'Hoje sou uma estrela, amanhã um buraco negro', diz Marina Abramovic

A artista retornou a Belgrado, sua cidade natal, para sua primeira mostra lá em quase 50 anos

Andrew Dickson
The New York Times

Era difícil determinar se Marina Abramovic conseguiria ou não almoçar. Ela mal havia se acomodado no restaurante quando foi interrompida por um admirador emocionado que correu para pedir um selfie ao lado dela. Momentos depois de servir o prato principal, o garçom voltou para pedir um autógrafo.

Em seguida chegou uma mensagem de um fã que havia entregado 44 garrafas de conhaque no apartamento da assistente de Abramovic —uma para cada ano transcorrido desde que a artista montou sua última exposição em Belgrado, sua cidade natal.

Abramovic parecia triunfante. "E eu nem bebo!", ela disse.

mulher de cabelos pretos posa para a foto
Marina Abramovic no Museu de Arte Contemporânea, em Belgrado - Marko Risovic/NYT

O retorno da artista a Belgrado depois de quase meio século foi um evento. Por toda a cidade, outdoors anunciam a retrospectiva de Abramovic que começou no Museu de Arte Contemporânea, mostrando a artista montada em um garanhão branco (uma imagem de "The Hero", trabalho em vídeo que ela realizou em 2001).

No sábado (21), o dia da abertura da mostra, o rosto dela estava na primeira página de quase todos os jornais nacionais da Sérvia. Ela também estava presente nos telejornais, sendo avaliada por comentaristas com um apetite em geral reservado ao futebol e a reportagens sobre corrupção política.

Embora tenha admitido que a atenção tornava qualquer refeição pública um desafio, Abramovic parecia estar curtindo a situação. "Estar em Belgrado de novo me faz sentir todas aquelas emoções", ela disse. "Estou tentando não me comover, mas sem muito sucesso."

A mostra, intitulada "A Limpadora", é um retorno ao lar de muitas maneiras. Maior retrospectiva já montada sobre a obra de Abramovic, ela envolve mais de 120 obras que datam de a partir da metade dos anos 1960. Depois de estrear no Moderna Museet, de Estocolmo, em 2017, a mostra percorreu a Dinamarca, Noruega, Alemanha, Itália e Polônia, antes de chegar à Sérvia, sua parada final.

No caminho, deu causa tanto a críticas respeitosas quanto a escândalos em número suficiente para criar animação. Em março, manifestantes católicos na Polônia formaram piquetes diante do local de exposição, indignados diante do que viam como imagens satânicas (uma acusação que Abramovic negou ressabiadamente). Mais de meio milhão de pessoas viram a mostra até o momento.

Em Belgrado, a mostra parece ser um lembrete de uma era em que Abramovic gerava manchetes com a ferocidade vital de sua arte, em lugar de, por exemplo, suas brigas incompreensíveis com Jay-Z.

Os visitantes entram ouvindo o som de disparos de uma metralhadora, de peça acústica de 1971. Do lado de dentro, os gritos e grunhidos guturais de Abramovic ecoam, emanados de filmes em branco e preto mostrando algumas de suas primeiras performances.

A coleção permanente do museu foi removida e armazenada na íntegra para a exposição e uma equipe de artistas "re-performáticos" locais foi formada para reconduzir à vida os passados eus de Abramovic.

Na noite da abertura, uma jovem acomodada a uma cadeira perto do foyer gritava "a arte precisa ser bonita, o artista precisa ser bonito", em tributo a uma peça de 1975 de Abramovic que levava esse título.

No piso superior, dois artistas —uma mulher, um homem, com seus longos cabelos trançados juntos— reencenavam um trabalho de 17 horas que Abramovic realizou em 1977 com seu parceiro e colaborador constante Ulay, "Relação no Tempo".

Talvez felizmente, não foi realizada qualquer tentativa de reencenar a mais notória das performances da artista em seus anos em Belgrado, "Ritmo 5", um trabalho de 1974 no qual ela primeira vez tentou levar a resistência de seu corpo ao limite e além dele. Para a peça, a artista se posicionava dentro de uma estrela de madeira em chamas, e reza a lenda local que quase morreu asfixiada.

"Um amigo nosso teve de arrancá-la de lá", recordou Jerko Denegri, crítico sérvio que assistiu a muitas das performances iniciais de Abramovic. "Não muita gente compreendia o que ela e os outros artistas da época queriam fazer com esse tipo de arte."

Abramovic explicou que ela havia decidido chamar a mostra de "A Limpadora" por diversas razões. Uma delas é sublinhar os obsessivos rituais de limpeza que muitas vezes emergem em seu trabalho. Também é uma maneira de atar pontas soltas. "Realmente adoro a ideia de limpar o passado, limpar a memória", ela disse. "É uma metáfora física e mental, mas também espiritual."

Nascida em Belgrado em 1946, Abramovic passou seus primeiros 29 anos na cidade, que era a capital da Iugoslávia. Ainda que tenha descrito sua infância como "desolada", crescendo à sombra de pais que eram heróis de guerra condecorados e membros influentes do governo comunista, Abramovic encontrou uma maneira de se rebelar.

