Florence Pugh, atriz que disputa Oscar por 'Adoráveis Mulheres', vive conto de fadas hollywoodiano

Aos 24 anos, a estrela de 'Adoráveis Mulheres' e 'O Mal Não Espera a Noite' pode fazer você acreditar no impossível

Reggie Ugwu
Nova York | The New York Times

Florence Pugh cresceu em uma família batalhadora e não acredita em contos de fadas. Houve momentos na sua vida, contudo, em que ela se sentiu como um personagem de um livro.

Quando tinha nove ou dez anos ela trabalhava com a mãe no jardim de sua casa em Oxford. Pugh sofria de uma doença respiratória que a mantinha fora da escola por longos períodos. Em casa, quando não estava estudando ou tentando cambalhotas no quintal, ajudava a mãe nas tarefas domésticas ou no jardim, arrancando ervas daninhas e preparando o solo.

Certo dia, a mãe de Pugh, professora de dança, decidiu que deveriam ler “O Jardim Secreto” (Cia. das Letras, 344 págs., R$ 42,90), que conta a história de uma menina adoentada, uma casa solitária e um jardim mágico. Por muito tempo depois, Pugh ficou com a sensação de que sua vida também poderia ser mágica. Parecia que ela havia escorregado para as páginas do livro ou emergido delas.

Nos dois últimos anos, trabalhando como atriz e morando em Londres, Pugh, aos 24, voltou a ter a sensação de conto de fadas —e isso se repetiu posteriormente. “O que está acontecendo é estranho”, ela afirmou enquanto tomávamos um chá numa recente manhã chuvosa em Greenwich Village. Mas, sim, coisas estavam acontecendo, e como.

No segundo trimestre de 2018, por exemplo, Pugh, que jamais havia trabalhado em um filme produzido nos Estados Unidos, ouviu rumores de que “os rei e rainhas de Hollywood" estavam se reunindo para fazer um filme.

O longa era a nova adaptação de Greta Gerwig para “Adoráveis Mulheres”, que contrataria Saoirse Ronan e Timothée Chalamet, que já trabalharam com a diretora em “Lady Bird – A Hora de Voar”, Meryl Streep e três jovens atrizes de primeira linha que ainda não haviam sido selecionadas.

Naquele momento, Pugh já tinha assinado contrato para um elenco muito diferente —o filme de terror neopagão “O Mal Não Espera a Noite  Midsommar”, do ano passado— e não imaginava que seu nome pudesse ser considerado.

Mas antes de as filmagens começarem, ela recebeu um telefonema e foi informada de que Gerwig e sua produtora, Amy Pascal, queriam uma reunião com ela. Pouco depois, a atriz recebeu o convite para o baile real.

Com três papéis de impacto em 2019 —em “Adoráveis Mulheres”, “O Mal Não Espera a Noite – Midsommar” e “Lutando pela Família”, um sucesso sorrateiro no qual ela intercepta uma jovem britânica de classe trabalhadora que se torna estrela da luta livre na WWE, Pugh ascendeu rapidamente do quase anonimato ao seu status atual como uma das atrizes mais aclamadas de sua geração.

Em maio, ela interpretará uma super-heroína em “Viúva Negra”, da Marvel, com Scarlett Johansson e Rachel Weisz.

Em sua curta carreira, Pugh demonstrou alcance notável. Assistir aos seus filmes de 2019 em sequência —uma antitrilogia de desempenhos tão precisos quanto inconciliáveis –é uma experiência desconcertante.

O rosto aberto e em formato de coração da atriz, com um nariz e queixo que ela emprega como instrumentos cortantes, parece capaz de infinita modulação e desliza por um vasto espectro de emoções humanas como se acionado por um botão.

Ari Aster, diretor e roteirista de “O Mal Não Espera a Noite – Midsommar”, no qual Pugh interpreta uma universitária pesarosa que renasce em uma viagem com um mau namorado, me disse ter ficado espantado com a versatilidade que ela demonstrou no papel. “Para uma atriz que não tem treinamento clássico, os instintos dela são formidáveis. Acredito que seja capaz de interpretar qualquer papel”,  ele disse. 

Por ainda não ser muito conhecida, a versatilidade que Pugh demonstrou em seus filmes chega a enganar os espectadores, que não reconhecem todos seus papéis como trabalhos de uma mesma atriz. “Já conversei sobre filmes com pessoas que nem faziam ideia de que eu trabalhei neles. Adoro isso. Para mim, ser atriz é isso. A sensação é de que, ótimo, funcionou”.

Gerwig, que adiou a rodagem de “Adoráveis Mulheres” para que Pugh pudesse concluir seu trabalho em “O Mal Não Espera a Noite – Midsommar”, me disse que precisava de alguém capaz de convencer ao mostrar a nova visão que ela criou para a personagem Amy March, a mais jovem e, historicamente, a mais odiada das irmãs que protagonizam o filme.

Por 150 anos, March, que valoriza sua aparência e não esconde sua aspiração de se casar com um homem rico, foi retratada como vilã em contraposição à espirituosa e rebelde Jo March, uma heroína literária imortal interpretada no filme por Ronan.

A atriz Florence Pugh em Nova York, aos 24 anos
A atriz Florence Pugh em Nova York, aos 24 anos - Jingyu Lin/The New York Times

O roteiro de Gerwig, tal como interpretada por Pugh, desordena essa dinâmica. Vemos March como uma espécie diferente mas não menos admirável de heroína, determinada a aproveitar ao máximo as cartas que recebeu.

