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Tiago Ferro

Réplica: Danuza Leão é mitificada por privilégio que reproduz a barbárie

Com obituário vazio, Ruy Castro confunde elitismo com coragem e omite como a casa-grande está na base do bolsonarismo

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Tiago Ferro

Crítico literário e autor do romance "O Pai da Menina Morta” (Todavia), vencedor do Prêmio Jabuti em 2019

Não sou o mais indicado para escrever sobre Danuza Leão. Nunca me interessei por seus textos e, por distância geracional, geográfica e de classe, jamais frequentei o seu meio. No entanto, chama a atenção o título de seu obituário escrito por Ruy Castro –"Danuza Leão ajudou a civilizar o Brasil e a consagrar as minissaias". O texto interessa pelo que não revela. É todo construído através do esvaziamento.

Danuza Leão com vestido do estilista Guilherme Guimarães, em 1966 - Arquivo Pessoal

Alguns exemplos –"Danuza já passara dos 80 e seguia na ativa". "Todo dia saía de seu apartamento em Ipanema, atravessava a rua e ia tomar um coco no quiosque em frente. Às vezes, variava e tomava um avião —ia a Paris, cidade que fazia de varanda, para observar o mundo." Seguir na ativa implicaria exercer suas atividades da vida toda. Aqui, a atividade é banal, mas interessa, já que revela o privilégio de quem tem Paris como extensão de casa.

Segundo Castro, Danuza era inclassificável, "portadora de uma bagagem que poucas mulheres reuniram numa encarnação". Nada sabemos da bagagem e sobre uma oferta que nunca veio para um programa de TV, porque seria perigoso deixar Danuza dizer o que pensa –as ideias perigosas tampouco são reveladas.

"Trocou o colégio por aulas particulares, livros impróprios para sua idade e viagens a Paris." A primeira troca implicaria algum tipo de prestígio social de família, o que o texto não informa, mas espanta a outra, por literatura e viagens internacionais. Há disparate nos termos da frase. No método de Castro, privilégio vira atitude, quebrar as regras é para quem quer.

Sobre a carreira internacional de modelo, pelo que sugere Castro, Danuza se ergueu pelos próprios cabelos, como o famoso barão da história infantil, e "decidiu que seria modelo na capital francesa". Conseguiu. Quando voltou da Europa, "achou o Brasil muito chato e começou sua longa missão civilizatória". Ela se casou com Samuel Wainer, que lhe abriu os círculos do poder. O tempo passa entre viagens, festas e, em casa, servindo "canapés aos banqueiros, militares, políticos e pelegos". Civilização é, portanto, para um pequeno círculo.

Nos anos 1990 Danuza resolve democratizar a sua sabedoria, "a 'sagesse' que só reservava aos amigos", com a publicação de um livro. "Em 1991, a constatação de que o Brasil não sabia mais o que era ética nem etiqueta a levou a escrever 'Na Sala com Danuza', um manual de procedimento, uma tentativa de reeducação antes que chegássemos à barbárie." Contra a barbárie, bons modos.

A escritora e modelo Danuza Leão, posa para foto em 1991 - Juan Esteves/Folhapress

Encerrada a leitura, resta a sensação de que uma força mítica conduz a vida de Danuza. Mas não há mais lugar para mitos, e o movimento real pode ser revelador.

O período de construção da sabedoria da modelo se dá durante a ditadura, e é sintomático que 1991 marque o receio da barbárie, ano em que Chico Buarque lança "Estorvo", romance que, segundo Roberto Schwarz, revela uma sociedade sem classes atravessada pela delinquência.

Chico não vai se cansar de dar notícia da sua cidade como signo do processo de deterioração social iniciado em 1964. Inimigo número um do bolsonarismo, perturbado em suas caminhadas pelo calçadão por jovens bem-nascidos excitados pelo neofascismo, Chico parte para Paris, de onde, assim como Danuza, observaria o mundo.

Daí surge o romance "Essa Gente", retrato cáustico das elites cariocas com seus compromissos com a violência e o consumo –outro tipo de barbárie e certamente um modelo diferente de civilização daquele apregoado por Danuza e Castro.

Olavo de Carvalho não se cansou de ofender o artista. "Num país em que Chico Buarque e Luis Fernando Verissimo são gênios da literatura, imaginem a estátua dos heróis da moralidade." Assim como nas frases de Castro, os termos de comparação têm lógica abstrusa.

Para Danuza, civilização era para poucos. Em pleno governo Dilma, se horrorizou com a ideia de encontrar o porteiro em Nova York –o que encontra ecos na fala de Paulo Guedes sobre a "festa danada" do dólar baixo durante o lulismo quando "até empregada doméstica ia para a Disney".

Às vésperas do segundo turno das eleições de 2018, entre Bolsonaro e Haddad, Ruy Castro deu de ombros e apenas esperou "que o Brasil seja grande o suficiente para absorver qualquer dos dois, digeri-lo e, em seu tempo, expeli-lo, até que surja alguém melhor".

A barbárie bolsonarista é socialmente construída –e precisa ser combatida em todas as suas esferas–, fruto de um país em que suas elites e ideólogos rifaram a própria consciência para manter sem culpa a civilização nos limites de casa. O vazio esconde privilégio, e, no limite, produz a barbárie.

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