Depois de estudar pintura em Zagreb, ela se uniu ao grupo de artistas provocativos, com influências punk, que se congregavam no Centro de Estudantes de Arte de Belgrado.

Uma de suas primeiras peças conceituais (infelizmente não realizada) envolvia enviar uma frota de jatos da força aérea iugoslava para voar em formações que ela criou. "Ligaram para o meu pai —ele era general na época— e disseram que 'ela é completamente louca, você sabe quanto isso custaria?'", recorda Abramovic.

Mais tarde, outro artista, Era Milivojevic, decidiu envolver Abramovic, deitada na mesa de uma galeria, em fita adesiva, algo que parece a ter inspirado a deixar as esculturas e a arte sonora que vinha produzindo e começar a usar seu corpo.

De acordo com Denegri, esses primeiros esforços de arte performática altamente experimental na Europa Oriental deitaram as sementes aquilo que Abramovic viria a fazer mais tarde. "O cenário na Iugoslávia era muito dinâmico e internacional", ele disse. "A formação dela, a educação dela aqui, determina o rumo de sua vida inteira."

Mas Abramovic sempre teve horizontes mais amplos em vista, e em 1975, se mudou para Amsterdã. Nos anos que se seguiram, a carreira dela a conduziu à Austrália, Brasil, China, Japão e muitos outros países —bem como a Nova York, o local de sua maior realização artística, "The Artist is Present", e sua atual base de operações (ocasionalmente). Ela só voltou aos Bálcãs para visitas passageiras, disse, acrescentando que "por muito tempo, não era bem-vinda".

Para a Sérvia, atrair Abramovic de volta —algo que requereu a intervenção do primeiro-ministro do país— é uma forma de sinalizar um recomeço. O Museu de Arte Contemporânea, onde a exposição está sendo realizada, ficou mais de uma década fechado para reforma, um embaraço para um país que se orgulha de seu passado cultural.

Mas desde a reabertura do museu, em 2017, há uma sensação de que Belgrado está redescobrindo seu lado artístico, com a ajuda de um mercado em expansão para galerias de arte e da bienal Salão de Outubro, que no ano passado recebeu obras de Yoko Ono, Cindy Sherman, Olafur Eliasson e Anselm Kiefer.

"A mostra de Marina mudará tudo", disse Slobodan Nakarada, diretor interino do museu.

O objetivo dele é atrair 150 mil visitantes nos próximos quatro meses —mais do que o museu recebeu em todo o ano de 2018. Ele disse esperar que muitos desses visitantes sejam jovens sérvios, que tiveram poucas oportunidades de ver obras da artista viva mais famosa do país.

"Demoramos 44 anos para conseguir que ela voltasse para casa", disse Nakarada. "Temos de aproveitar ao máximo a oportunidade."

Abramovic disse que sente emoções contraditórias sobre o retorno. Embora encare a mostra como uma volta para casa, ela continua a se sentir nômade como sempre. E mesmo que a exposição seja uma retrospectiva de sua carreira, ela insiste em que não é uma despedida. "Vou morrer trabalhando", ela disse diversas vezes.

No mês que vem, ela voará a Los Angeles para começar os ensaios de "Seven Deaths", uma ópera inspirada pela vida de Maria Callas cuja estreia foi adiada diversas vezes e que deve ter sua première em Munique em abril. Em setembro de 2020, outra grande exposição de Abramovic começará na Real Academia de Artes de Londres.

Os planos para um instituto permanente dedicado à arte performática foram abandonados. Um plano para converter um antigo teatro no vale do rio Hudson fracassou dois anos atrás e os financiadores do projeto foram informados de que mais de US$ 1,7 milhões (cerca de R$ 7,7 milhões) em doações já haviam sido gastos e não seriam restituídos. Nas palavras do jornal The New York Post, "a artista está presente, mas o dinheiro sumiu".

sala de museu
Mostra 'A Limpadora', de Marina Abramovic, em Belgrado - Andrej Isakovic/AFP

Mas Abramovic se declarou otimista quanto à busca de um lar para seu arquivo, talvez em Atenas. "Eu gostaria muito de encontrar um lar para isso", ela disse.

Depois, ela afirmou que precisava de uma pausa, talvez na Índia ou em um mosteiro tibetano. "Preciso realmente me distanciar de meu público a fim de criar", ela disse. "O público consome."

Mas em uma entrevista coletiva lotada, realizada na manhã no dia da abertura, Abramovic parecia infatigável como sempre. Lidou tranquilamente com questões em sérvio dos jornalistas sobre assuntos díspares como canções folclóricas dos Bálcãs, suas posições sobre o feminismo e suas rotinas de cuidados pessoais (esta última de uma edição local da revista Hello!, de fofocas sobre celebridades).

Quando perguntada se considerava que sua celebridade conflitava ocasionalmente com seus objetivos artísticos —um tópico que poderia ter causado reação desfavorável—, Abramovic não pareceu se incomodar.

Parando apenas para lançar um sorriso irônico, ela passou a falar em inglês e respondeu com uma linha de Woody Allen: "Hoje sou uma estrela, amanhã um buraco negro".

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