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João Gilberto era mais doidão generoso do que um gênio ranzinza, mostra biografia

Luiz Galvão, dos Novos Baianos, lança obra íntima sobre o músico que dustribuía grana e chamava maconha de Nelson

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O músico João Gilberto fotografado em 1970

O músico João Gilberto fotografado em 1970 Michael Ochs Archives/Getty Images

São Paulo

Um personagem bem diferente emerge das páginas de “João Gilberto, A Bossa”. O gênio musical exigente e recluso está ali, mas também um homem simpático, brincalhão, meio doidão até, e muito generoso com os amigos.

O livro apresenta um João Gilberto que pode ficar cinco horas conversando numa única ligação telefônica, que simplesmente enche uma sacola com dinheiro vivo para dar a um amigo, ou que pede ajuda aos mais chegados para comprar maconha, que ele chama de Nelson. Sim, no mundo dele, “sair para encontrar o Nelson” tem outro significado.

Lançado pela editora Lazuli, é o primeiro livro sobre João Gilberto escrito por alguém que realmente era íntimo do músico. No caso, outro baiano, também nascido em Juazeiro. Luiz Galvão, integrante dos Novos Baianos e principal letrista do grupo, conhece João desde criança.

Os dois tiveram vidas entrelaçadas muito cedo. João Gilberto, o artista que revolucionou no Brasil o jeito de cantar e tocar violão, teve suas primeiras aulas do instrumento com Dagmar, irmão de Galvão. Assim, a família de Luizinho, como João sempre chamou o autor do livro, teve participação fundamental na história da MPB.

Galvão não fez uma biografia tradicional. Já publicou uma sobre os Novos Baianos, ótima. Começando a escrever o livro em 1999, o poeta quis relatar episódios vividos com o amigo, incluindo a juventude em Juazeiro, a acolhida carinhosa que João deu aos Novos Baianos quando o grupo foi para o Rio de Janeiro, nos anos 1970, e também os shows do cantor que acompanhou.

O volume é, também, um estudo esmiuçado da técnica vocal e instrumental de João. Num capítulo, Galvão analisa música por música um show de João em São Paulo. E as explicações são do próprio intérprete. Galvão acompanhou o cantor ao hotel, depois do show, onde ouviram e comentaram a gravação da apresentação, outra mania de João revelada no livro.

Mas, para os fãs não familiarizados com técnica musical, o que interessa mesmo são os inúmeros casos descritos no livro, alguns de morrer de rir. Além dos escritos de Galvão, o livro traz depoimentos de amigos, entre eles dois outros Novos Baianos, Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira.

A edição final do livro ficou com Janete Galvão, mulher de Luiz, que passa por um momento delicado de saúde. Então, Paulinho abre a boca de cantor para falar da obra, e de João.

“A coisa principal desse livro, além das histórias engraçadas, é mostrar que a bossa nova é o João Gilberto”, defende Paulinho. “Parece que a bossa nova tem muitos ‘pais’, mas o verdadeiro é João, que tocou os sambas e os clássicos brasileiros de outra maneira. Depois vieram Carlos Lyra, Roberto Menescal, o próprio Tom Jobim, que incorporaram o que João criou.”

As histórias que Paulinho conta, como ele e o João saindo de um hotel em Nova York, carregando malas e caixas numa madrugada de neve atrás de outro lugar para dormir, mostram tanta parceria e falta de cerimônia entre eles que não combina com o perfil de gênio recluso, exigente e ranzinza.

“O João era difícil. Mas, como o Galvão fala no livro, para entender o comportamento e as reações do João você precisa ser discípulo. Ele era realmente um guru. Um cara que ensinava aos outros o tempo todo, sempre de uma maneira bem humorada, um cara generoso.”

Inúmeros exemplos estão no livro. Fica entendido que o artista não era adepto de deixar dinheiro no banco. Sem ter planejado antes, dava dinheiro vivo a amigos. Quando soube dos problemas financeiros do percussionista Charles Negrita, que tocou com os Novos Baianos, pediu que ele fosse a sua casa e trouxesse uma sacola vazia. João a encheu de dinheiro e disse para Negrita comprar uma casa.

Galvão e Paulinho já viveram a mesma situação. Um dia Galvão contou que sua mulher ficava muito tempo fora de casa pelo longo trajeto de transporte público de casa ao trabalho e, na hora, João encheu um saco plástico com dinheiro para que ele comprasse um carro para ela.

“Ninguém nunca pedia, ele sentia a situação, era uma percepção misteriosa”, conta Paulinho. “Quando ele nos visitava no apartamento dos Novos Baianos no Rio, logo dava muito dinheiro para que a gente comprasse comida no mercadinho 24 horas que tinha ali perto. Ele sempre se preocupou com o nosso jeito de viver.”

Quase tudo relatado no livro aconteceu de madrugada, período em que João Gilberto vivia com intensidade. Uma dessas aventuras contribuiu para a MPB. Num passeio de carro com alguns baianos, João estacionou perto da entrada de um morro, e todos desceram para ver o nascer do sol, entre eles Moraes Moreira.

Dali a pouco, uma morena bonita, elegante, desceu o morro e passou por eles, provavelmente indo ao trabalho. João viu a mulher e disse “lá vem o Brasil descendo a ladeira”. Moraes ficou com a frase na cabeça, achando que daria um samba. E deu, o recente clássico da MPB que leva esse nome.

Os momentos mais engraçados do livro são os episódios com drogas. Não só com o Nelson. João pouco bebia e não gostava de cocaína, mas consumiu LSD e se interessou por ayahuasca. E tem uma história ruim, mas divertida, com cogumelos alucinógenos.

No Rio, com alguns amigos em casa, pediu um abacate batido com açúcar. Antes de tomar, resolveu experimentar os cogumelos que estavam num saco plástico na cozinha. Devorou o saco inteiro, e então bebeu a vitamina de abacate. O resultado foi terrível, com João dando um pequeno vexame ao passar muito mal. Mas, convencido pelos amigos, acusou um culpado pelo transtorno. “Foi o abacate! Foi o abacate”, repetia sem parar.

Perfecionista, exigente, reclamão, mas também boêmio, divertido e generoso, o personagem de “João Gilberto, A Bossa” é o retrato mais abrangente do gênio.

João Gilberto, a Bossa

  • Autor Luiz Galvão
  • Editora Lazuli
  • Quanto R$ 34,90 (ebook); 244 págs.
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