Entenda crise no Masp, de veto a evento de Boulos e fotos do MST a demissões

Primeira curadora indígena do museu pediu demissão; museu nega censura e propôs retomada de núcleo, aceita pelas organizadoras

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São Paulo

O Masp, principal museu do país, enfrenta uma crise após o cancelamento de um evento de lançamento de livro do Guilherme Boulos, do PSOL, e depois da decisão de duas curadoras de cancelarem um núcleo da maior mostra do ano na instituição, "Histórias Brasileiras".

Após a repercussão, o museu voltou atrás e propôs retomar o núcleo e atrasar a abertura da mostra, o que foi aceito pelas curadoras num documento encaminhado à instituição com sugestões de mudanças na condução da exposição. O retorno definitivo dessa parte da mostra foi confirmado pelo Masp nesta segunda (13).

Fotografia de 1996 de André Vilaron, que estaria em núcleo cancelado de mostra no Masp
Fotografia de 1996 de André Vilaron, que estaria em núcleo cancelado de mostra no Masp - André Vilaron/Divulgação

Foi no começo deste mês que Sandra Benites, curadora-adjunta que acaba de pedir demissão após o caso, e Clarissa Diniz, curadora convidada da instituição, informaram que cancelariam o núcleo denominado "Retomadas". O motivo, segundo elas, foi um veto do museu a um conjunto de fotos do MST que constituiria o cerne deste núcleo.

O museu afirma ter recebido a relação desse material da curadoria com pouco menos de três meses de antecedência da abertura da mostra, prevista para julho, o que extrapola os prazos para a execução de procedimentos como a solicitação do empréstimo das fotos e a cessão do uso de imagens. Também nega que a ação seja censura de conteúdo.

Já as curadoras afirmam que não foram informadas sobre essa data máxima definida pela instituição. Num email enviado aos artistas comunicando o cancelamento do núcleo, elas disseram que "apesar do cuidadoso trabalho realizado, para a nossa surpresa, o Masp não concordou com a integral inclusão da representação das 'Retomadas' pelo suposto descumprimento de um prazo que não nos foi informado pela produção ou pela curadoria do museu".

"Impedidas de levar adiante nosso acordo com o Movimento Sem Terra, seus fotógrafos e Edgar Kanaykõ como sanção a um erro que sabemos não ter cometido, nos sentimos desrespeitadas, injustiçadas e instadas, em consequência de tal decisão, a trair a confiança deste que não é só o maior movimento social do Brasil, como também é a coluna vertebral do 'Retomadas'", justificaram elas no mesmo email.

Em meio a essas controvérsias, houve ainda a saída de pelo menos duas pessoas da produção, um envolvido no acervo da instituição e do curador-chefe, Tomás Toledo, ainda que nenhum dos pedidos de demissão estejam relacionados com os dois episódios recentes.

A pergunta que paira nesse embate, e que fez o museu voltar atrás e propor a retomada do núcleo vetado, é se os dois casos apontam para um processo de censura dentro do Masp. Segundo funcionários e ex-funcionários de setores diferentes da instituição ouvidos pela reportagem, a resposta é não.

Eles apontam, no entanto, uma equipe de produção sobrecarregada e funcionários de várias áreas descontentes com os salários, bem como uma série de atrasos e falhas de comunicação na montagem de "Histórias Brasileiras". A mostra de grandes proporções reunirá 300 obras escolhidas por 12 curadores —toda a equipe curatorial do museu e convidados.

Abaixo, entenda o caso ponto a ponto.

Por que o núcleo "Retomadas" da mostra "Histórias Brasileiras" foi cancelado e por que o Masp voltou atrás

As duas curadoras que organizavam o núcleo decidiram cancelar o projeto no começo deste mês após o Masp não aprovar o uso de seis fotografias do MST e de movimentos indígenas.

No email enviado aos artistas que integravam o "Retomadas", elas já haviam afirmado que o museu alegou que o conjunto não poderia integrar a mostra porque foi requisitado após o prazo estipulado pelo museu para o empréstimo das obras. Elas afirmam, no entanto, que não foram informadas dessa data máxima definida pela instituição, o que o museu nega.

