seu código musical é muito maior do que poderia ser, e ele tem de jogar em diferentes culturas.”

Outra prova de que a Europa mira mais uma vez as Américas e o Caribe é ouvir produtores locais revisitando gêneros do sul do planeta sem pinta de exotismo, embora debates sobre dominação cultural possam surgir. 

Durante o Sónar, o baile funk do DJ português Brankko não parecia algo tão distante àqueles ouvidos já acostumados com “Bum Bum Tam Tam”. No mesmo festival, a espanhola Bad Gyal levou ao palco seu dancehall com Auto-Tune —proposta diametralmente oposta aos melismas da mais nova estrela catalã, a cantora Rosalía

Na contramão do trajeto sul-norte, festivais europeus não se mostram inclinados a dar continuidade a projetos antigos na América Latina. 

O Tomorrowland teve uma edição brasileira há três anos e nunca mais voltou ao país. O Dekmantel Brasil teve duas versões no Brasil nos primeiros trimestres de 2017 e 2018 e por enquanto não anunciou uma versão para este ano. Taglietti afirma que o Sónar não deve voltar ao Brasil, apesar de duas edições realizadas em São Paulo em 2012 e 2015.

“Acredito que a música urbana latina ganhou o direito de ter essa prevalência no mundo de agora, independentemente das tendências”, explica ela. “Desejo que isso não seja uma moda.”

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