Sob Bolsonaro, Cultura fica abandonada e Congresso tenta suprir deserto de ideias

A pasta, que já passou por quatro titulares, vive um novo momento de impasse, com a saída da atriz Regina Duarte

Brasília

A indefinição do governo Jair Bolsonaro sobre uma política nacional de cultura levou o Congresso a tentar preencher esse vazio e a aprovar projeto que destina a estados e municípios recursos para serem usados em ações para salvar o setor na crise do coronavírus.

O projeto é um dos poucos a materializar a preocupação do Legislativo com o impacto da crise econômica nos artistas e espaços destinados a ações culturais.

Chamada de Lei Aldir Blanc, em homenagem ao compositor que morreu recentemente de Covid-19, a proposta cria uma renda emergencial a profissionais da área, prevê subsídios a centros culturais e destina recursos para editais públicos.

Jair Bolsonaro durante reunião com o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e ex-secretária Regina Duarte - Isac Nóbrega/PR

Pelo texto, a União terá de transferir R$ 3 bilhões a estados e municípios para que apliquem nos três eixos de socorro à cultura.

Segundo a deputada Jandira Feghali, do PC do B do Rio de Janeiro, relatora do projeto aprovado, há uma "orfandade nacional de política cultural hoje".

"A agenda vai partir das unidades federadas e vai acabar empurrando para a construção de uma política nacional", diz.

A decisão de descentralizar os recursos e aprovar a verba para cultura foi uma das poucas respostas do Congresso à falta de medidas do governo federal para socorrer a cultura na pandemia, em meio ao caos que se encontra a secretaria que trata do setor.

A pasta, que já passou por quatro titulares, vive um novo momento de impasse, com a saída da atriz Regina Duarte.

Escolhida por Bolsonaro para comandar a área da cultura do governo, a atriz já teve sua saída anunciada.

Regina passou por um processo de desgaste desde que entrou no governo, em março deste ano, e não conseguiu anunciar medidas.

Mesmo anunciada por Bolsonaro como demissionária, ela permanece oficialmente como secretária.

Sob o comando da atriz, a Cultura sofreu uma intervenção da deputada Carla Zambelli, do PSL de São Paulo, que tem ditado regras no setor a pedido e sob aval de Bolsonaro, seguindo as ordens de manutenção da guerra cultural, defendida pelo escritor e ideólogo do bolsonarismo, Olavo de Carvalho.

Embora a Câmara tenha aprovado o texto na semana passada, há a necessidade do crivo dos senadores. Por último, o texto vai à sanção de Bolsonaro, que pode impor vetos às medidas.

A falta de reação do Legislativo é atribuída justamente à desorganização do Executivo de Bolsonaro na área cultural.

Congressistas dizem que, sem uma política nacional, fica difícil definir prioridades para o setor. Até o momento, das 1.246 propostas apresentadas para combater os efeitos da pandemia no país, só seis tinham como objetivo apoiar a cultura —uma delas o projeto relatado por Jandira.

Autor de um dos projetos, o deputado Felipe Carreras, do PSB de Pernambuco, afirma que a cultura, um dos primeiros setores a parar na crise, será possivelmente o último a voltar.

Segundo ele, falta atuação do Estado para ajudar as empresas que atuam na área a recuperarem parte do prejuízo que têm.

A proposta de Carreras busca compensar as empresas que tenham cancelado eventos por causa da pandemia.

Elas terão prazo de até 12 meses para reembolsar consumidores pelo valor pago e não precisarão devolver a taxa de conveniência, por exemplo.

Ainda segundo o deputado, coube ao Legislativo propor esse tipo de medida na ausência de uma diretriz federal sobre o assunto.

"A Secretaria da Cultura não existe, a ex-secretária [Regina Duarte] tem uma atuação folclórica. O Parlamento busca, então, uma ferramenta de apoio para essa classe", diz.

Ex-ministro da Cultura, o deputado Marcelo Calero, do Cidadania do Rio de Janeiro, é da mesma opinião.

Mesmo sem concordar integralmente com o projeto relatado por Jandira, ele afirmou que decidiu engrossar a estratégia de consolidar iniciativas voltadas para o setor.

Calero atribui a escassez de projetos federais de apoio à cultura ao "obscurantismo intransponível do governo".

"Eles consideram a cultura, por contestar a ordem vigente, propor novas ordens estéticas e formular novas proposições sobre o mundo, como um adversário a ser abatido", diz.

Para ele, há uma miopia do Executivo federal que prioriza a economia.

"O setor pode funcionar como eixo estratégico de desenvolvimento para geração de emprego e renda, turismo cultural. Mas nada disso é visto", afirma.

Desde que assumiu o governo, Bolsonaro não tem demonstrado apreço pela área cultural.

Pela pasta, reduzida a secretaria, passaram quatro titulares e há a perspectiva de que o ator Mário Frias ex-galã de "Malhação"— seja o próximo escolhido para o cargo.

Desde então não houve anúncio de medidas relevantes e os recursos para o setor estão contingenciados, como o Fundo Nacional de Cultura e o Fundo Setorial do Audiovisual.

Nem o presidente nem a Secretaria Especial da Cultura têm manifestado solidariedade e reconhecimento de nomes de relevo da área cultural no Brasil.

Durante a pandemia da Covid-19, o país perdeu nomes como Aldir Blanc, Rubem Fonseca e Moraes Moreira. Nenhuma nota ou pronunciamento de lamento foi divulgado pelo governo.

Bolsonaro se elegeu com discurso anti-PT e antiesquerda e, sob esse argumento, costuma classificar de comunistas todos os nomes ligados ao setor cultural.

Por esse motivo, Regina teve vários de seus escolhidos para a equipe barrados pelo Palácio do Planalto, que tem aplicado um filtro ideológico para aceitar as nomeações.

Primeiro titular a ocupar a Secretaria Especial da Cultura, Henrique Pires deixou o governo no ano passado alegando ter sofrido censura por parte do então ministro Osmar Terra, à época titular da Cidadania, à qual a pasta estava vinculada.

Na sequência houve outros escândalos, como a gestão de Roberto Alvim, que deixou o governo em janeiro após ter publicado um vídeo parafraseando um ministro da Alemanha nazista.

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