A curadora e antropóloga Sandra Benites
A curadora e antropóloga Sandra Benites - Mathilde Missioneiro - 12.dez.2019/Folhapress

Num posicionamento público após a publicação da primeira reportagem sobre o caso, elas detalharam que o cronograma de "Histórias Brasileiras" como um todo estava atrasado havia meses e que, preocupadas com o atraso da instituição de formalizar os empréstimos, chegaram a pedir reunião com a produção.

Elas ainda argumentaram que o conjunto de imagens era central para o argumento da exposição, e por isso resolveram cancelar o núcleo como um todo.

"Impedidas de levar adiante nosso acordo com o Movimento Sem Terra, seus fotógrafos e Edgar Kanaykõ como sanção a um erro que sabemos não ter cometido, nos sentimos desrespeitadas, injustiçadas e instadas, em consequência de tal decisão, a trair a confiança deste que não é só o maior movimento social do Brasil, como também é a coluna vertebral do 'Retomadas'", justificaram ainda no email.

Após a repercussão negativa do veto das fotografias, o museu anunciou uma proposta de adiar a exposição "Histórias Brasileiras" para incluir as fotografias.

Em nota, o museu disse que está aberto para "ouvir Benites e Diniz, com a finalidade de aprendermos com essa experiência e aprimorarmos processos e modelos de trabalho".

"Nesse sentido, caso as curadoras concordem, propomos adiar a abertura da exposição e reorganizar o seu cronograma para que possamos incluir o núcleo 'Retomadas' na mostra. Outra medida que estamos propondo é a realização de um seminário público durante a exposição sobre o núcleo 'Retomadas' com a participação das curadoras", afirmaram no comunicado.

As curadoras aceitaram a proposta da instituição de retomar o projeto na exposição. Em carta encaminhada a instituição, as curadoras afirmam que aceitam a proposta do museu com a permanência das fotografias de André Vilaron, Edgar Kanaykõ Xakriabá e João Zinclar, que foram anteriormente excluídas do núcleo.

Elas propõe, no entanto, mudanças na condução do núcleo, como nos direitos autorais envolvidos na mostra e na ampliação da gratuidade de entrada no museu.

Os fotógrafos, contudo, não aceitaram que suas imagens sejam incorporadas ao acervo do Masp —o museu havia se disponibilizado a comprá-las. Os três artistas propõem que a instituição, ao invés de adquirir as obras, faça impressões das fotos em tamanho de pôster e distribua o material gratuitamente para os visitantes de "Histórias Brasileiras".

O Masp confirmou o retorno definitivo no núcleo nesta segunda (13), mas ainda não há detalhes de quais sugestões das cudoras foram acatadas pela instituição.

O que diz o Masp sobre isso

A instituição disse em nota que recebeu a relação desse material com pouco menos de três meses de antecedência da abertura da mostra, o que extrapola os prazos para a execução de procedimentos como a solicitação do empréstimo das obras e a cessão do uso de imagens.

O padrão do Masp é de quatro a seis meses, e essa informação constava no contrato das curadoras, dizem representantes do museu, acrescentando ainda que o prazo foi reiterado a elas numa reunião.

"No entanto, o museu conseguiu atender sim um dos pedidos das curadoras, de maneira excepcional, para incluir as obras pertencentes ao acervo do Movimento Sem Terra, um total de sete cartazes e documentos. O que não foi possível incluir foram seis fotografias de três fotógrafos. Embora esse material representasse o eixo central do núcleo, ele foi entregue ao museu fora do prazo", acrescenta a instituição.

Eles ainda afirmaram que outras obras da instituição também chegaram a não ser aprovadas por terem extrapolado o prazo.

"Não se trata então de uma restrição em termos de conteúdo, mas sim única e exclusivamente de cronograma institucional", afirma o museu, que também nega relação do evento com o cancelamento do lançamento de livro de Guilherme Boulos.

