WhatsApp e Instagram dão o tom dos novos hits sertanejos, como 'Tijolão'

Sofrência passou a refletir nas letras as mudanças que ocorreram nos relacionamentos atuais

São Paulo

“Quem nunca teve um fake pra vigiar, stalkear seu ex?”, brinca Isabella Resende, uma das autoras do hit mais recente de Marcos & Belutti, “@Isa”. Entre sanfonas e violões, a música fala de uma mulher que “sabia absolutamente tudo” sobre a vida do ex-namorado —quem ele beijou, onde frequentou.

“Você não superou o fim do nosso amor/ Foi só te bloquear, ganhei um seguidor/ Já está manjado esse perfil falso/ Seguidores você só tem 30/ Pensa que eu não sei?/ A dona desse fake é minha ex”, diz a letra da faixa, que foi a 20ª mais tocada nas rádios em janeiro.

A música, diz Isabella —homenageada pelos compositores no título da faixa—, surgiu depois que um amigo disse estar desconfiado de que estava sendo seguido por um fake. 

“Não foge em nenhum segundo à realidade. É a história de ex-namorados, em que uma das partes cria um fake para seguir a vida da outra. Quem terminou, no caso, bloqueou essa outra pessoa. E, mesmo assim, ela deu um jeito de bisbilhotar.”

Relacionamentos obsessivos ou uma pessoa que persegue o ex-namorado depois de não superar bem um término não são novidade na música sertaneja. Mas “@Isa” faz parte de uma onda de canções que têm como tema os namoros na era digital. 

Se antes a perseguição era física, agora vem na forma de um perfil de origem duvidosa, com apenas 30 seguidores e fotos pouco convincentes.

Já foram lançadas “Notificação Preferida”, de Zé Neto & Cristiano (“Foi, mas não é mais, a minha notificação preferida”), “Áudio”, de Diego & Victor Hugo (“Tô gravando esse áudio pra dizer que não dá mais”) e “Online”, de Gusttavo Lima (“Tá mandando mensagem pra quê? O online sem resposta é resposta”).

E ainda “Rapariga Digital”, de Naiara Azevedo (“Essas rapariga digital nunca vão superar uma mulher real”) e por aí vai —“Bateria Acabou”, “Digitando…”, “Sem Rede”, “Senha do Celular”, “Status que Eu Não Queria”, “Touchscreen”...

A citação de aplicativos e redes sociais já aparece no sertanejo há alguns anos. “Presto Pouco”, um arrocha de andamento acelerado de 2015, traz João Neto & Frederico cantando que “o WhatsApp tá bombando, estourei no Instagram”.

Mas, para Junior Gomes, compositor de hits, esse movimento só ficou relevante há cerca de um ano e meio.

Com um refrão que não faria o menor sentido 15 anos atrás, “Notificação Preferida”, de Zé Neto & Cristiano foi um marco. Mesmo lançada em 2018, foi a segunda música mais executada em shows em 2019, segundo o Ecad, e passa de meio bilhão de views no YouTube.

“Foi uma das precursoras. O linguajar é popular, e botamos essa parte da notificação no meio. Entrou na mente do povo”, diz Gomes, um dos autores da música, que também participou das composições de “Áudio” e “Online”. “Depois do hit, vários artistas queriam a ‘Notificação 2’. É uma virada no mercado.”

Atualmente, dá para dizer que essa é a temática favorita entre os sertanejos, junto à onipresente bebedeira. Com toques de bachata, “Bebi Minha Bicicleta”, de Zé Neto & Cristiano, consegue misturar as
duas coisas e, não por acaso, foi a música mais ouvida nas rádios em janeiro e teve quase 500 mil acessos diários no Spotify.

O eu lírico aceita perder tudo, menos a possibilidade de se conectar com a amada. “Bebi minha bicicleta/ Bebi minha TV/ Só não bebo o meu celular/ Porque preciso ligar pra você.”

O ápice desse movimento é “Tijolão”, hit de Jorge & Mateus que incorpora a angústia masoquista da hiperconectividade. Ela narra a incapacidade de não abrir a rede social e se deparar com os sorrisos da ex —feliz após o término.

“Se eu ver mais um vídeo seu/ Sem eu, sendo feliz/ Certeza que a minha vida vai estar por um triz”, diz o refrão. A solução? Trocar o celular por um Nokia antigo, do tipo “tijolão”, “que só manda mensagem e faz ligação”. 

“Essa internet virou arma na sua mão”, é o desabafo final.

Vine Show, que é um dos autores de “Notificação Preferida” e de “Live”, de George Henrique & Rodrigo, lembra que o telefone e as ligações sempre foram presentes na música sertaneja —de “Alô”, de Chitãozinho & Xororó, a “Ligação Urbana”, de Bruno & Marrone.

“A comunicação sempre existiu na construção da música”, diz. “O que mudou foi a forma de comunicação. Hoje, não é só ligação, tem vários meios.”

Na prática, o farto acesso à internet em smartphones trouxe uma comunicação multimídia e ilimitada, além da comunicação indireta —likes, feed— das redes sociais. 

Nos exemplos citados por Vine Show, lançados entre os anos de 1999 e 2003, a saudade é gerada tanto pela distância física quanto pela insuficiência de uma ligação para amenizar a dor do eu lírico.

A letra direta —como as que simulam uma ligação nas músicas de Chitãozinho & Xororó e Bruno & Marrone—, é o que sustenta “Áudio”, de Diego & Victor Hugo. “Foi uma ideia do [compositor] Benício [Neto], que sugeriu fazer uma música com isso, já que todo mundo grava áudio hoje em dia”, diz Gomes, coautor da faixa.

A ideia, ele diz, era retratar uma pessoa tentando não voltar com a outra, mas mudando de ideia, desistindo de enviar o áudio e recomeçando novamente. “Deu aquela velha recaída no meio do áudio.”

Assim como “@Isa”, sobre o perfil fake do ex, há outras canções com personagens que só existem neste contexto. A “Rapariga Digital” cantada por Naiara Azevedo é a mulher desejada na rede social. Um dia, ela pega celular do namorado e vê uma conversa dele com uma “piriguete de internet”.

Há músicas sobre relacionamentos na era digital também em outros gêneros. O pagodão “Contatinho”, de Léo Santana e Anitta, é uma das mais tocadas.

Também há funks como “Cobiçadas do Twitter”, do MC Rick. Mas nada se compara ao sertanejo, em que há mercado de compositores ativo e sedento por temas que apelem a um público mais amplo possível.

“O artista só quer uma música boa, que faça o povo cantar, ir ao show. Não precisa ter tema específico”, diz Isabella Resende. Vine Show chama essa tendência de “sucesso mochila”: “Uma música vira hit e vai levando outras nas costas. Até aquilo se esgotar, e a galera ir atrás de outras formas de se comunicar com o público.”

Para Isabella, esse tipo de letra não vai morrer, mas se renovar. “Só que as histórias vão ser contadas de forma diferente. Até porque, cada dia que passa, estamos mais online”. Junior Gomes concorda: “Hoje a gente faz de tudo pela internet. Inclusive namorar.”

Erramos: o texto foi alterado

O nome de uma das autoras de "@Isa" é Isabella Resende, e não Isabella Ribeiro. O texto foi corrigido

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