Museu Paulista quer pôr em xeque heróis bandeirantes de suas obras ao reabrir

Local embarca nos debates que derrubaram estátuas no ano passado ao se preparar para reinauguração em 2022

São Paulo

Quando o Museu do Ipiranga fechou para reformas, há oito anos, talvez ninguém ali imaginasse a alta voltagem dos debates atuais. O mundo para o qual a instituição deve reabrir suas portas se tudo der certo até o ano que vem, quando se celebram dois séculos da Independência, é um tomado pela derrubada furiosa de estátuas e um revisionismo histórico aflorado à esquerda e à direita do espectro ideológico.

É à luz dessas brigas que o museu agora prevê criar intervenções para contextualizar as figuras de bandeirantes e a representação de indígenas em seu acervo, pondo em xeque o suposto heroísmo desses velhos monumentos.

Também conhecida como Museu Paulista, a instituição tem telas e estátuas que contam a história de São Paulo com símbolos bandeirantes, caso de uma escultura de mármore que retrata Raposo Tavares e imagens de índios vistos como bárbaros ou submissos.

Além disso, uma das exposições mais famosas ali faz parte do chamado eixo monumental, que é tombado. Isso significa que a mostra —que ocupa o salão nobre e as escadarias até a tela “Independência ou Morte”, de Pedro Américo— não pode ser alterada.

A proposta da equipe do museu é que, na reabertura prevista para o bicentenário da Independência, em setembro de 2022, as 54 pinturas e nove esculturas que estão no eixo monumental sejam acompanhadas de intervenções com textos e vídeos para contextualizar as produções e provocar as contradições, debates e polêmicas que elas suscitam.

“Essas obras foram imaginadas para a reinauguração do edifício no centenário da Independência [em 1922]. A exposição tinha uma finalidade principal, que era narrar a história do Brasil do momento do contato entre as populações indígenas e os europeus”, conta Paulo Garcez Marins, professor e curador no museu.

“Essa narrativa tem peculiaridades. Uma delas é mostrar um protagonismo da história paulista em relação ao resto do país. E uma segunda é hierarquizar a narrativa, em que as elites brancas tinham hegemonia em relação a outros agentes da sociedade, e isso aparece em várias obras”, afirma o professor.

Segundo ele, o desafio é fazer com que o público se aproxime desse monumento como um documento sobre 1922. “A gente tem que converter aquilo que era uma visão de memória enaltecedora e hierarquizadora para ser entendida como verdade para algo que desafia o visitante hoje.”

O museu está fechado desde 2013, quando foi detectado risco de deslocamento do forro da estrutura e rachaduras no prédio. Além do restauro, a obra prevê uma ampliação, com uma nova entrada, auditório e mais salas.

Mas, nesse tempo em que tudo ficou parado ali, houve o assassinato do americano George Floyd em 2020 e uma onda de protestos do Black Lives Matter que movimentou o debate sobre monumentos que homenageiam escravocratas.

Garcez Marins afirma que o projeto do museu ganhou força nesse contexto.

Estátuas chegaram a ser derrubadas, como a que homenageia um traficante de escravos em Bristol, no Reino Unido, e causaram mudanças em instituições artísticas.

O British Museum removeu a peça de um de seus fundadores, que era proprietário de escravos, e afirmou que a decisão era em parte em função dos protestos antirracistas.

Já o MoMA, em Nova York, decidiu reorganizar sua exposição para incluir mais minoriasposição semelhante à da Pinacoteca, em São Paulo. Garcez Marins afirma, no entanto, que o debate sobre
monumentos vem ocorrendo em São Paulo nos últimos anos, já que boa parte dessas obras fazem referência, por exemplo, aos bandeirantes.

Mesmo fechado para os visitantes, o museu recebeu grupos num processo de escuta para rever suas exposições.

Denise Peixoto, historiadora e educadora da instituição, conta que eles se reuniram com cerca de 20 grupos com demandas diferentes —professores, crianças, LGBTs, indígenas, autistas, cegos e monarquistas são alguns deles.

Os encontros viraram material para pensar as intervenções e mudanças no lugar. “O papel do museu é inserir, contextualizar e trazer a crítica”, diz a educadora. Nos materiais que estarão nos espaços, ela exemplifica, haverá dados como o número de mortos e escravizados por bandeirantes.

Segundo ela, os encontros são uma tentativa de trazer para o espaço do museu essas outras vozes da sociedade que não contaram a história de São Paulo há cem anos.

Peixoto lembra que, além dos equipamentos multimídia e textuais, ainda em produção, o museu pretende promover debates em torno de questões contemporâneas.

“Obras [sobre bandeirantes] estão nas entradas, nos edifícios. O que a gente vai fazer? Derrubar a cidade inteira?”, questiona Garcez Marins. “Temos que enfrentar essa materialidade, discutir, superar e a tornar um ponto para que a sociedade se transforme, tome consciência de seus dramas, diversidade e diferenças.”

São Paulo - Território em Construção

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