Entenda a onda de censura a cenas gays no cinema, de 'Lightyear' a 'Dr. Estranho'

Ascensão de mercados conservadores, como China e Emirados Árabes, põe em risco a diversidade LGBTQIA+ nas telas

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Buzz Lightyear, à esquerda, e Alisha Hawthorne, personagem lésbica do filme 'Lightyear', da Pixar Divulgação

São Paulo

"Lightyear", "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo", "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", "Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore" e "Eternos". O que esses filmes têm em comum, além de datas de lançamento recentes?

Beijos e romance, como em quase qualquer outra produção de Hollywood. Mas aqui, eles acontecem entre personagens do mesmo sexo, o que provocou a fúria de censores em diversos países nos quais os filmes acabaram banidos ou picotados.

O caso mais recente é o da nova animação da Pixar, sobre o patrulheiro espacial Buzz Lightyear, que chega aos cinemas nesta semana. A trama tem uma personagem lésbica, que já no início aparece casando, tendo um filho e beijando sua mulher –algo inédito num longa animado da Disney.

Por isso, não recebeu autorização para estrear em ao menos uma dúzia de países, como os Emirados Árabes Unidos, o Egito e a Indonésia, e, segundo as expectativas do setor, também deve ser barrado na China, que há dois anos se tornou o maior consumidor de cinema no mundo.

Essa expansão do mercado cinematográfico chinês e de outras nações conservadoras é justamente o que preocupa realizadores no Ocidente. À medida que os grandes estúdios se tornam mais dependentes dos lucros vindos de lá, mais difícil será mostrar em seus filmes temas considerados tabu ou proibidos em outras culturas –abrindo margem, então, para a autocensura.

É o que indica um longo estudo do órgão pela liberdade de expressão Pen America, "Made in Hollywood, Censored by Beijing", que mostrou como grandes estúdios têm aceitado dinheiro chinês, permitido que autoridades façam visitas aos sets de filmagem e editado cenas para agradar o Partido Comunista. Apesar de a homossexualidade ter sido descriminalizada nos anos 1990, há uma campanha em curso para livrar as telas chinesas de conteúdo "vulgar, imoral ou insalubre", que contempla de personagens LGBTQIA+ a cenas de estupro.

Para Ging Cristobal, coordenadora para a Ásia do OutRight Action International, órgão que combate a discriminação a pessoas LGBTQIA+ e que atua como consultor da ONU, a autocensura se tornou hoje um obstáculo para que se veja mais diversidade nas telas, com diretores e produtores reduzindo o espaço de personagens coloridos, se antecipando a barreiras que podem encontrar em mercados como o chinês.

"É uma estratégia de negócio, uma jogada capitalista às custas de dar visibilidade apropriada para a população queer", diz ela. "Os estúdios precisam vender, mesmo que isso signifique fazer cortes nas obras em alguns mercados, o que gera um impasse –nós deixamos de apoiar esses filmes ou relevamos essas decisões?"

Estúdios têm lidado de formas diferentes com o fantasma da censura. Ainda não está claro o que a Disney fará caso "Lightyear" seja barrado na China, mas é importante lembrar que o estúdio só liberou o beijo lésbico depois que funcionários protestaram para mantê-lo na animação, na esteira da polêmica reação da empresa à lei da Flórida que limita discussões de gênero e sexualidade nas escolas.

Em junho do ano passado, Mês do Orgulho LGBTQIA+ como agora, a subsidiária Pixar ainda lançou "Luca", longa sobre a amizade entre dois garotos que foi visto por muita gente como um romance –os personagens falavam sobre não serem aceitos pela sociedade e até a paleta de cores seguia a da bandeira do orgulho gay. Mas o estúdio deu pouca importância à conversa.

Por outro lado, a Disney se recusou a baixar a cabeça para os censores e fazer cortes em outros de seus blockbusters recentes. Foi o caso de "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura" com sua heroína America Chavez, que tem duas mães, de "Eternos", com seu herói gay e pai de família, e de "Amor, Sublime Amor", que tem um jovem trans. Todos dispensaram o lançamento em países da região do Golfo, como Kuwait e Qatar.

Ali na vizinhança, nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita, no entanto, um problema de maior porte vem se apresentando. Se hoje o mundo árabe tem pouca relevância para os dados internacionais de bilheteria, pesquisas indicam que o cenário deve mudar até 2030, quando se espera que essas duas nações conservadoras assumam posições na lista dos dez maiores mercados cinematográficos do globo.

"Eu acredito que os estúdios vão continuar incluindo representatividade queer em seus filmes, porque eles sabem que precisam do ‘pink money’ [lucro vindo de consumidores LGBTQIA+] em países com comunidades queer mais livres e fortes. Mas em outros locais haverá cortes, o que é um desserviço, e de maneira geral, um freio no tamanho da diversidade que vemos", afirma Cristobal.

Ao contrário do que fez a Disney, a Warner Bros., por exemplo, não viu problema em lançar "Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore" na China depois que autoridades locais cortaram cenas do filme que mencionavam um romance entre o bruxo Alvo Dumbledore e o vilão Gerardo Grindelwald. A relação, supostamente, está no coração da trama, já que seu rompimento abrupto transformou os amantes em rivais, mas apesar dos pedidos dos fãs, ganhou poucos segundos explícitos de tela.

Nisso, "Animais Fantásticos" e os outros longas mencionados se assemelham bastante –a presença de personagens e discussões LGBTQIA+ é sempre secundária. Eles não estão no centro das tramas, são detalhes muitas vezes pouco explorados. Claro, ter um super-herói da Marvel casado com um homem ou um garoto abertamente trans na adaptação de um dos maiores musicais da Broadway é um avanço, mas ainda tímido.

"Ao falar em representatividade, precisamos tomar cuidado para não cairmos no ‘tokenismo’ [um esforço superficial, meramente simbólico, para parecer inclusivo]. Infelizmente é isso que mais temos visto no cinema hollywoodiano", diz João Federici, programador do Mill Valley Film Festival e do Mix Brasil. "Hollywood, como sabemos, sempre foi muito conservadora, opressora e excludente. Ao descobrirem as vantagens financeiras da representatividade, passaram a usar vários personagens LGBTQIA+ sem significado algum."

Para ele, que torce para que a influência de mercados conservadores não se avolume, apesar de estarmos falando de um negócio que visa o lucro, o cenário só vai mudar mesmo após uma mudança "radical", com representatividade invadindo também os bastidores das produções.

Afinal, independentemente dos casos recentes de censura e banimento, ainda há relutância em fazer filmes com orçamentos do tamanho dos da Marvel inteiramente centrados em personagens queer.

Com a ascensão de mercados conservadores, o caminho até esse ideal deve ficar mais longo e tortuoso –até porque, reforça Ging Cristobal, "somos normais, e não deveríamos deixar os estúdios nos colocarem numa mesa de negociação só para acomodar, encorajar e preservar estruturas discriminatórias".

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