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Cinema

Filmes de Fellini ganharam outras marcas de lirismo graças à música de Nino Rota

Difícil pensar em qualquer sequência de obra felliniana sem que os sons do milanês venham à cabeça

Se o cinema herdou, no século 20, a função social que vinha sendo cumprida pela ópera, não é despropositado encarar as partituras do milanês Nino Rota para os filmes de Federico Fellini como seguidoras da tradição de Rossini, Verdi e Puccini.

Menino-prodígio, Rota começou a compor aos oito anos, e teve seu oratório “A Infância de São João Batista” tocado em Milão e Paris aos 12 anos. Porém, em sua época, a bola da vez na música erudita, especialmente na Europa, eram as correntes de vanguarda, que produziam e pregavam música atonal.

A melhor vazão para seu idioma francamente tonal, e ancorado no passado, acabou sendo as trilhas de filmes. Material originalmente pensado por Rota para as salas de concerto foi constantemente reutilizado no cinema, onde essa música finalmente encontrou público e funcionalidade.

O maior destaque nessa área foi sua parceria com Fellini, para o qual criou a trilha sonora de todos os filmes entre “Abismo de Um Sonho”, de 1952, e “Ensaio de Orquestra”, de 1979.

Em muitas dessas criações, a música de Rota parece desfrutar de um protagonismo quase tão decisivo quanto o de Marcello Mastroianni ou Giulietta Masina. 

Incorporando a rítmica e os timbres do jazz e das músicas populares de seu tempo à paleta orquestral, Rota acompanhou a evolução estética do cineasta, das obras marcadas pela ligação com o neorrealismo, na década de 1950, na direção de uma poética cada vez menos comprometida com a linearidade. Nisso, acrescentou novas camadas de lirismo, ambiguidade e ironia mais nostálgica do que mordaz ao universo onírico de Fellini.

Difícil pensar em qualquer sequência de obra felliniana sem que os sons de Rota venham à cabeça. Lembremos o papel crucial da música na narrativa fragmentada de “Oito e Meio”, ou o ambiente saturado de “A Doce Vida”, em que os personagens fogem do silêncio para fugir de si mesmos, em frenética obsessão sonora. Ou, ainda, do ecletismo variegado de “Amarcord”, que o levou a ser definido como “ópera cinemática italiana”.

Rota colaborou com outros diretores de destaque. Basta pensar no lírico e arcaizante tema de amor de “Romeu e Julieta”, de Zeffirelli; na grandiosidade sinfônica de “O Leopardo”, de Visconti; ou na dicotomia entre rural e urbano de “Rocco e Seus Irmãos”, do mesmo cineasta —paralelo que voltaria a explorar em “O Poderoso Chefão”, de Coppola.

A grande simbiose criativa contudo, foi com Fellini —diretor ainda iniciante ao cruzar o caminho de Rota, oito anos mais velho e que já havia escrito dezenas de partituras. 

Retrato de Federico Fellini - Calle Hesslefors/Getty Images

“Eu tinha decidido ser diretor, e Nino já existia como premissa para que continuasse a fazê-lo”, afirmou. O cineasta dizia ainda que não gostava de ouvir música —só quando estava trabalhando com Rota, e este mostrava, ao piano, sugestões de temas para seus filmes.

Já o compositor teria o hábito de adormecer quando lhe mostravam trechos do filme para o qual deveria escrever a música. Porém emergia, subitamente, com sons que pareciam capazes de transmitir o inefável. Não por acaso, no funeral de Fellini, a música que se tocou foi de Nino Rota.

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