“Encontrei indicações no livro de que Amy e Jo tinham estatura igual, mas jamais a vi explorada dessa maneira. Eu sabia que não havia outra pessoa capaz de fazer isso a não ser Florence. Ela é uma estrela de cinema, isso fica claro, mas também faz muito bem os personagens secundários, o que faz dela o melhor tipo de estrela de cinema”, afirmou Gerwig. 

Pugh é a segunda de quatro irmãos e cresceu em uma casa “maravilhosamente barulhenta e criativa”, repleta de artistas. Seu irmão mais velho, Toby Sebastian, trabalhou em “Game of Thrones” como o príncipe Trystane Martell, e sua irmã Arabella Gibbins é atriz de teatro, comediante e professora de interpretação vocal.

“Se você não gritasse, não era ouvido”, disse Pugh sobre o ambiente de sua casa. Se as condições no começo não lhe pareciam ideais, agora parecem. “Sou muito teimosa e determinada”, confessou com um meio sorriso travesso.

Ela acrescenta que embora algumas pessoas do ramo a definam como “combativa”, ela prefere outro termo. "Adoro uma briga”, brincou.

Na época em que descobriu “O Jardim Secreto”, Pugh já sabia que a única coisa que tinha vontade de fazer era trabalhar no palco.

Seu primeiro papel que recorda foi aos seis anos, interpretando Maria em uma peça natalina na escola. Pugh decidiu seguir seus instintos e fez o papel usando um sotaque de Yorkshire. A brincadeira causou risos (ainda que talvez não da parte da diretora da instituição), e ela percebeu que gostava de cativar uma audiência.

Stephen Merchant, o roteirista e diretor de “Lutando pela Família”, disse que a confiança de Pugh ao rodar as cenas de luta o impressionou. Por conta de dificuldades de agenda, eles tiveram de filmar a cena mais importante no terceiro dia de rodagem, o que significa que as primeiras cenas rodadas por alguns integrantes do elenco aconteceriam diante de 20 mil torcedores entusiásticos da WWE.

Merchant estava preocupado até ver a primeira tomada de Pugh. “Dava para acreditar que era Dwayne lá. A música tema tocou e ela entrou no ringue com a maior frieza. Foi espantoso”, ele disse, se referindo a Dwayne “The Rock” Johnson, o musculoso ator e antigo astro da WWE, um dos produtores do filme. 

No segundo grau, em Oxford, Pugh tinha dificuldades para manter o foco nas aulas que não envolviam artes, como redação criativa e cerâmica, que representavam apenas uma pequena fração de sua carga horária. “Não acho que fui feita para a escola. Eu só queria atuar, fazer música e fazer cerâmica”, falou ela.

Em seu tempo livre, a artista gravava vídeos que a mostravam tocando covers de seus músicos favoritos no violão, como Tracy Chapman e Damien Rice, e postava no YouTube sob o nome Flossie Rose.

Nos vídeos, ela aparece usando o uniforme das adolescentes no começo da década de 2010 —cabelo vermelho, maquiagem de gato, um bracelete de contas— e a expressão em seu rosto é a de uma pessoa muito mais experiente do que sua idade indicaria —mais para estrela saída da aposentadoria do que jovem em busca de sua primeira chance.

O pai de Pugh, que trabalhou em um restaurante e depois se tornou empresário, sempre encarou com simpatia os esforços criativos da filha —“ele é como eu: se você não quer fazer, não faça”, disse Pugh, embora tenha seguido o conselho da mãe e terminado a escola. A essa altura, já tinha conseguido seu primeiro papel no cinema, em “The Falling”, um drama sobre uma escola feminina inglesa, e depois disso não parou mais.

A atriz Florence Pugh em Nova York, aos 24 anos
A atriz Florence Pugh em Nova York, aos 24 anos - Jingyu Lin/The New York Times

A diretora de elenco Shaheen Baig escalou depois Pugh para mais dois trabalhos essenciais: o drama de época “Lady Macbeth”, no qual ela estrela como uma jovem noiva subordinada, com apetites ocultos, e “Lutando pela Família”.

“É raro encontrar alguém dessa idade que pareça tão confortável na própria pele. Não há medo ou vaidade, e o que você propõe a ela não a intimida”, afirmou Baig.

Não foram contos de fadas que conduziram Pugh ao seu momento atual, e sim uma história de boa sorte e determinação.

Quando Baig e a diretora Carol Morley estavam escalando o elenco de “The Falling”, consideraram mais de 200 jovens para os dois papéis principais e os demais personagens da escola feminina fictícia.

Inicialmente restringiram suas buscas a Londres, mas depois as estenderam a Oxford (onde parte das filmagens aconteceriam), colocando cartazes pedindo vídeos de teste nas escolas da cidade.

Muitas das amigas de Pugh, que como ela jamais tinham participado de testes para um filme real, se entusiasmaram com a ideia. Mas Pugh, contrariando seu zelo artístico habitual, ignorou os cartazes. Ela tinha aprendido com as experiências de seu irmão que “no fim eles sempre escolhem alguém famoso”, contou.

No último dia para apresentar vídeos de teste, a mãe dela interferiu. Disse a Pugh que deveria gravar um vídeo —não por acreditar em milagres, mas como uma questão prática de investir em sua carreira.

“Se você quer fazer isso a sério um dia. Por que não tentar?”, questionou sua mãe. 

Tradução de Paulo Migliacci

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