Qual foi a reação do meio artístico

Dezenas de nomes de peso das artes apoiaram a atitude das curadoras de cancelar o núcleo, uma tomada de posição em conjunto rara de acontecer no meio.

Jonathas de Andrade, artista que representa o Brasil na Bienal de Veneza, e Douglas de Freitas, curador de Inhotim, postaram emojis de coração e mãos batendo palma na seção de comentários do Instagram de Diniz. Hélio Menezes, um dos curadores da próxima Bienal de São Paulo, também defendeu a dupla de curadoras nas redes sociais.

Depois do cancelamento —que também prejudicou dezenas de artistas que esperavam ser exibidos— Cildo Meireles, um dos mais importantes artistas em atividade, retirou da mostra suas três obras.

O que houve em relação ao evento com Guilherme Boulos

O lançamento do livro "Sem Medo do Futuro", de Guilherme Boulos, do PSOL, que aconteceria também no Masp, foi cancelado pela instituição também no começo do mês.

Na ocasião, o museu disse ao UOL, que revelou o caso, que o evento não estava de acordo com as suas diretrizes, que proíbe manifestações políticas. "O lançamento precisou ser cancelado por não estar de acordo com o Artigo 2, Parágrafo Terceiro do estatuto social do Masp, que expressa a 'vedação à realização de quaisquer manifestações de caráter político e/ou religioso', impossibilitando que o museu atue como sede de qualquer tipo de evento relacionado a esses temas", disse.

​A editora do livro, a Contracorrente, ainda assim lembrou que a equipe já havia feito visitas técnicas, assinado a minuta contratual e até mesmo iniciado a divulgação do lançamento.

Ainda não ficou claro por que a instituição aceitou fazer o evento se ele já descumpria o regulamento, mas funcionários acreditam que tenha sido erro de avaliação da equipe que aprovou o pedido da editora.​ O museu não quis comentar esse ponto.

Do que se trata essa mostra

"Histórias Brasileiras" é a maior mostra do Masp deste ano e ocupará dois andares do museu com suas mais de 300 obras. A exposição conta com 12 curadores. O museu afirma que, dada a dimensão da mostra, é necessário mais rigidez e disciplina com relação a todas as instâncias e que os organizadores de todos os núcleos da mostra estavam cientes disso. Diz ainda que outros curadores também tiveram de cancelar empréstimos. ​

Por que a curadora Sandra Benites pediu demissão

Sandra Benites pediu demissão do Masp após o museu vetar um conjunto fotografias do Movimento Sem Terra e, como justificativa, reforçou um descontentamento geral com a posição que ocupava, já que não se sentia convidada a integrar projetos curatoriais do espaço. "Histórias Brasileiras" seria o primeiro projeto assinado por ela após dois anos no cargo de curadora-adjunta.

Além disso, ela disse à instituição que sua presença no Masp parecia estar mais a serviço de uma imagem de um museu diverso do que por um interesse em seu trabalho propriamente. Benites considerou desrespeitosa a maneira com que ela e Clarissa Diniz foram tratadas na produção de "Histórias Brasileiras".

À Folha, a curadora afirma que ainda não deve comentar o pedido de demissão em detalhes, mas ressalta que "entrou pelo mesmo motivo que saiu". "Aceitei o convite para poder somar com o que já foi construído. Para mim não faz sentido que eu continue sem poder ampliar o debate."

Em comunicado sobre a saída de Benites, o Masp diz lamentar mas respeitar a decisão da curadora.

Sobre outras demissões recentes no museu

Pelo menos duas pessoas da produção, uma do acervo e o curador-chefe, Tomás Toledo, que estava na instituição havia sete anos, saíram de lá recentemente, mas nenhum dos pedidos de demissão têm relação com a crise envolvendo a mostra e o evento com Boulos.

O que pessoas relacionadas à instituição reforçam em reportagem da Folha é que as equipes do museu, além de estarem sobrecarregadas, ganham salários que estão aquém do nível de responsabilidade e de volume de trabalho que é exigido. O museu se defende, dizendo que "procura praticar salários compatíveis com o mercado e com outras instituições brasileiras".

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